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Relvas aposta em Montenegro, que está com Passos, que se afastou de Marco, que...

Marcos Borga

PSD vive clima de intriga. Há alinhamentos que já se percebem e quem espere para ver

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Rui Rio deu o tiro de partida, mas no núcleo duro de Pedro Passos Coelho há quem ironize que foi um tiro na água. Tão cedo Passos não terá quem lhe dispute a chefia do partido. As autárquicas daqui a nove meses desaconselham perturbações do calendário, uma antecipação, em clima pré-eleitoral, poderia virar-se contra o partido e, nesta fase, “só serviria para Passos reforçar a sua posição”, acreditam os críticos. Rio, aliás, colocou o seu horizonte em 2018. Mas esperar não significa estar parado.

“Isto exige paciência”, avisa um barão social-democrata apostado numa mudança interna. Esta é a fase em que aspirantes à liderança fazem prova de vida. O ex-autarca do Porto foi o único a fazê-lo em público, mas todos o fazem nos bastidores. Rio, como Paulo Rangel ou Luís Montenegro, aproveita todas as oportunidades para alargar contactos dentro do partido, em almoços, jantares, apresentações de candidatos e tudo o que permita tecer uma rede.

Há alinhamentos que já se percebem e há quem espere para ver. Há quem aposte na queda de Passos logo a seguir às autárquicas — é o cenário de Rio e dos seus apoiantes: o desafio do vice-presidente da concelhia de Lisboa para que Passos se candidate à capital (ver ao lado) insere-se numa estratégia de desgaste que será mais acentuada logo que fiquem fechadas as escolhas autárquicas. Mas há quem prefira que o atual líder vá até às legislativas, para o tira-teimas com António Costa. “Passos tem de ir a eleições para gastar as vidas todas: se ganhar, ótimo, de perder, fica arrumado”, diz um influente social-democrata.

Relvas & Montenegro

Miguel Relvas, peça-chave na caminhada de Pedro Passos Coelho para a presidência do PSD, há muito que se afastou do atual líder e aposta em Luís Montenegro, o líder parlamentar. Tem feito por Montenegro algo parecido com o que fez por Passos: apresentá-lo a quem interessa — desde empresários a diplomatas —, promovê-lo como “o senhor que se segue”. Um trabalho discreto, mas nada secreto. Luís Marques Mendes também mantém uma relação próxima com o líder parlamentar e em privado não esconde que gostaria de o ver como presidente do PSD. Até Marcelo Rebelo de Sousa, que segue a par e passo a vida do PSD, elogiou numa cerimónia pública as “qualidades invulgares” de Montenegro, a quem prognosticou “muitos sucessos políticos”.

No entanto, a aposta no líder parlamentar tem uma implicação: sendo um dos rostos mais visíveis da equipa de Passos, nunca se apresentará contra o atual presidente. A sua lealdade com Passos é inquestionável, garante quem o acompanha de perto. Defende que o ex-PM tem toda a legitimidade para voltar a ir a votos contra Costa e nunca lhe regateou apoio. Mas a partir do verão de 2017 Montenegro deixará de ser o segundo rosto do PSD. Não pode voltar a candidatar-se a líder parlamentar, o que significa que terá menos palco, mas mais liberdade. Calha bem. O seu tempo é depois de Passos sair de cena.

Relvas sabe disso e também não tem pressa de empurrar o atual líder borda fora. Para já, basta-lhe que Montenegro seja olhado como possível sucessor. Já é. Está nas listas de putativos candidatos, ao lado de Rio, de ex-candidatos como Rangel e Aguiar Branco, e de ex-líderes, como Santana Lopes e Marques Mendes, que, segundo Morais Sarmento, podem ter a tentação de voltar. (Mendes jura que não, Santana não jura nada.)

Apesar do clima de intriga, quem conhece bem o partido admite que as bases ainda não viraram as costas ao ex-PM. Há cansaço em relação ao seu estilo, preocupação com as más sondagens e alarme com as autárquicas, mas “mesmo quem critica Passos está-lhe reconhecido, porque ele governou em circunstâncias muito difíceis, ganhou as eleições e foi afastado do Governo”, diz um líder distrital. “Quem não percebe isto não percebe o PSD”, conclui.

Marco com todos

E se há alguém que percebe o PSD é Marco António Costa, que sucedeu a Relvas no papel de “homem do aparelho”. Continua a ser o melhor operacional de Passos no terreno, apesar do afastamento entre ambos desde que o PSD voltou à oposição. Continuam a falar muito, mas o homem do Porto ficou fora da gestão das autárquicas e é muitas vezes surpreendido pela agenda do líder. Tem sido notória a atividade “a solo” de Marco António Costa — marca presença em ações da JSD, que continua a ser um dos grandes músculos eleitorais do partido, e por estes dias tem uma sucessão de contactos com entidades do distrito do Porto, desde o bispo a ordens profissionais, ao lado do presidente da distrital, homem de sua confiança.

Embora já não tenha a relação que teve no passado com Passos, Marco António será decisivo para o líder caso este seja desafiado em 2018. Depois disso, logo se verá. “MAC” mantém boas relações com Rio, fala bastante com Relvas e Mendes, almoça regularmente com Rangel, convidou há tempos Montenegro (e Relvas) para jantar em sua casa, numa aproximação tática entre dois dirigentes que eram vistos como potenciais rivais.

Marco António costuma dizer que é preciso saber “para que lado a bola pincha” — é isso que está a tentar perceber, para se manter no jogo. “Isto é o PSD no seu melhor, todos a ver como é que se safam”, dizia esta semana ao Expresso um passista desiludido. Que também anda a ver como é que se safa.