Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Passos Coelho: um líder cercado...

PÓS-PASSOS. Apesar de reeleito em abril com 95% dos votos dos militantes do PSD, Passos está a ser cada vez mais criticado

luís barra

Têm sido dias difíceis para Pedro Passos Coelho. Apesar da sua atitude impassível, de quem cumpre a sua agenda de “business as usual”, nas últimas semanas tornou-se evidente que o líder do PSD está cercado em várias frentes

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Passaram apenas oito meses sobre o último congresso do PSD, mas já só se ouve falar do próximo – que, em circunstâncias normais, deveria realizar-se na primavera de 2018. Se a vida de um líder partidário na oposição não é fácil – António José Seguro que o diga –, a de um ex-primeiro-ministro na oposição é ainda mais complicada. Pedro Passos Coelho fez história (involuntariamente, é certo) ao vencer umas eleições e, no entanto, não conseguir formar Governo. Outro, no seu lugar, talvez tivesse atirado a toalha ao chão. Ele, baralhando os planos de quem estaria a fazer essas contas à vida, escolheu ficar.

E até foi reeleito (em março), com 95% dos votos dos militantes. Mas, um ano depois das legislativas, e com a ‘geringonça’ em velocidade de cruzeiro, começa a ser cada vez mais evidente a falta de paciência de alguns para a “cepa torta” em que o PSD de Passos parece “atascado”.

… pelo PSD

Vá somando: Rui Rio, Paulo Rangel, Luís Montenegro, Aguiar-Branco, Pedro Santana Lopes, Marques Mendes… E vão seis nomes que têm sido veiculados na imprensa, e correm nos ‘mentideros’ do PSD como podendo suceder a Pedro Passos Coelho. Antes dos nomes, que nesta fase misturam indícios concretos com uma boa dose de especulação, vale a pena atentar no facto: a sucessão de Passos Coelho já está na ordem do dia no PSD. Ainda esta segunda-feira, no i, o antigo líder parlamentar Guilherme Silva ensaiava uma espécie de guia de marcha: “Se for necessário mudar de líder, lá terá de acontecer”.

A questão não é se, é quando: nas autárquicas ou só depois das legislativas? Rio abriu a Caixa de Pandora, assumindo a divergência com a forma como Passos tem dirigido o partido e criticando a ausência de uma mensagem mobilizadora. E marcou o embate para o próximo congresso, agendado para março de 2018: nessa altura, já conhecidos os resultados das autárquicas e decorrida mais de metade da legislatura, o ex-autarca do Porto admite medir forças com o ex-primeiro-ministro. Se não for a jogo, outros o poderão fazer: Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco, os adversários de Passos nas diretas em que este foi eleito, em 2010, estão atentos e marcam terreno.

No caso de Passos Coelho sair por si – seja depois das autárquicas, seja depois de uma derrota contra António Costa – o leque de hipóteses é mais amplo. O líder parlamentar, Luís Montenegro, nunca disputará o cargo ao atual presidente do PSD, mas está a fazer o tirocínio para quando Passos sair de cena e tem apoios de peso – Miguel Relvas e Marques Mendes. E Nuno Morais Sarmento veio há dias lembrar que os dois ex-líderes do PSD ainda no ativo podem ter a tentação de voltar ao lugar onde (não) foram felizes: Pedro Santana Lopes e Marques Mendes. Enquanto Mendes nega com todas as forças que tem ideia lhe possa passar pela cabeça, Santana tem a cautela de político que quer e já passou por muito. “não está nos meus planos”, respondeu em entrevista, ao Expresso, quando questionado sobre voltar à chefia do PSD. Mas acrescentou: “Já sei o suficiente da vida para não dizer que isso nunca acontecerá de certeza”.

… pelas autárquicas

Foi Passos Coelho quem colocou a fasquia pela qual se medirá o sucesso ou insucesso do PSD na noite das eleições locais: ter mais câmaras do que o PS. Na prática, isto significa recuperar da hecatombe de 2013, quando o PS conquistou 150 autarquias e o PSD se ficou pelas 106. Na prática, o PSD sabe que isto não vai acontecer. Seria sempre difícil, mas a forma como a direção do partido está a gerir o processo, sem meter a mão na massa e sem empenhar o seu peso político para convencer candidatos de primeira linha, estará a tornar tudo ainda mais complicado. A taxa de aprovação do Governo e a baixa popularidade de Passos também não ajuda nesta fase do campeonato.

Lisboa e Porto são exemplos acabados do estado da arte do PSD em relação às eleições locais. Na Invicta, o candidato contra o mediático e popular Rui Moreira (independente que agora tem o apoio do PS e do CDS) será o quase desconhecido Álvaro Almeida, ex-presidente da Entidade Reguladora da Saúde. Na capital, depois de meses à espera de Santana Lopes, o PSD terá de escolher um candidato de recurso, pois até para apoiar Assunção Cristas é demasiado tarde. Dentro do partido há o reconhecimento de que, apesar de poder melhorar a cifra de câmaras, dificilmente o PSD conquistará uma capital de distrito ou uma das cinco grandes autarquias do país.

... pela herança do seu próprio Governo

Os últimos casos fazem manchete nos jornais de hoje: “Passos entrega à pressa diamantes a Angola”, intitula o Correio da Manhã, enquanto o Público volta ao folhetim Caixa Geral de Depósitos para revelar que “Governo Passos congelou alertas das Finanças até perto das eleições”. Passos não se livra do passado – e não é só daquele de que ele próprio faz questão de não se livrar.

O facto de ter feito questão em manter por perto (como sua vice-presidente) Maria Luís Albuquerque não ajuda, tantas são as vezes em que decisões da ex-ministra das Finanças (no BES, no BANIF, na CGD, nas contas públicas) continuam a ser postas em causa pelo Governo (ou pelos seus parceiros parlamentares). Isto para não falar na polémica gerada, logo no início do ano, por ter aceitado ser administradora não-executiva da Arrow Global, uma empresa anglo-saxónica especializada na angariação e recuperação de dívida pública e privada e de análise de risco. A comissão parlamentar de Ética haveria de concluir pela inexistência de incompatibilidades mas mesmo dentro do PSD as críticas foram mais que muitas.

… por Marcelo Rebelo de Sousa

Como lembrou este domingo Marques Mendes, Passos e Marcelo não têm sido os melhores amigos nos últimos anos e isso... vem-se notando cada vez com maior nitidez. Passos por mais do que uma vez mandou representantes a reuniões formais em Belém e apesar de, depois disso, já terem tido uma longa conversa a sós, no PSD é bem evidente o desconforto sentido pelo facto de o PR se entender tão bem com António Costa. Na semana passada, o líder do PSD não resistiu a desabafar: “Ainda bem que ele não é o presidente do PSD”. E Marcelo respondeu-lhe à letra, garantindo que o chefe de Estado não pode ter “preferências” nem “amuos”.

… pelo sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa

Luís Marques Mendes, que ficou com o exclusivo do comentário televisivo no prime time de domingo, depois da saída de Marcelo da TVI, tem sido um dos críticos mais duros em relação a Passos Coelho. Este domingo voltou a ser assim, por causa do bate-boca entre o líder do PSD e o Presidente da República na semana passada: “Marcelo é uma referência de popularidade, de prestígio, de estatuto, de autoridade. Passos Coelho, numa guerra com o Presidente, perde sempre, como qualquer líder de oposição perderia. É uma espécie de auto golo”, disse o comentador, na SIC. As críticas de Mendes ao ex-PM no seu espaço de comentário são recorrentes.

… pelas sondagens

São todas más para o PSD. Na mesma medida, são todas boas para o PS. António Costa sobe nas sondagens e o PS também, Passos Coelho desde e o PSD idem. Os socialistas aproximam-se do limiar da maioria absoluta, sem necessidade dos seus parceiros de “geringonça”, ao mesmo tempo que o PSD nem colado ao CDS consegue disputar a vitória. E, por todos os pontos anteriores, nada indica que esta tendência esteja à beira de se inverter.

Resta a Passos Coelho fazer o que tem feito: andar pelas estruturas do partido, pedindo à sua gente que tenha paciência e não ande “ao sabor da maré”. O ex-PM pede ao PSD que ganhe “carapaça” e tenha a mesma capacidade de resistência que ele próprio tem demonstrado. Que Passos é resiliente, já se sabe. Resta saber se o partido mostra a mesma característica ou se é pragmático, como costumam ser os partidos de poder: nesse caso, quando o PSD achar que Passos deu o que tinha a dar, agradece-lhe os serviços e parte para outra.

... e pelo CDS, ex-parceiro de coligação

Ao contrário de Passos, Portas não quis ficar, uma vez empossado o Governo de António Costa, e deixou a Assunção Cristas a tarefa difícil de capitanear o partido agora “órfão” do seu líder carismático de vinte anos. A líder centrista não se deixou acabrunhar e tem insistido em trilhar o caminho da autonomia dos ex-parceiros de coligação, com os olhos postos no eleitorado mais moderado do centro-direita. E conseguiu mesmo levar a dianteira nalgumas matérias (como a proposta de levar a votos o Programa de Estabilidade, que acabou apoiada pelo PSD; ou, mais emblemático, o anúncio da sua própria candidatura à presidência da Câmara de Lisboa).