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Até ao topo do mundo

A longa aprendizagem do português que se tornou o novo secretário-geral da ONU. António Guterres faz hoje o juramento

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Abra a Bíblia e aprenda a conhecer um pouco de António Guterres. Exagero? Talvez. Mas está lá, no Evangelho segundo São Mateus, capítulo 25, versículos 14 a 30: a Parábola dos Talentos.

Resumidamente, esta alegoria cristã conta a história de um senhor que, ao partir para fora, chamou os seus servos e a um deu cinco talentos (a moeda da época), a outro dois e a outro um, “conforme as suas capacidades”. O que recebeu cinco talentos, negociou e recebeu outros cinco, o que recebeu dois fez o mesmo e o terceiro, que tinha recebido apenas um talento, fez um buraco na terra e escondeu-o. Quando o senhor voltou, pediu-lhes contas e os dois primeiros servos mostraram-lhe o que tinham ganho, ao que aquele respondeu, elogiando-os: “Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor”. E mandou-os ir.

Já o terceiro disse-lhe: “Senhor, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence”. O senhor não gostou e respondeu-lhe: “Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros. Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos, porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.

António Guterres é católico assumido, praticante e marcado pelo trabalho de ação social, que fez enquanto jovem e mesmo depois disso. É sabido que quando abandonou o cargo de primeiro-ministro deu explicações gratuitas de matemática no problemático bairro da Quinta do Mocho. Questionado uma vez pelo Expresso sobre as razões que o levaram a candidatar-se ao cargo para que agora foi eleito, respondeu desta forma enigmática: “A Parábola dos Talentos”. É a sua preferida.

A parábola tem inúmeras interpretações, da mais tradicional à inovadora denúncia do capitalismo e da exploração do homem, mas para Guterres é só uma: foi beneficiado com muitas qualidades, podia oferecer-se hoje uma vida de qualidade, mas sente a obrigação de pôr os seus “talentos” ao serviço da comunidade.

Aliás, não foi mais nada do que isto que disse, quando confirmou publicamente a sua disponibilidade para ser candidato a secretário-geral da ONU, no final de janeiro deste ano: “Tive o enorme privilégio de acumular um conjunto de experiências, vivi uma revolução em Portugal, estive na linha da frente da consolidação da democracia, fui líder partidário e primeiro-ministro, trabalhei dez anos em apoio aos refugiados, abriram-se-me muitas portas a tudo o que é vital nas relações internacionais. Tenho o dever de pôr a render essas capacidades”.

É a sua interpretação da Parábola dos Talentos.
Mas é muito mais do que isso, claro. António Guterres está longe de ser um ingénuo, sabe o que vale e aonde quer chegar. Emocional sem deixar de ser racional e frio na análise, é também um intuitivo que sabe aproveitar o momento certo para atuar. A sua carreira como político foi exemplo disso, não o foi menos o trilho que ao fim de vinte anos anos o pôs à frente da maior organização internacional.

Uma estreia de estrondo

Banguecoque, 1996, primeiro encontro da ASEM, que reúne os países membros da União Europeia e 13 países asiáticos. António Guterres tinha acabado de ser eleito primeiro-ministro e esta era a sua estreia num grande fórum multilateral. A reunião — um marco na aproximação dos blocos europeu e asiático — tinha para Portugal uma importância especial. O país estava limitado na sua relação com a Europa com a chamada “agenda dos três T” (têxteis, Timor e taco) e o recém-eleito primeiro-ministro queria romper este círculo vicioso e, sobretudo, pôr Timor na agenda internacional.

Esta antiga colónia tinha sido anexada pela Indonésia depois de declarar a independência, o líder carismático Xanana Gusmão estava preso e a resistência era brutalmente perseguida. Os aliados europeus, porém, não apoiavam a pretensão portuguesa e, na reunião, aceitaram a imposição do país anfitrião de não levantar questões bilaterais — um sinal de que se Portugal colocasse a questão de Timor, a Indonésia abandonaria a mesa. A delegação debatera e elencara em conjunto as principais ideias, só que não se sabia como as colocar, dados os constrangimentos.

Vitória. António Guterres, ao volante do seu carro, na semana passada, depois de já ser conhecida
 a sua escolha para secretário-geral da ONU pelo Conselho de Segurança

Vitória. António Guterres, ao volante do seu carro, na semana passada, depois de já ser conhecida
 a sua escolha para secretário-geral da ONU pelo Conselho de Segurança

luís bara

Já é noite fechada e a pequena delegação portuguesa aguardava no hotel a chegada do primeiro-ministro, vindo do jantar informal que precede a cimeira. Espera-se que esse momento proporcione uma conversa descontraída, com os líderes envergando as tradicionais camisas asiáticas coloridas que lhes forneceram à chegada. À entrada do hotel, as sirenes dos batedores vão-se fazendo ouvir e sucedem-se os governantes. Guterres é o último, bem depois de todos os outros. E conta-lhes então. No final do jantar, interpelou de chofre o Presidente Suharto, da Indonésia, dizendo-lhe simplesmente: “I am the portuguese prime-minister, I would like to talk to you”. Suharto acedeu. Guterres aproveitou a deixa e propôs-lhe a abertura de secções de interesse de ambos os países em embaixadas amigas, sugerindo-lhe em troca a libertação de Xanana Gusmão. Suharto não disse que não.

A delegação portuguesa não perdeu tempo. Numa conferência de imprensa logo na manhã seguinte, Portugal apresentou as suas propostas e assumiu os erros cometidos em Timor. No mesmo dia, durante os trabalhos oficiais da reunião, Guterres anuncia que vai quebrar a regra das questões bilaterais. Perante uma assistência estática, fala da China e de Macau e de como estão a correr bem os preparativos para a transferência de soberania. E, logo de seguida, aborda um “tema multilateral, enquadrado na ONU” — Timor —, apresentando as propostas que fizera a Suharto. No final da reunião, o chanceler Helmut Kohl, haveria de lhe segredar: “You are very smart, António”.

Estava quebrado o círculo vicioso dos três T. Timor estava doravante na agenda. Faltariam ainda muitas reuniões e trabalhos até ao histórico dia de setembro de 1999, em que, “em grito de desespero”, como o próprio confessou numa entrevista a Adelino Cunha no livro “António Guterres, Os Segredos do Poder”, conseguiu convencer o Presidente americano Bill Clinton a mudar a sua posição e a forçar a Indonésia a aceitar a intervenção internacional em Timor e, depois, o referendo que conduziria à independência do território.

Todos quantos conhecem Guterres desse tempo confirmam que ele “foi feito para o multilateral”, com um jeito especial para fazer propostas de compromisso, mesmo quando as questões não diziam diretamente respeito a Portugal. Na União Europeia, ainda a 15, preparava os dossiês com cuidado, ouvia as pessoas, geria as equipas e, com um discurso bem organizado, elencava depois as prioridades.

“Mal chegava a Bruxelas, a primeira coisa que fazia era reunir-se na representação portuguesa (REPER) com todas as pessoas que tinham a seu cargo os pontos em agenda e que traziam a informação mais recente e a sua opinião”, conta um embaixador que trabalhou com ele nesse tempo. “E sempre com o cuidado de levar em conta os interesses dos outros”.

O segredo de Guterres

“Era esse o seu segredo”, disse ao Expresso Maria João Rodrigues, que ele trouxe para o Partido Socialista. Foi ela a sua escolha para ministra da Qualificação e Emprego entre 1995-1997, tendo sido depois sua assessora especial no gabinete e artífice da Estratégia de Lisboa. Não lhe resgata elogios. Diz que ele tem “uma combinação única de inteligência, grande abertura para todo o tipo de ideias e domínios, visão estratégica e um sentido profundo de consciência baseada em valores”.

Relembra: “Estávamos a discutir o novo envelope de ajudas financeiras e era preciso ir a Berlim”. A Alemanha também tinha muito a dizer sobre o assunto, com a reunificação recente precisava dos fundos. Gerhard Schröder tinha acabado de tomar posse como chanceler, substituindo Helmut Kohl, “e não era uma pessoa fácil”. Para mais, Schröder estava irritado nesse dia. Tinha acabado de receber o chefe do Governo espanhol, José María Aznar, e fez logo saber que “não valia a pena bater com o punho na mesa e pedir dinheiro”. Guterres não se intimidou. Perante um estupefacto Schröder, disse-lhe que não vinha ali só para falar do problema português, mas para apresentar a sua perspetiva de uma solução conjunta, em que a Alemanha, Portugal e a União poderiam sair a ganhar. A proposta foi aprovada.

Admiradora incondicional, Maria João diz que “esta era a marca de Guterres, integrar os interesses dos outros na nossa solução, ele fazia trade-offs como ninguém”. Curiosamente, a mesma marca que recorda o embaixador Francisco Seixas da Costa, seu secretário de Estado dos Assuntos Europeus e com quem viajou milhas e milhas e partilhou inúmeros Conselhos Europeus. “Era um europeísta convicto, com uma leitura europeia das coisas”.

Nas discussões da Agenda 2000, para preparar a União para o alargamento que se avizinhava, deram ambos várias voltas pelas capitais, tentando compatibilizar os interesses dos outros com os portugueses. “Pediu-nos dossiês pormenorizados de cada país, com tudo aquilo que cada um queria”, recorda Seixas da Costa, segundo o qual aprendeu com ele uma técnica que muito o auxiliou depois. “Quando se tem uma conversa a dois, cara a cara, olhamo-nos nos olhos e criamos uma relação de confiança. Depois, quando essa pessoa fala publicamente, tem de se olhar para ela, porque assim ela recorda-se do compromisso. É um teste de confiança”, explicou-lhe Guterres.

É, aliás, com Seixas da Costa que ocorreram alguns episódios que ilustram como o antigo primeiro-ministro se foi impondo entre os líderes europeus da época, como os alemães Kohl e Schröder, o britânico Tony Blair (cuja “terceira via” no socialismo replicou), os franceses Jacques Chirac e Lionel Jospin, os italianos Romano Prodi e Massimo D’Alema, ou o espanhol Aznar, com quem desenvolveu laços pessoais e uma amizade de fins de semana em família passados em conjunto.

Ficou célebre nos anais diplomáticos a maratona de Guterres na Cimeira de Nice, que levaria ao tratado com o mesmo nome. O próprio haveria de dizer que “foi a melhor noite acordado da minha vida”, referindo-se à maratona negocial que, em particular, opôs Portugal às pretensões da França, a propósito do sistema de ponderação de votos que desequilibraria a balança a favor dos grandes, à custa dos mais pequenos.

“Nas noites de Nice, Chirac levou até muito tarde, às vezes no limite do aceitável, o ‘braço de ferro’ com António Guterres, o qual não desarmou até obter o peso que queria para Portugal, em termos de votos no Conselho e no número de deputados ao Parlamento Europeu, entre outros aspetos”, evocou o embaixador no seu blogue, ao recordar o momento em que o Presidente francês cederia.

Outra vez, foi também o “improviso de António” que salvou a foto da família europeia no final do Conselho Europeu, realizado em Lisboa, durante a presidência portuguesa da União, no ano 2000. Foi a propósito da crise austríaca, quando o democrata-cristão Wolfgang Schüssel aceitou coligar-se com o partido da extrema direita FPO, dirigido por Jörg Haider, e que os Quinze tinham combinado “votar ao ostracismo”. O Presidente francês não queria de modo nenhum estar na mesma fotografia com Schüssel, mas o “truque bem lusitano de incluir o Presidente mexicano, Ernesto Zedillo, convidado para a abertura da cimeira, não permitiu a Chirac fazer a desfeita da sua ausência”.

Se estes são pormenores que revelam acima de tudo a habilidade diplomática do ex-primeiro-ministro, seria todavia a sua consabida capacidade de fazer pontes, de negociar, moderar e apontar soluções conjuntas que lhe granjeariam o respeito dos seus pares. As mesmas características pelas quais haveria de ser atacado na cena interna, “de dialogar demais e não decidir”.

Trajeto. António Guterres com a atriz americana Angelina Jolie, enviada especial da Agência para os Refugiados

Trajeto. António Guterres com a atriz americana Angelina Jolie, enviada especial da Agência para os Refugiados

ORHAN CICEK/AFP/GettyImages

“Muitas vezes ele intervinha nas reuniões sem que o assunto tivesse que ver com Portugal, porque entendia que se tinha de ter sempre em atenção o que os outros queriam”, recorda quem trabalhou com ele de perto. Foi, aliás, depois de uma intervenção de Kohl em que este criticou duramente a Comissão Europeia, logo num dos primeiros conselhos em que Guterres participou, que o tornou notado. Perante o silêncio da sala que acabara de ouvir o poderoso e irritado chanceler alemão, o desconhecido primeiro-ministro português põe o dedo no ar e pede a palavra. “Calmamente, de forma inteligente e hábil, rebateu as críticas de Kohl, que acabou por concordar com ele”, lembra.

“Operação Alfa”

A sua afirmação acabou por o tornar uma voz respeitada e escutada, “uma figura de enorme prestígio em Bruxelas”, recorda o embaixador Vasco Valente, chefe da REPER por essa altura. A conclusão natural foi o convite feito em 1999 para presidente da Comissão, depois de o titular do cargo, Jacques Santer, se demitir — e que se viu obrigado a declinar. A custo, confessaria depois. “O comboio da vida não para duas vezes na mesma estação”, diria.
Maria João Rodrigues lembra-se da ocasião em que o próprio Schröder lhe fez o convite, numa pequena reunião a quatro. O então primeiro-ministro era uma escolha unânime, que se tornava óbvia para todos, num tempo em que os governos socialistas estavam em maioria na Europa. Guterres chegou a vacilar, mas a situação no PS, onde não havia um sucessor óbvio, ou em que o “óbvio” não queria (António Vitorino), e a proximidade das eleições em que o partido almejava alcançar a maioria absoluta fizeram-no recuar.

Trajeto 2. Em 2001, ainda primeiro-ministro, quando recebe em São Bento a família Xanana Gusmão

Trajeto 2. Em 2001, ainda primeiro-ministro, quando recebe em São Bento a família Xanana Gusmão

antónio pedro ferreira

Diz-se que a viuvez recente (a primeira mulher, Luísa, falecera no ano anterior) e a necessidade de acompanhar mais de perto a filha adolescente, então com 12 anos, terão pesado também nessa decisão, mas o próprio Guterres o desmentiria, como uma “elucubração sem sentido”. “Achei que o que estava a fazer aqui me criava obrigações de que não podia fugir, custou-me muito dizer que não”, afirmou numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, em 2002. A verdade é que muitas vezes a filha Mariana o acompanharia nas viagens a Bruxelas, nomeadamente.

O “não” à Europa demorou, apesar de tudo. Seixas da Costa lembra-se de que no Governo e no PS se criaram divisões e houve até um grupo que delineou uma estratégia tendo em vista a sua aceitação. Chamava-se “Operação Alfa” e tinha como principal mentor Pina Moura, então ministro da Economia, para quem ele teria sido “um excelente presidente da Comissão, ao nível de Jacques Delors”. A presidência acabaria por ser entregue ao italiano Prodi e, nas eleições, o PS não teria a maioria absoluta.

Trajeto 3. Na cimeira de Lisboa, em 2000, com os franceses Jacques Chirac e Lionel Jospin e, atrás, o luxemburguês Jean-Claude Juncker e o alemão Gerhard Schröder

Trajeto 3. Na cimeira de Lisboa, em 2000, com os franceses Jacques Chirac e Lionel Jospin e, atrás, o luxemburguês Jean-Claude Juncker e o alemão Gerhard Schröder

Começava aí a tecer-se o novo destino de Guterres. Dois anos depois, farto do “pântano”, perdida a paciência com o país, é o próprio Guterres que abandona o cargo. O facto não o impede de se manter como presidente da Internacional Socialista, cargo que ocupa entre novembro de 1999 e junho de 2005. Essa função, que o levou a conhecer o mundo inteiro e a tecer relações que mais tarde lhe serão muito úteis, nomeadamente quando foi escolhido alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados e, agora, secretário-geral. Uma fonte do Partido Socialista recorda que “ele tratava por tu muitos primeiros-ministros”.

O tempo de espera

Guterres trabalhava então como consultor na Caixa Geral de Depósitos e tem tempo. Está intensivamente a par da situação internacional, ao mesmo tempo que não deixa cair o seu interesse pela iniciativa lançada pelo ex-Presidente Clinton, “Progressive Governance” e um “New Global Deal”, um novo Contrato Global onde pontificam altos funcionários de organizações internacionais e se aborda já a reforma da ONU.

O seu nome já era suficientemente conhecido e reconhecido. Em 2003, após a trágica morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então representante oficial do secretário-geral da ONU (Kofi Annan) no Iraque, foi sondado (ou pré-escolhido) para seu substituto, mas o convite não seguiu.

Dois anos depois, em fevereiro de 2005, surgiu a grande oportunidade. O ex-primeiro-ministro holandês, Ruud Lubbers, então alto-comissário para os Refugiados, foi acusado de assédio a uma funcionária da organização, sendo obrigado a demitir-se. Guterres não hesitou, nem tão-pouco a diplomacia portuguesa lhe regateou o auxílio. Jorge Sampaio interveio em todos os fóruns possíveis, falou com Kofi Annan e muitos outros, e a máquina política pôs-se em movimento para conseguir o lugar para o candidato português. Guterres competia com sete “rivais” de peso, entre os quais o ex-ministro francês e conhecido intelectual Bernard Kouchner e a ex-comissária italiana Ema Bonino, além do tunisino Kamel Morjane, alto-comissário-adjunto para os Refugiados, conhecedor da máquina e, segundo se disse, o preferido dos Estados Unidos. Um comité de especialistas, que ouve e pré-seleciona os candidatos, colocou-o entre os três finalistas.

Tal como agora, o seu prestígio estava em alta devido à campanha pela independência de Timor e Portugal tem uma boa imagem. Guterres fez valer as suas capacidades de bom comunicador, uma qualidade essencial para um cargo cuja principal função é recolher fundos para uma agência que geria um orçamento de mil milhões de dólares anuais, 6600 funcionários em mais de 110 países e que, nessa época, cuidava do destino de 17 milhões de refugiados. Quando abandonou o cargo, em 2015, haveriam de ser mais do triplo, afetando o planeta como um todo.

Não é por acaso que, ainda recentemente, falando da sua tarefa de “coletor de fundos”, disse que a principal diferença é que, no passado, ele tinha de ir atrás e “perseguir” os eventuais doadores, enquanto que agora são eles que vêm ao seu encontro. Um problema que era global e distante, passou a ser nacional e de máxima relevância em política interna.

Quando foi eleito pela Assembleia Geral da ONU, sob proposta do secretário-geral, em maio de 2005, afirmou no seu discurso quase as mesmas palavras que proferiu na semana passada depois de o Conselho de Segurança anunciar a sua escolha, por aclamação, para suceder ao sul-coreano Ban Ki-moon: “Convicção nos valores, humildade e entusiasmo”. A sua permanência à frente do cargo durante os dez anos seguintes foi-lhe fundamental para se tornar uma personalidade conhecida fora das fronteiras europeias, com destaque para o mundo em desenvolvimento, em África, Ásia e América Latina. Mais, com a sua reconhecida capacidade de olhar para o sistema como um todo, essa vivência proporcionou-lhe perceber como o sistema opera. Passou a conhecer a máquina por dentro.

Num mundo em desordem, em que instituições como a União Europeia enfraquecem e perdem protagonismo, com cada vez mais atores não estatais, minado por fenómenos como o nacionalismo e o terrorismo, que põem em causa os próprios valores da civilização e da religião, Guterres experienciou o “lado humano” dos conflitos. “Vivemos num mundo relativamente caótico em que, continuando a não haver um sistema de governança a nível mundial, as relações de poder deixaram de ser claras e, quando isso acontece, cria-se uma situação de imprevisibilidade e de impunidade”, afirmou numa entrevista ao “Público”, em dezembro de 2014.

Este mundo fragmentado e caótico, tal como Guterres o descreve, não mudou. E não é por ser secretário-geral das Nações Unidas que vai conseguir mudá-lo. Afinal de contas, a ONU só tem capacidade para atuar a um certo nível de problemas e quando há entendimento entre as grandes potências, maxime os cinco membros permanentes do Conselho, Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. Intervém supletivamente.

A campanha que, a par e passo, o conseguiu pôr no topo do mundo terá sido talvez a parte mais fácil para o homem cujo nome em política internacional vale mais do que o de Portugal. É outro Ronaldo. Saudando a sua eleição para o cargo considerado como o “mais impossível do mundo”, a imprensa internacional não esconde os desafios que vai enfrentar o engenheiro eletrotécnico de formação e político por vocação. A sua experiência de reformador na ACNUR, a agência de refugiados, que conseguiu fazer emagrecer para libertar verbas e pessoal para o terreno, foi um importante “cartão de visita”. Os desentendimentos europeus sobre as candidaturas não irão seguramente contar para um homem que professa a mesma teoria de Jaime Gama: “Em política internacional não há lugar para ressentimentos”.

Texto publicado originalmente em outubro na revista E

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