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O périplo do “amigo” Guterres antes de assumir funções nas ONU

CHRISTIAN HARTMANN / Reuters

António Guterres aproveitou o último mês para visitar os dirigentes dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (França, Reino Unido, EUA, Rússia e China), com uma passagem ainda por Espanha para receber o título de doutor honoris causa da Universidade Europeia, e encontros com Nicolás Maduro e Michel Temer. Guterres “o “amigo” de Espanha e o “amigo” de França, “o amigo pessoal”, “verdadeiro parceiro e figura de excelente reputação”. Mais do que meramente protocolares, as visitas serviram para partilhar entendimentos e reafirmar prioridades. As do ex-primeiro-ministro, agora secretário-geral da ONU para os próximos cinco anos, são os refugiados e a guerra na Síria (entre outros). Esta segunda-feira, presta juramento sobre a carta das Nações Unidas, em Nova Iorque

Helena Bento

Jornalista

14 de novembro – Foi a primeira visita de Guterres desde que foi aclamado secretário-geral da ONU pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a 13 de outubro, depois de ter sido escolhido por consenso para o cargo pelo Conselho de Segurança da organização. O ex-primeiro-ministro português foi recebido pelo Presidente francês François Hollande no palácio presidencial. O encontro serviu para debater assuntos internacionais e os principais desafios e prioridades de Guterres para os próximos cinco anos. Os dois líderes falaram sobre a situação no Médio Oriente, nomeadamente na Síria e no Iraque, mas “sem esquecer a Líbia”, e sobre a situação em África. Também as alterações climáticas foram um tema que esteve em destaque, nessa mesma semana em que muito se falou sobre a possibilidade de Donald Trump enterrar acordos ou esboços de acordos em que Barack Obama teve mão, nomeadamente o acordo global de Paris sobre o clima, assinado na capital francesa no final de 2015.

No encontro entre António Guterres e Hollande foi reforçada a ideia de que é preciso “assegurar que esta organização [ONU], tão importante para a paz e o progresso, possa continuar a desempenhar o seu papel”, escreveu François Hollande num comunicado emitido após o encontro, acrescentando que a França está “satisfeita” com a escolha de Guterres, “amigo pessoal e amigo do país”, para secretário-geral da ONU. Já o antigo primeiro-ministro reconheceu que a França é um “parceiro absolutamente essencial e um pilar do multilateralismo no mundo”. “Num momento como este em que vivemos, em que as questões e os problemas são cada vez mais globais, as respostas devem ser respostas globais e solidárias”, disse Guterres, que no mesmo dia ainda se encontrou com Jean-Marc Ayrault, ministro dos Negócios Estrangeiros de França.

No dia seguinte, 15 de novembro, compareceu em Downing Street, em Londres, para uma reunião com a primeira-ministra britânica Theresa May.

ANDREA COMAS / Reuters

16 de novembro – “O presidente do Governo em funções, Mariano Rajoy, telefonou a António Guterres para o felicitar da proposta para secretário-geral da ONU”. Foi esta a informação transmitida pelo Palácio de Moncloa numa nota enviada à agência Lusa em Madrid, a 9 de novembro. O líder do Partido Popular (PP, de direita) telefonara para manifestar a sua “grande satisfação” pela decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que o escolhera a ele, Guterres, “um grande amigo de Espanha” e a pessoa “considerada mais idónea”, para estar “à altura das exigências do cargo e das expectativas da sociedade internacional contemporânea”.

Uma semana depois, os dois encontravam-se em Madrid. Guterres deslocou-se à capital espanhola para receber o título de doutor honoris causa da Universidade Europeia pela forma como liderou durante dez anos o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) e aproveitou a viagem para se encontrar com Rajoy, que tomara posse como presidente do governo de Espanha há um mês e meio. Na altura, a Universidade Europeia deixou claro que a atribuição do prémio nada tinha que ver com a recente escolha do ex-primeiro-ministro português para secretário-geral da ONU.

Guterres discursou na cerimónia de atribuição do galardão e recordou o seguinte: quando ele era jovem, o mundo era então “bipolar”, porque havia a Guerra Fria e a Guerra Fria opunha duas grandes potências, os Estados Unidos e a Rússia, e depois passou a ser “unipolar”, porque Moscovo foi obrigado a retirar-se e os EUA assumiram-se como a grande potência global. Neste momento, e de acordo com Guterres, o mundo já não é uma coisa nem outra, não é nem bipolar, nem unipolar, nem mesmo tripolar: o mundo encontra-se simplesmente numa fase “caótica” e a grande dúvida é saber se “este caos é a nova ordem ou se estamos numa fase de transição para uma nova ordem”.

O maior “drama” para o antigo primeiro-ministro “é que há guerras cada vez mais violentas e cada vez mais a comunidade internacional tem dificuldades em proteger as vítimas desses conflitos”. É preciso, portanto, que as sociedades aceitem a “multiplicidade étnica”, afirmou Guterres, dando como exemplo Portugal e Espanha, “países tolerantes, que aceitam a diversidade e onde o populismo nunca teve uma manifestação própria”.

O chamado “discurso de elogio” a António Guterres foi pronunciado pelo antigo presidente do Governo espanhol Felipe González, que chamou a atenção para a questão dos refugiados, assumida como prioridade pelo novo secretário-geral para os anos que tem pela frente à frente da ONU, a par com a guerra na Síria, que já dura há quase cinco anos, e outros conflitos. “Há 500 milhões de europeus, o que significa que receber um ou dois milhões de refugiados não é nada e a Europa precisa deles”, disse González.

Chegados aqui, vale a pena recordar alguns números. De acordo com a Amnistia Internacional, existem 21 milhões de refugiados no mundo. Um relatório do ACNUR revela que no final de 2015 o número de pessoas deslocadas devido a conflitos e perseguições era de 65,3 milhões, quando no ano anterior era de 59,9 milhões. Este ano, mais de 184 mil pessoas chegaram à Europa por mar e mais de três mil desapareceram no mar.

SERGEI CHIRIKOV / EPA

24 e 25 de novembro “A Rússia sempre apoiou o fortalecimento do papel de liderança [da ONU] nos assuntos internacionais, na resolução de conflitos, na luta pelos direitos humanos”. A Rússia espera, por isso, ter com Guterres “o mesmo diálogo construtivo” que teve com o seu antecessor Ban Ki-moon. Foram estas as palavras do Presidente russo Vladimir Putin, após o encontro com António Guterres. O ex-primeiro-ministro português, por sua vez, disse reconhecer “o papel decisivo” da Rússia “não só no âmbito das Nações Unidas, mas também em todos os outros aspetos das relações internacionais”. Relações “construtivas” com um país como a Rússia são, por isso, “fundamentais para poder ser útil à comunidade internacional”, disse
então Guterres.

JASON LEE / AFP / Getty Images

28 e 29 de novembro – O convite partiu do Governo chinês que, de acordo com o seu porta-voz dos Negócios Estrangeiros Geng Shuang, via com muitos bons olhos a visita do futuro secretário-geral da ONU. Guterres reuniu-se em Beijing com o Presidente chinês Xi Jinping e com Wang Yi, ministro dos Negócios Estrangeiros. Em conferência de imprensa após o encontro, o ex-primeiro-ministro sublinhou o papel da China enquanto “intermediário muito importante e honesto para unir partes que estão em conflito” e considerou que o país é um “sólido pilar do multilateralismo no mundo”, o que torna “a cooperação entre a China e a ONU absolutamente essencial”.

Durante a sua intervenção, o ministro Wang Yi disse que nas “atuais circunstâncias o papel da ONU só pode ser fortalecido” e que “enfrentamos desafios globais que nenhum país do mundo pode superar sozinho”. Já Xi Jinping elogiou o trabalho das Nações Unidas, que considerou “a mais universal, representativa e credível organização internacional intergovernamental”, e reforçou o apoio da China ao acordo de Paris sobre o clima. Numa análise ao seu discurso ao “New York Times”, Baohui Zhang, professor de Ciência Política na Lignan University, em Hong Kong, disse que a China “quer assumir a liderança e fazer o sistema internacional funcionar” e que o Presidente chinês “quer apresentar a China como a nova força que vai suster a arquitetura do pós-Segunda Guerra Mundial ao transformar-se num poder indispensável”.

MICHAEL REYNOLDS / EPA

3 de dezembro – Foi o último dos encontros de António Guterres com os dirigentes dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Guterres foi recebido na Sala Oval da Casa Branca por Barack Obama, que manifestou a “maior confiança” de que o antigo primeiro-ministro português consiga atuar de forma “eficaz” na resolução de problemas como a crise dos refugiados e as questões climáticas. Guterres, descreveu Obama, é “um verdadeiro parceiro” e “uma figura de excelente reputação” em quem devemos confiar para gerir “os crescentes desafios” da atualidade.

Do outro lado, chegou uma resposta positiva e otimista. O antigo primeiro-ministro disse estar pronto a trabalhar não só com a Administração democrata cessante, como também com a próxima Administração, a de Donald Trump, que toma posse no mesmo mês que Guterres, mas 20 dias mais tarde. Trump escolheu Nikki Haley, governadora do estado da Carolina do Sul desde 2011, para ocupar o cargo de embaixadora dos EUA na ONU. A governadora poderá vir a tornar-se a primeira mulher a integrar o governo de Donald Trump

A sua escolha, porém, foi recebida com alguma incompreensão e até indignação, sobretudo porque durante a campanha eleitoral Haley apoiou primeiro o republicano Marco Rubio e depois Ted Cruz. Além disso, conseguiu ser uma voz incómoda para Trump em várias ocasiões, que chegou a acusá-la de manter uma posição “fraca” em relação à imigração ilegal.