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Críticos já têm assinaturas 
para congresso contra Passos

Rui Duarte Silva

Queda nas sondagens e receio de hecatombe nas autárquicas pode antecipar calendário para Rui Rio ir a jogo contra Passos

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

“As assinaturas já existem. Agora é ir avaliando.” A garantia é de um ex-dirigente do PSD, ex-passista e hoje um empenhado crítico da sua liderança; as assinaturas, mais de 2500, chegam para convocar um congresso extraordinário e desafiar o líder do partido; a avaliação que está a ser feita é sobre o momento em que o processo pode ser desencadeado.

Rui Rio, apesar de se ter disponibilizado para uma candidatura à liderança em 2018 (no final deste mandato de Passos e já depois das autárquicas), é o nome que está em jogo — entre os seus apoiantes há a confiança de que, se houver uma antecipação do calendário, o ex-presidente da Câmara do Porto não terá margem para recuar no confronto com Passos. “Se houver dados novos, ele avaliará. Mas não vai dececionar quem o tem apoiado”, jura um dos motores desta estratégia. Até porque o pressuposto para uma disputa em 2017 é a questão central identificada por Rio: a queda do PSD nas sondagens e a preocupação que essa falta de mobilização está a provocar no partido.

“Rui Rio disse que admite ser candidato, o que nunca tinha dito antes, e pôs como condição ter apoios e o partido não conseguir ‘descolar’ nas sondagens. Apoios ele tem, a questão é se Passos tem ou não um projeto mobilizador. Essa avaliação faz-se em 2018, mas também pode ser antes”, diz o mesmo apoiante, que acrescenta: “Isto não dá para esperar por 2018.”

A decisão de desafiar Passos antes das autárquicas não é definitiva e há sensibilidades diferentes. O limite temporal, apurou o Expresso, será março/abril. “Depois disso é muito em cima das autárquicas”, diz um dos promotores da recolha de assinaturas, que falou com o Expresso sob anonimato. Haverá dois fatores decisivos: o desfecho do processo de escolha de candidatos às autárquicas e a evolução nas sondagens. Conforme se fechem as candidaturas pelo país, “as pessoas que agora o criticam na clandestinidade vão começar a fazer barulho”, garante um responsável local, que fala num “clima irrespirável”. Por outro lado, se continuar a queda de Passos e do PSD nas sondagens, há o receio de que essa erosão contamine os candidatos autárquicos, sobretudo nos grandes centros urbanos.

A perspetiva de Rio ter de enfrentar umas autárquicas muito difíceis mal chegue à liderança não é animadora (seria mais confortável deixar para Passos essa fatura), mas contra esse receio há quem note que a mudança de líder pode dar um suplemento de alma ao PSD. Por outro lado, há apoiantes de Rio com a perceção de que este “ou avança em 2017 ou depois das autárquicas pode ser demasiado tarde”. Há receio de que as eleições locais sejam “uma hecatombe” — os holofotes estão em Lisboa e no Porto, mas há dezenas de conflitos locais que estão a minar o ambiente no partido. Um mau resultado pode fazer com que mais gente se afaste de Passos, surgindo mais candidatos à sucessão — e a divisão na oposição pode ser prejudicial a Rio ou, até, aumentar as hipóteses de o atual presidente se manter na liderança.

Marcar um congresso não implica uma mudança de líder (que só é eleito em diretas), mas a sua convocação contra a vontade de Passos seria o gatilho para a disputa da liderança. Para a oposição que quer lançar Rio, o ideal seria que a iniciativa partisse do líder. Carlos Encarnação, ex-secretário de Estado e ex-presidente da Câmara de Coimbra, fez ontem esse desafio. Em entrevista à Antena 1, o antigo dirigente nacional do PSD defendeu um congresso extraordinário, argumentando que “as pessoas estão inquietas”, “isto não está bem” e “com o caminho que levamos não chegamos lá”. Encarnação está a colaborar com o think tank Portugal Não Pode Esperar, um movimento crítico de Passos, promovido pelo ex-líder da JSD Pedro Rodrigues, que é próximo de Nuno Morais Sarmento e tem mantido ligações com vários sectores da oposição interna, nomeadamente Rui Rio. O ex-autarca de Coimbra, que se mostra muito preocupado com a escolha do candidato às eleições na sua cidade, desafiou Passos a “perguntar-se qual é o papel dele no meio disto tudo” — de preferência, num congresso.

Relvas segura Passos; MAC expectante

Na equipa de Passos, essa hipótese é rejeitada. Há quem admita que o líder teria vantagem em tomar a iniciativa, mas “isso não é o feitio do Pedro”, aposta um membro da comissão permanente, que não vê o presidente do PSD a estender uma passadeira vermelha aos seus críticos, desviando as atenções para os problemas partidários. Mas Passos diz-se pronto para a refrega: nos últimos tempos desafiou os que tenham ideias diferentes das suas a que “venham daí”, com a promessa: “Vão ter de se haver comigo.”

Na sede da São Caetano à Lapa há a confiança de que o partido profundo está com o líder que ganhou eleições há um ano e um congresso há nove meses. Mas há mais do que isso: numa refrega Passos/Rio, os apoiantes do líder estão convictos de que Miguel Relvas, apesar das divergências dos últimos anos, ajudará Passos a ganhar. Por razões táticas: a aposta de Relvas para o futuro do partido é Luís Montenegro, mas é cedo demais para este assumir uma alternativa. Deste ponto de vista, derrotar Rio agora teria a dupla vantagem de tirar de cena um adversário de peso e prolongar a vida política de Passos por mais tempo. Outro barão que será decisivo é Marco António Costa — apesar de algumas críticas que faz em privado à atuação de Passos, continua a ser-lhe indispensável. Mas mantém boas relações com Rui Rio e várias pontes com os críticos.

A recolha de assinaturas para um congresso (que o Expresso não viu mas confirmou com várias fontes) teve como um dos polos mobilizadores a concelhia de Lisboa, onde a guerra por causa das autárquicas está ao rubro — o jantar de há uma semana, em que o nº 2 da concelhia, Rodrigo Gonçalves, desafiou Passos a protagonizar a candidatura à capital, foi uma prova de força: mais de mil pessoas, entre as quais homens do aparelho que controlam muitos votos, críticos de Passos e gente que esteve com ele mas se afastou — casos de Ângelo Correia, Moita Flores ou o deputado Feliciano Barreiras Duarte. Na mesa de honra foi notada outra presença: Luís Alves Monteiro, ex-governante social-democrata e atual partner da Boyden Portugal (e, nessa qualidade, “patrão” de Rio, que é consultor desta multinacional).

Mauro Xavier, o líder concelhio, demarcou-se do seu “vice”, mas não lhe retirou a confiança política — Xavier está cada vez mais longe de Passos e próximo de Rio. Mas Lisboa é só a ponta do icebergue, garantem. “Por todo o país há gente que Passos desiludiu, há conflitos das autárquicas que vão deixar feridas e há a ideia de que ele deu o que tinha a dar”, diz um crítico. “Mesmo na direção do PSD”, acrescenta. Há dias, o presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis, Hermínio Loureiro, dizia a Passos, via Facebook: “Peço que tenhas os olhos bem abertos com as raposas que tens no galinheiro.”

Rui Rio tem sido convidado para palestras, almoços, jantares e apresentações de candidatos, estreitando uma ligação às bases que, de acordo com responsáveis locais ouvidos pelo Expresso, está a “ganhar tração” em distritos com força no PSD: além de sectores importantes de Lisboa e do Porto, o ex-autarca da Invicta tem recolhido apoios nos distritos de Aveiro, Viseu, Leiria e Coimbra. “Ainda é um movimento clandestino”, admite um deputado. Ainda.


no último congresso que se realizou
este ano em Espinho FOTO Rui DUARTE silvaPSD