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Guterres: “Chegou a hora de a ONU reconhecer as suas insuficiências e mudar”

LUCAS JACKSON / Reuters

Às 16h34 (hora de Lisboa), António Guterres começava o juramento como secretário-geral das Nações Unidas. No primeiro discurso, salientou a necessidade de reconhecer os erros nas Nações Unidas enquanto organização e mudar a maneira de funcionamento

“Eu, António Guterres, juro solenemente exercer com toda a lealdade e consciência as funções que me são atribuídas”. Eram 16h34 (hora em Lisboa) desta segunda-feira quando Guterres prestou juramento perante a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque. No primeiro discurso, defendeu como uma das prioridades a necessidade de mudar e reformar internamente a organização mundial.

“É chegada a altura de as Nações Unidas reconhecerem as suas insuficiências e alterar o que precisa de ser alterado. Chegou a hora da ONU mudar”, disse António Guterres. “Hoje temos de estar aqui pela paz”, acrescentou”.

A reforma administrativa da ONU, uma dos três pilares mencionados por Guterres, implica não só mais transparência e o reforço do regulamento financeiro e interno, como também uma maior igualdade de género e regional nos cargos do organismo.

“Finalmente, a reforma da gestão deve atingir a paridade de género. O objetivo inicial de representação tinha-se estabelecido como meta o ano 2000. Decorridos 16 anos, ainda estamos longe de a atingir”, referiu, comprometendo-se “a ultrapassar esta questão”.

Os outros dois pilares mencionados são o trabalho pela paz (incluindo “evitar e abolir os crimes sexuais contra aqueles que devemos defender”, aumentando a responsabilização de quem os pratique) e o apoio ao desenvolvimento sustentável, em que se pretende garantir que os Estados-membros alcançam “as medidas propostas do Acordo de Paris”, sem que “ninguém seja deixado para trás”.

Guterres descreveu os tempos atuais como algo pessimistas e diferentes daqueles que se viviam há 20 anos, “quando prestava juramento como primeiro-ministro de Portugal”. Na altura, as pessoas pensavam que “se viveria num mundo de desenvolvimento e prosperidade para todos”. Mas não foi assim, e hoje há novos conflitos a enfrentar: “O fim da Guerra Fria não foi o fim da história”.

“Novas guerras surgiram”, frisou. “Os conflitos tornaram-se mais complexos e mais interligados do que antes. Foram feitas violações horríveis dos Direitos Humanos e as pessoas foram obrigadas a fugir. (…) Os últimos 20 anos testemunharam um crescimento. Muitos indicadores sociais melhoraram, mas continuaram a haver desigualdades e muitas pessoas foram deixadas para trás”, disse.

Atualmente, defendeu, as pessoas perderam a confiança nos Governos e nas instituições globais, “incluindo as Nações Unidas”. Muitas estão a deixar que o medo “oriente as suas decisões” e por isso “é altura de trabalhar com os líderes e é tempo de reconstruir a relação entre os cidadãos e os líderes mundiais”.

“A prevenção exige que apoiemos mais os países nos esforços de renovar as suas instituições. Restabelecer os Direitos Humanos como valor fundamental, enquanto si próprios e não como fim político. Toda e qualquer minoria deve pertencer ao grupo social, político e económico sem qualquer restrição”, disse Guterres.

Defendendo uma maior eficiência da ONU e a inclusão dos jovens na tomada de decisões, o antigo primeiro-ministro lembrou que é preciso haver cooperação com os Estados-membros (“a ONU não pode fazer tudo sozinha”) e o “empenho dos organismos regionais”.

“Queremos que o mundo das nossas crianças seja guiado pelos valores da Carta das Nações Unidas: paz, justiça, respeito, Direitos Humanos, tolerância e solidariedade”, concluiu, aplaudido pela assembleia.

António Guterres toma posse como secretário-geral das Nações Unidas a 1 de Janeiro.

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