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“É atrativo desafiar os detratores da ‘geringonça’”

Nuno Botelho

O ministro da Saúde garante que “se alguma vez existir uma rutura na sociedade portuguesa, não será na Saúde”. Ainda assim, não resiste a deixar um recado aos opositores

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Tem na frase “na política é preciso ter nervos de aço” um dos seus lemas para governar a Saúde e confessa que a coincidência de pensamento com os partidos, sobretudo à esquerda, sobre a defesa do Serviço Nacional de Saúde, tem-lhe facilitado a tarefa. Adalberto Campos Fernandes garante que “se alguma vez existir uma rutura na sociedade portuguesa, não será na Saúde”. Ainda assim, não resiste a deixar um recado aos opositores: que contrariar o prognóstico de morte da ‘geringonça’ é um estímulo diário. Para o médico e gestor, mais do que anunciar a vinda do Diabo, a direita deve dizer o que faria para evitar que o demónio venha.

Que matérias têm sido mais difíceis de dialogar à esquerda?
Tem sido relativamente fácil porque há uma identidade grande. O PS é o partido fundador do SNS e é um ativo ao qual está relacionado e que em nenhuma circunstância se quer demarcar. Portanto, o BE, PCP e os Verdes têm em relação ao SNS posições que são, na sua esmagadora maioria, coincidentes com as do PS. As parcerias público-privadas são um ponto de eventual divergência, nas taxas moderadoras o PCP tem uma ideia mais ambiciosa...

Se o Governo fosse só PS as medidas seriam diferentes?
Fui um dos redatores principais do programa eleitoral do PS e depois do Programa do Governo, com outras pessoas, nomeadamente com o professor Correia de Campos; e quando estávamos a fazê-lo não tínhamos ideia de qual seria o resultado das eleições. A resposta está dada, se tivéssemos de reescrever o programa da Saúde (sem PCP, BE e Verdes), iríamos escrever exatamente o mesmo.

E no próximo vai voltar a baixar as taxas moderadoras?
Vale a pena avaliar. Temos o maior número de cidadãos isentos, vamos ver. Cada orçamento é uma realidade e há muitas mais coisas em benefício das pessoas do que baixar taxas. Quando discutimos isto não podemos isolar a questão da procura dos cuidados privados e da relação de custo-oportunidade que o cidadão tem com a Saúde. Tem pouco tempo e vai a uma Urgência, incluindo no privado, que também tido crescimentos brutais. É one stop shopping.

Quando tomou posse, pensou que um ano depois ainda estaria aqui?
[Risos] Essa é a pergunta a que respondo sempre da mesma maneira. Quando entrámos, fomos confrontados com uma realidade que tinha riscos porque era inédita e que foi exposta a uma barragem política de que não há memória em Portugal, e não é fácil governar nestas condições. Por um lado, temos de transmitir aos cidadãos confiança, solidez e responsabilidade, e por outro debatemo-nos com uma crítica política permanente que, sendo legítima, nalguns casos não é razoável. No final deste ano, as piores previsões não se verificam e há um maior alinhamento entre o Governo e a opinião pública, que não está a ser capturada pelos arautos da desgraça, que continuam a falar cada vez mais sozinhos. Na política é preciso ter nervos de aço e isto significa ser fiel aos princípios. Temos de ser muito verdadeiros com as pessoas. Precisamos de tempo para chegar ao final da legislatura e para, na Saúde, deixar o SNS melhor. As pessoas estão cansadas e o ruído paga pouco.

Fala com dirigentes do PSD e do CDS?
Falamos no Parlamento sempre que necessário e informalmente. Não há nada estruturado mas muitas vezes há iniciativas que são partilhadas e até votadas em conjunto. Se alguma vez vier a existir uma rutura na sociedade portuguesa, não será na Saúde. E também não será pela Saúde que o Diabo aparecerá [risos].

E fala com os partidos da ‘geringonça’?
As vezes necessárias. Quando há um acordo político e incidência parlamentar, o normal é que nos momentos-chave haja conversas entre os partidos.

No Parlamento ou aqui no Ministério da Saúde?
No Parlamento, que é o local certo para essas conversas.

Há algum risco de o Diabo aparecer?
Como tem dito o Presidente da República, podemos olhar para os tempos que temos pela frente pelo lado do dark side ou do brigth side of the moon e ter uma aproximação à realidade baseada num otimismo voluntarista irresponsável ou num ceticismo negativista e deprimente. Nenhuma coisa é boa. O Diabo no mundo poderá aparecer a qualquer instante e mais do que anunciar a sua vinda, é importante que os atores políticos digam o que fariam para evitar que o Diabo viesse.

Mas não sente que há um otimismo voluntarista?
Não sinto.

Nem no episódio da Caixa Geral de Depósitos (CGD)?
Recomendo um exercício que um amigo economista fez há pouco tempo, revisitar as previsões macroeconómicas desde que o Governo foi eleito até ao dia de hoje. Estamos a falar de crescimentos negativos, de défices que se aproximavam dos 4% ou até a impossibilidade de os compromissos internacionais serem assegurados. E, agora, vemos o FMI a rever posições, os economistas da Bloomberg a fazerem reavaliações... Efetivamente, valia a pena acreditar numa trajetória sustentável porque os sinais iam no sentido de que os objetivos iam ser atingidos.

Mas as previsões dos conselhos macroeconómicos foram reavaliadas em baixo.
Muito bem, mas no fundamental chegámos ao final do ano com Portugal a cumprir, pela primeira vez desde há 42 anos, a meta do défice. Para o sucesso do país vai contar a provável, e quase certa, saída do procedimento por défice excessivo, a evolução do desemprego, que até a nós surpreendeu; o crescimento do turismo...

E a economia?
Não foi tão boa como gostaríamos mas os economistas da Bloomberg já falam em 1,3%, que é acima do previsto. É fundamental que nos concentremos no essencial: a estabilização do sector financeiro. Mais do que as questões processuais, complexas e que podiam ter sido evitadas, é importante saber se o sistema financeiro português, a começar pela CGD, entra numa fase de estabilização. É importante para o financiamento da economia.

O PCP diz que os €8,5 mil milhões que gastamos com a dívida chegariam para financiar o SNS. Partilha desta ideia?
Partilho que €8,5 mil milhões é quase o orçamento do Serviço Nacional de Saúde.

Não partilha que seja feita uma renegociação da dívida?
Creio que é uma matéria demasiado sensível para que um país com a dimensão de Portugal possa tomar fora de um quadro que tem de ser europeu. Temos responsabilidades que não se esgotam numa legislatura e os governos têm de ponderar sobre essa matéria.

Quando olha para 2017, a ‘geringonça’ é uma ‘bomba-relógio’ que pode rebentar a qualquer momento?
Lembro-me da “crise do irrevogável”. Qualquer solução política em qualquer parte do mundo é suscetível de romper, basta que haja sobre matérias concretas uma diferença. Mas é esse o atrativo de soluções como esta. É todos os dias desafiar os detratores da ‘geringonça’ de que ela funciona. A questão não é conservar o poder, Portugal não se pode é dar ao luxo de não ter soluções de quatro anos.

Um bom ministro da Saúde precisa de ser mais gestor ou saber de medicina (no seu caso tem ambas as competências)?
Precisa de ter bom senso, humildade e também alguma intuição política.

Utiliza o serviço privado?
Não utilizo nem o privado nem o público, porque felizmente não tenho tido necessidade nem tempo. A minha família utiliza o SNS e pontualmente o sector privado.

E tem seguro de saúde?
Não. A minha mulher trabalha numa Unidade de Saúde Familiar e acaba por existir mais facilidade...

À portuguesa.
Sim, mas tudo dentro da legalidade [risos]. Mas se tiver de utilizar um hospital privado ou social, faço-o sem qualquer constrangimento. Não é aí que se vê a fidelidade de uma pessoa ou de um político aos princípios, porque é sua obrigação defender o serviço público.