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Daniel Adrião sobre o PS: “Ou os partidos do sistema mudam ou morrem a prazo”

Ex-opositor de António Costa colabora na revisão de estatutos do partido. “Há gente em Portugal a ocupar cargos políticos há mais tempo que o Salazar”, diz o socialista, em entrevista ao Expresso Diário, insistindo em eleições primárias para todas as candidaturas. “Os partidos precisam de um banho de cidadania”

Adriano Nobre

Adriano Nobre

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Jornalista

José Caria

José Caria

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Fotojornalista

Daniel Adrião apresentou uma moção global de estratégia no último congresso

Daniel Adrião apresentou uma moção global de estratégia no último congresso

josé caria

Daniel Adrião defrontou António Costa no último congresso com uma moção que defendia, entre outras coisas, eleições primárias abertas a simpatizantes do PS para escolher todos os candidatos do partido a cargos políticos: secretário-geral, deputados, presidentes de câmara, Parlamento Europeu ou presidentes dos Governos regionais da Madeira e Açores. Agora, integra, a convite de Costa, uma comissão que propõe rever os estatutos do partido.

O movimento que criou, intitulado “Resgatar a Democracia”, tem cerca de 10 mil seguidores nas redes sociais e o objetivo de corrigir o “absurdo” de ter “um sistema político completamente divorciado dos cidadãos, que não se sentem minimamente representados”. Porque, diz, o facto de os deputados portugueses já representarem menos de 50% dos eleitores coloca em causa a própria sobrevivência do PS. E dos restantes partidos.

josé caria

Acha mesmo que a democracia precisa de ser “resgatada”, como titulou a sua moção?
Não temos medo de utilizar essa expressão porque é exatamente disso que se trata. Queremos resgatar a democracia, que foi capturada por uma elite cristalizada que representa cada vez menos os cidadãos.

Bernie Sanders justificou parcialmente a vitória de Trump com o facto de a classe média não estar minimamente representada na agenda da elite democrata. Sente o mesmo?
Exatamente. Os chamados ‘blue-collar workers’, por mais paradoxal que pareça, foram quem deu a vitória a Donald Trump. Porque há um grave problema que se acentuou com a globalização neoliberal: hoje a riqueza está mais concentrada do que nunca. Há 1% que acumula mais dinheiro e riqueza do que os restantes 99%. O fosso entre ricos e pobres é cada vez mais gritante e cada vez mais pessoas vivem abaixo da linha de água. Em Portugal, a taxa de risco de pobreza tem vindo a aumentar. Um em cada quatro portugueses está numa situação de pobreza ou de exclusão social. No último exercício fiscal, houve 68,5% de portugueses que declararam um rendimento inferior a 7 mil euros anuais. Isto significa menos de 600 euros por mês. Somos dos países mais desiguais da Europa e do Mundo desenvolvido. Quem o diz é a OCDE.

Acha que este contexto pode permitir a ascensão de fenómenos populistas e de extrema direita como temos assistido noutros países?
Claro.

Mas a extrema direita em Portugal tem sido residual...
Portugal é um país onde estes fenómenos chegam com algum atraso. Mas admito que possa acontecer, embora a atual solução de Governo funcione como um tampão a esses movimentos mais extremistas. Agora uma coisa é certa e a realidade tem mostrado isso: quem vive abaixo da linha de água e vive vidas extremas está cada vez menos disponível para apoiar políticas moderadas. E isto é um perigo. Mas se quisermos encontrar as causas do extremismo, temos de procurar entre a miséria e o absurdo.

Como assim?
Porque é o absurdo da situação a que chegámos, de ter um sistema político completamente divorciado dos cidadãos, que não se sentem minimamente representados. Em Portugal não há eleição que não bata um novo recorde de abstenção. Os deputados que temos hoje na Assembleia da República já representam menos de 50% do eleitorado. É insustentável.

Porque é que acha que isso acontece?
Em parte porque nós não elegemos deputados, elegemos partidos. Em nenhum momento do processo eleitoral temos a possibilidade de escolher quem queremos que nos represente. Os partidos apresentam uma lista fechada que a generalidade dos portugueses desconhece em absoluto. E no momento de votar, o que está no boletim é o símbolo dos partidos e não os deputados, que são escolhidos pelos diretórios partidários, sem qualquer interferência nisso. E as pessoas estão cada vez mais cansadas de passar cheques em branco aos partidos.

josé caria

Que resultado prático teve a moção que apresentou no Congresso? Está a haver discussão interna no PS?
As ideias neste momento estão em discussão no âmbito da proposta de alteração estatutária que apresentámos. E esta revolução democrática tem de fazer-se a dois tempos. Primeiro a montante, nos partidos, e depois a jusante, no sistema de representação política. A nível dos partidos, o que entendemos é que se devem democratizar os processos de escolha dos representantes. Designadamente do líder do partido, que deve ser eleito através de primárias, como já sucedeu com o atual líder, num processo que correu muitíssimo bem, com a participação de 180 mil eleitores, a esmagadora maioria dos quais simpatizantes do PS e não militantes. Por isso não compreendemos como é que este processo pode ser descontinuado. Ele tem de ser retomado.

Para a escolha de candidatos do PS ao Parlamento Europeu, câmaras municipais...?
Exatamente. As primárias abertas a simpatizantes devem ser não apenas para a eleição do secretário-geral, mas para todos os candidatos a titulares de cargos políticos: deputados, presidentes de câmara, Parlamento Europeu ou presidentes dos Governos regionais da Madeira e Açores. A escolha dos representantes deve ser feita pela base social de apoio do PS. Os militantes representam uma ínfima parte da base social de apoio do PS e quanto maior e mais diversificado o número de indivíduos que participar nestas decisões, mais as decisões serão acertadas.

Mas qual é o feedback que tem tido do partido?
A direção do PS propôs um grupo de trabalho para podermos em conjunto analisar uma proposta mais abrangente de revisão estatutária. E para nós esta questão é essencial e temo-nos batido por este tema nas reuniões que houve. Vemos que há alguma abertura para a discussão em tese. Mas depois há de facto resistências do aparelho do partido.

Com que prazo está a trabalhar esse grupo de trabalho para apresentar conclusões?
O calendário inicial apontava para o primeiro trimestre de 2017. Vamos ver se até lá conseguimos ter conclusões e conseguir apresentar uma proposta conjunta. O que pode até nem acontecer, porque podemos nem chegar a acordo.

E se não houver acordo, qual é o próximo passo?
Foi votada uma deliberação no sentido de a proposta de alteração estatutária que apresentámos não ser decidida no congresso e ser remetida para discussão e votação na comissão nacional. Portanto, o passo que se seguirá é esse: agendar o assunto para uma reunião da comissão nacional e votar a única proposta de alteração estatutária que está em cima da mesa e que foi apresentada no contexto regulamentar do congresso.

josé caria

Está preparado para que uma revisão de estatutos no PS possa contemplar muita coisa menos essas primárias para todos os candidatos a cargos políticos?
Não. Para nós isto é fundamental. Não apoiaremos nenhuma revisão estatutária que não passe por alargar o universo das decisões sobre candidatos a cargos políticos à base social de apoio ao PS. O povo quer mudanças muito profundas ao nível do sistema de representação política. Há um estudo que diz que em Portugal há cerca de 50% dos cidadãos que manifestam simpatia por um partido, mas só 2% é que militam em partidos. É preciso mudar completamente o modelo de organização do partido. E isso passa não apenas pela questão das primárias. Passa por outras transformações, como a utilização das novas tecnologias para ter uma auscultação permanente do sentimento da base social do partido e do que pensam os cidadãos. Temos muita gente neste movimento. Usamos as redes sociais para comunicar com as pessoas, temos quase 10 mil seguidores na nossa página e continuaremos a alimentar este movimento porque isto é o futuro.

E se não avançar dentro do PS? Admite avançar com algo fora do partido?
Não. Nós queremos trazer o PS para a sociedade, abrir o partido. Porque acreditamos que isso é fundamental para a sua sobrevivência. Do PS e dos outros partidos também. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que isso aconteça, porque os partidos precisam de um banho de cidadania. Independentemente de as coisas até estarem a correr agora bem ao PS, porque isso é conjuntural. E o que estamos a propor é uma reforma estrutural. Ou os partidos do sistema mudam ou morrem a prazo. Porque as pessoas já não acreditam nos partidos e não se reveem nos seus representantes.

Apoiou António Costa nas primárias do PS. Está satisfeito com o resultado deste primeiro ano de governação?
Estou satisfeito com a solução de governação, porque trouxe alguma normalidade e tranquilidade ao país. Temos hoje um clima social muito mais distendido. Hoje as pessoas sabem que há um esforço muito grande do Governo para salvaguardar os mais fragilizados e isso é um sinal muito importante. Foi fundamental repor os mínimos sociais. Agora, a equação social foi muito bem tratada, dentro dos condicionalismos existentes, mas há outro lado da equação, que é a parte económica. E aí ainda há muito por fazer. Não podemos continuar com taxas de crescimento ou negativas ou na ordem de 1%, porque isso não é suficiente. O país precisa de crescer muito mais para suportar os encargos da dívida.

É favorável à reestruturação da dívida?
A nossa moção defende uma renegociação da dívida e uma revisão dos tratados. O que acho é que isso não se pode fazer de forma unilateral e contra as instituições europeias, e o caso grego, no fundo, constitui uma lição. Mas acho que António Costa tem mais condições para fazer isso do que o Tsipras tinha. Porque está integrado numa grande família europeia, o Partido Socialista Europeu, e Tsipras não pertencia a nenhuma grande família europeia. E Costa pode sensibilizar alguns líderes socialistas europeus para que haja uma reforma das instituições europeias, do Tratado Orçamental e uma renegociação da dívida. António Costa devia liderar esse movimento na Europa. Se os países do Sul da Europa decidirem que esse é o caminho, os países do centro e norte da Europa ficam numa situação complicada.

Está agora a lutar por este manifesto, já foi duas vezes candidato à JS... que ambições políticas tem?
Há quem desde pequeno se tenha preparado para ser líder do PS. Mas eu tenho da política uma visão que não é olímpica. Não intervenho para ficar em primeiro lugar: intervenho por apelo de cidadania. Abomino a carreira política e a político-dependência, as pessoas que entram para a política e parece que entraram para uma função pública de primeira categoria. Há gente em Portugal a ocupar cargos políticos há mais tempo do que o Salazar. Porque isto é uma porta giratória: vão de deputados para presidentes de Câmara, de presidente de câmara para deputado, depois para o Parlamento Europeu e assim sucessivamente. Não há renovação. E não é um processo de seleção que passe pelo povo. Isso descredibiliza.

Não tem, portanto, ambições além deste manifesto?
Fui candidato a secretario-geral da JS contra António José Seguro e Sérgio Sousa Pinto. E perdi nas duas vezes. Nessa altura fui sempre membro da comissão nacional por representação da JS. Fiz-me sempre eleger. Nunca precisei de ir à boleia. Nunca tive padrinhos ou beneficiei do situacionismo. Apresentei propostas e fui eleito em nome dessas propostas. E foi isso que sucedeu mais uma vez agora. É preciso que haja pessoas disponíveis para perder e que não precisem da política. Porque quem precisa não pode fazer isto. É pena que não exista mais gente disponível para alimentar um debate plural. Porque nós não somos um movimento de oposição ou crítico. Somos um movimento de massa crítica. Até porque apoiamos Costa e esta solução de Governo.