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Marcelo dá a mão ao líder do PSD

Marcelo Rebelo de Sousa intervém durante a sessão de encerramento do encontro anual do Conselho da Diáspora, a 22 de dezembro, na Cidadela de Cascais.

TIAGO PETINGA/LUSA

PR convidou Passos para almoçar em Belém no dia 29. Marcelo defende que o atual líder deve ir às legislativas

Marcelo Rebelo de Sousa abriu uma exceção na sua agenda e, à margem dos habituais cumprimentos natalícios, convidou o líder do PSD para um almoço em Belém. Ontem, o Presidente recebeu as Boas Festas do Governo. Hoje recebe a líder do CDS, que lhe pediu audiência para o mesmo efeito. E ainda receberá uma delegação da Assembleia da República. Mas, para o líder da oposição, Marcelo reservou um encontro especial — Pedro Passos Coelho almoçará a sós com o PR no próximo dia 29.

O momento em que o convite acontece não é alheio ao clima de guerrilha que se vive no PSD, com Passos debaixo de fogo dos que querem acelerar a sua queda e já ponderam um Congresso extraordinário. Marcelo acha um erro o partido estar a discutir o comando da oposição nesta altura e está empenhado em ajudar a evitar que o PSD venha provocar ruturas no atual xadrez político antes do fim da legislatura.

O primeiro sinal disso chegou há um mês, quando numa conferência sobre 2017 o Presidente da República afirmou que “tudo tem feito para que se mantenha a estabilidade que é desejável, na área do Governo como na área da oposição, no plano dos partidos como no plano das suas lideranças”. Na altura, o Expresso acabava de noticiar os planos de Rui Rio para disputar a liderança a Passos. Eis o que Marcelo não quer. “A imprevisibilidade que nos rodeia exige previsibilidade interna”, afirmou, no mesmo discurso. E até sinalizou um aconchego a Passos ao elogiar o “reajustamento da oposição” e ao dizer que, por experiência própria, tem “noção da complexidade desse reajustamento”.

Este “dar a mão” a Passos Coelho é lido nos meios sociais-democratas de duas maneiras: há quem acredite que o Presidente está mesmo preocupado em garantir que a legislatura se cumpre com estabilidade por achar que isso é decisivo no contexto de incerteza que se vive a nível internacional; e há quem pense que Marcelo está a pensar em si próprio e no plano que já terá na cabeça, de ver António Costa ganhar folgadamente as legislativas para de seguida o apoiar numa recandidatura a Belém. Neste caso, Passos seria apenas o “seguro de vida” de Costa (como lhe chamam no PS) e Marcelo ver-se-ia livre da eventual entrada em cena de Rui Rio, que se ganhasse a liderança da oposição seria uma carta bem menos previsível, quer para São Bento quer para Belém.

Presidente partilha 
avisos “sérios” no OE

A comunicação que Marcelo esta semana fez ao país sobre a promulgação do Orçamento do Estado para 2017 é uma peça na estratégia presidencial de manter o atual xadrez político. Porquê? Porque o PR arranjou maneira de legitimar os registos, quer do Governo quer da oposição. Se por um lado falou de 2016 como um ano “caracterizado pela procura de serenidade, diálogo e rigor financeiro” e associou a promulgação do OE ao objetivo de “aumentar a esperança dos portugueses no futuro” (e aqui deu a mão a Costa), por outro alinhou com os avisos de Passos sobre o real estado da nação.

Os quatro “desafios sérios” que o PR deixou sobre este OE (do qual disse, aliás, não estar “necessariamente de acordo com tudo, politicamente e juridicamente”) são quatro recados para o Governo de Costa. Perante a “imprevisibilidade no mundo e na Europa”, Marcelo alerta que é preciso “atenção à consolidação do sistema bancário”, à “necessidade de mais crescimento económico para garantir a sustentabilidade do rigor orçamental”, ao “desafio do aumento das exportações, sobretudo as de maior valor acrescentado”, e ao “acréscimo de investimento e melhor utilização de fundos europeus”, para “termos um crescimento superior aos últimos anos”. Eis Marcelo a tentar fazer pontes entre Costa e Passos. Não é certo que o PSD o ouça.