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Pedro Santana Lopes: “A vida 
já me ensinou 
que na política pode-se morrer muitas vezes”

luís barra

Aos 60 anos, Santana Lopes jura que não tem ambições políticas. Já dirigiu Lisboa, já chefiou o Governo e aposta que Marcelo não sai de Belém antes de 2026. E voltar a chefiar o PSD? “Não está nos meus planos”, mas... A idade também ensina. “Já sei o suficiente da vida para não dizer que isso nunca acontecerá de certeza”

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

Pedro Santana Lopes equilibra-se sobre vigas de madeira da cobertura do Palácio do Alegrete. Os barrotes estão a descoberto no edifício em obras. Um passo em falso e o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) arrisca atravessar o teto, arruinar as pinturas já restauradas e estatelar-se no andar de baixo. Santana faz uma piada sobre isso, mas não vacila — são muitos anos de equilibrismo na política, sempre com pose confiante e muitas vezes com um capacete das obras na cabeça, como tem nesta manhã. O encontro com o Expresso, para uma entrevista, foi marcado para este palácio pombalino da SCML, na Ameixoeira, na fronteira de Lisboa com Loures. Mas a entrevista vai esperar. Primeiro, percorremos os terrenos e o edifício, com azulejos classificados e resquícios de pinturas de querubins. Santana sente-se em casa. O palácio tinha um projeto de recuperação há anos, mas só com o atual provedor foi salvo. Santana aproveitou que a Santa Casa está bem de finanças e apostou em deixar obra. Antes da entrevista visitamos outras três, mas esta é especial, confessa. Não tem a ver com a história do edifício, mas com o futuro que Santana lhe destinou: “A Misericórdia nunca teve uma casa para receber os seus reformados. Era uma obrigação minha. Vai ser aqui.”

Não é um “lar”, mas uma “casa das gerações” — no palácio ficarão os espaços comuns de um projeto onde vão conviver reformados da Santa Casa, universitários e famílias jovens. Para isso, Santana fez uma permuta de terrenos com a Câmara de Lisboa, em relação à qual só tem elogios. “Tem corrido impecavelmente. É uma permuta de boas vontades.” Sabe que o elogio a Fernando Medina pode ter outras leituras, quando ainda mantém o suspense sobre concorrer à autarquia da capital. Mas não desarma. Ainda não é nesta segunda-feira, 28 de novembro, que desfaz o tabu. Mas não evita frases equívocas. Numa sala onde um trolha reveste uma parede, confessa a paixão por obras. “Quando era miúdo adorava ver as betoneiras a fazer cimento, ver o gancho a subir, a despejar a massa. Devia ser o gene de autarca...”, diz, e pisca o olho. “A minha avó dizia: este rapaz vai ser construtor.” Não foi, mas decidiu muita construção — como secretário de Estado da Cultura, como autarca da Figueira da Foz e de Lisboa, como provedor.

Seguimos para Rio Seco, entre a Ajuda e a Junqueira. A Santa Casa vai levantar oito blocos de vidro onde existiam instalações militares desativadas. Quando Passos Coelho o nomeou provedor, Santana morava ali ao lado, mas não imaginava que aquele espaço seria “seu”. “Quando percebi, fiquei doido. Não descansei até fazer alguma coisa”: 117 apartamentos, uma parte para famílias carenciadas, mas com uma ideia “interclassista”, sem guetos. Damos um salto a Pedrouços, onde está em estudo a construção de habitação e uma unidade de apoio social, e acabamos na Parede, no centenário Hospital Ortopédico de Sant’Ana (a piada: “Já tinha este nome antes de mim”).

Quando sai do carro, os sapatos que reluziam já trazem as marcas de lama, pó e cimento de quem anda nas obras. Santana Lopes não olha para baixo, mas para cima. Fixa-se na placa da SCML que anuncia a “ampliação” do hospital. “Já disse que isto não é ampliação, é a construção de um novo edifício.” Até pode estar de saída, mas não descura os pormenores. Os sapatos, esses, estão prontos para uma campanha eleitoral.

Obras. Santana Lopes no Palácio do Alegrete, que a partir de 2017 será a casa dos reformados da SCML

Obras. Santana Lopes no Palácio do Alegrete, que a partir de 2017 será a casa dos reformados da SCML

luís barra

Vejo que o cargo de provedor da Santa Casa suja tanto os sapatos a visitar obras como o cargo de presidente da Câmara de Lisboa (CML).
É... [risos] Depende das épocas, a Santa Casa já teve tempos de muito pouca obra. Por falta de recursos, noutros casos por falta de lembrança. Comigo não há falta de recursos — não quer dizer que a SCML seja podre de rica, mas tem uma situação económica equilibrada e com disponibilidade. E falta de lembrança eu não tenho. Além das áreas core da SCML, se alguém me quer ver bem disposto, é falar-me de património.

Parecia muito satisfeito enquanto nos mostrava as obras.
Sim. E acho que as pessoas sabem que sou capaz de fazer obra. Lembro-me de um trabalho que o Expresso publicou com Fernando Medina há uns meses, em que ele mostrava várias obras ou projetos. Eu não pretendi fazer uma réplica disso, mas queria demonstrar um pouco a razão de ser daquilo a que chamam a minha indecisão. Há projetos extraordinários em curso na SCML e isso tem consequências do ponto de vista da responsabilidade. Não me preocupo com inaugurar essas obras, palavra de honra, nunca me preocupei, mas gosto de garantir que elas são irreversíveis.

Fiquei com a sensação de que, com os projetos que lançou nestes cinco anos, já cumpriu o que queria fazer na SCML. É assim?
Do primeiro ciclo, o essencial está lançado. Há sempre trabalho para fazer, mas continuando agora há uma nova programação que tem de ser feita. Por exemplo, alargar a intervenção da SCML noutras áreas ou diversificar as fontes de financiamento. Mas sei que nesse caso mexo com mais espíritos instalados numa certa maneira de ver a Misericórdia. A SCML pode ser um player social mais importante do que é, principalmente se gerir bem os seus recursos. Essa é uma tarefa para uma segunda fase, que pode ser feita por mim ou por outro.

Está cheio de vontade de conduzir essa segunda fase ou já pode sair com missão cumprida?
É um bocado presunçoso dizer que saímos com missão cumprida, mas sim. Em relação à minha programação para esta fase, não me pesaria a consciência se saísse em breve.

Enquanto preparava esta entrevista encontrei uma notícia de 2001, de quando ainda não tinha decidido se era candidato a Lisboa. O título era uma frase sua: “Sou muito indeciso, pois sou.” Passaram 15 anos. Continua indeciso?
Há quem diga que idade traz sabedoria. Eu acho que também traz indecisão. A pessoa fica mais ponderada.

Porquê? A pessoa sente que pode ter mais a perder?
Não. Sente é que tem menos tempo.

Esta indecisão sobre ser candidato a Lisboa, não a sente como dejá vu?
Sem dúvida! Leu o artigo da “Vanessa” sobre isto, escrito pela Ana Sá Lopes? Dizia: ainda bem que num mundo em que tudo muda há coisas que não mudam, um certo vintage. A indecisão de Santana Lopes nestas matérias é igual. Achei muita graça.

E já tem uma resposta sobre Lisboa?
A minha resposta hoje é a que dei em julho ao Expresso. A minha orientação é de continuar na Santa Casa. Continuo a achar o mesmo sobre o tempo que considero adequado para tomar decisões no caso de ser eu o escolhido. E continuo a achar que amigo não empata amigo, podem seguir outro caminho que eu não me ofendo. Mas eles insistem, insistem... Ainda hoje li que o PSD espera de mim espírito de missão. Eu, em termos de Câmara de Lisboa, não devo nada ao PSD, é o PSD que me deve a mim. Porque tiraram-me a Câmara de Lisboa, não me deixaram concorrer em 2005 e portanto não sinto nenhum peso na consciência nessa matéria. Já lá fui em 2001 e em 2009, teria ido em 2005 se me tivessem deixado.

As sondagens parecem apontar para uma vitória de Fernando Medina. Em que medida a perspetiva de uma derrota lhe tira vontade de avançar?
Estamos num tempo em que as sondagens falam por si. ‘Brexit’, Estados Unidos... Mas eu não sou um descrente total das sondagens. Tenho uma equipa que trabalha comigo (não é da SCML, é uma equipa minha) e as minhas sondagens. Aí, Fernando Medina está ligeiramente à frente, mas baixou com as obras; se eu fosse candidato estaria em segundo lugar. Assunção Cristas está assim-assim, benzinha, e o PC e o BE estão taco a taco, mas com a Mariana Mortágua [pelo BE].

Perdeu as legislativas em 2005 contra Sócrates, em 2009 perdeu Lisboa contra Costa. Outra derrota não seria o fim das suas aspirações políticas, quaisquer que elas sejam?
Eu também não sei quais são! [Risos] Uma terceira derrota era seguramente pesado. Mas uma coisa lhe garanto, se há coisa que não me impressiona depois do que já passei é a ideia de que se você perder uma eleição está arrumado de vez. A vida já me ensinou aquilo que dizia o Churchill: na política pode-se morrer muitas vezes. Isso não importa. Quer dizer, é chato, não me apetece... Mas a distância que as sondagens me dão diz-me que esta seria, de longe, a menor diferença com que eu partiria para umas eleições em Lisboa.

Fez 60 anos, está na política há 40. Que ambições políticas tem?
Neste momento, nenhumas. Numa entrevista ao Expresso em 2012 eu não pus de parte ser candidato a Presidente da República (PR). Normalmente, não minto sobre mim, sobre o que sinto e penso: neste momento não tenho ambições nenhumas. Acho curioso ser falado para a liderança do PSD, chegam-me manifestações de apoio, fala-se de Lisboa, não sei o que mais...

A Presidência. Marcelo pode fazer só um mandato, não pensa nisso?
Não acredito nem um bocadinho. Ele faz dois mandatos de certeza absoluta. Marcelo se quiser que me desminta, mas aposto singelo contra dobrado. E aí, com toda a franqueza, acho que aos 70 anos um tipo tem direito a descanso dessas lides. Em relação ao PSD, o que lhe digo é que enquanto Passos Coelho for líder essa é hipótese que nem gosto de pôr, por uma questão de lealdade e consideração. Ninguém me ouvirá dizer nada, dar um passo, seja o que for.

Ciclo. O provedor da Santa Casa diz que já cumpriu os planos para os primeiros cinco anos. “Missão cumprida”

Ciclo. O provedor da Santa Casa diz que já cumpriu os planos para os primeiros cinco anos. “Missão cumprida”

luís barra

Em que medida o facto de ele o ter nomeado para a Santa Casa condiciona a sua posição?
Nada disso. É o que eu conheci dele. É uma pessoa muito bem formada, um tipo muito correto. Conheci poucas pessoas mais atenciosas e humildes no trato. Ele tem um ar distante mas nunca conheci ninguém como ele no exercício de cargos públicos. Uma vez mandei-lhe um SMS e ele respondeu: ‘Pedro, peço desculpa, mas estou no Conselho Europeu, posso ligar quando acabar?’

Nada disso é razão para não se candidatar contra ele.
Sim, percebo. A primeira questão é a consideração pessoal. Já sobre as opções dele, não me impressiona nada ouvir dizer que Passos Coelho está muito sozinho ou que o que ele diz está fora de contexto. Porque eu sou educado no caldo do Sá Carneiro, ouvi isso tanta vez na vida. Mas se me perguntar se eu não acho que o discurso dele devia ter levado já uma volta, eu diria que sim. Mas Passos foi reeleito líder do PSD num congresso onde eu fui e defendi que ele devia continuar líder, e tem um mandato de dois anos. Agora, admito que é muito difícil para ele o que está acontecer — houve várias previsões que ele foi fazendo e que não se confirmaram nem se vão confirmar, como a do défice, entre outras.

A expectativa que Passos criou sobre o mau desempenho do Governo estará a virar-se contra o PSD?
Sem dúvida. E aí penso que tem de haver uma adequação à realidade. Eu sei que ele está convencido do que diz, acha que isto não vai acabar bem. O problema é que tem de haver alguma dose de realismo. Falta os portugueses ouvirem da parte dele o reconhecimento de que o Governo até tem conseguido marcar alguns pontos que ele não esperaria.

Ele tem dito que não muda o discurso. Isso preocupa-o?
Não, porque dou-lhe esse crédito. Vou-lhe dizer uma coisa que para mim significa muito: acho Passos Coelho o líder do PSD mais parecido, em termos de estrutura de raciocínio, com Francisco Sá Carneiro. Nem Cavaco Silva era tão parecido. No sentido de não ter medo de ficar sozinho. A tal frase de Sá Carneiro: “Nunca estive tão sozinho e nunca tive tanta certeza de que tenho razão.” Não estou a dizer que Passos é Sá Carneiro, as pessoas são diferentes, mas quando o oiço, quando falo com ele e vejo aquela calma, aquela segurança, oh pá... é de Sá Carneiro que me lembro.

Então, quem começa a fazer cálculos e a posicionar-se para o pós-Passos...
Está a precipitar-se. As coisas podem mudar de repente. Se os juros chegam aos quatro, cinco por cento, se a DBRS tira a notação positiva a Portugal... Olhe, vantagens da idade: já vi muita coisa, muita volta repentina.

Passos pode ganhar eleições mesmo sem ser capaz de se reinventar?
Acho que sim. Depende da economia. Depois, cada um tem os seus méritos. O António Costa é um homem com muito jogo de cintura, como se diz dos futebolistas...

Aprecia-lhe isso?
Aprecio bastante. Acho que ele é um patriota, é muito capaz, muito inteligente, mas ao mesmo tempo... como é que hei de dizer... É um homem inédito. Seguiu este caminho e dou-lhe esse mérito. Eu, há muitos anos, defendia que devia haver um governo PS-PCP (na altura não havia BE). A bipolarização. Havia gente no PSD chocada quando eu dizia isso. Ele teve a coragem de fazer o que ninguém foi capaz de fazer antes e isso é bom para Portugal. É bom o que se está a passar com a chamada geringonça (que é o nome que se devia deixar cair...). Estamos numa fase que é boa para a geringonça, mas mesmo que não fosse, só o António Costa ter feito isto já valeu a pena, porque ajuda a clarificar o sistema político. Não há nada pior do que a rotina duradoura, porque impede o arejamento do raciocínio. Depois fica tudo ali pela mesma cartilha, como acontece na União Europeia.

Podemos falar de admiração da sua parte em relação a Costa?
Consideração. Eu acho muita graça aos caminhos de António Costa. E há uma coisa que eu nunca percebi, e já na CML não percebia: o ascendente que ele tem sobre a esquerda para mim é um mistério.

Voltando às sondagens: com o PSD e Passos a cair, de que forma esta falta de tração a nível nacional pode prejudicar as candidaturas autárquicas?
Pode, sem dúvida. E esse é um dos argumentos que devo ponderar. Eu disse sempre que só admitiria outra opção que não ficar na Misericórdia em circunstâncias excecionais. Se uma pessoa chega à conclusão de que, dada a situação de Lisboa, do PSD, do país, ser ele próprio o candidato ou ser outro não adianta nem atrasa, onde é que está a circunstância excecional para mim? Pelas sondagens de hoje eu digo que no PSD não há mais ninguém que possa ganhar a Câmara de Lisboa. Esse podia ser um argumento excecional. Mas no estado em que está o PSD... Como dizia o dr. Carreiras, o PSD também já devia ter preparado outras pessoas há muito tempo, porque acho inacreditável que só apareça eu.

Qual é o seu segredo para, tantos anos depois, ainda manter o PSD suspenso das suas decisões?
Sabe qual é? É termos feito um grande trabalho na Câmara. Antes desta entrevista estive a rever o que fiz na CML e acho extraordinário o que foi feito em três anos. Até me cansa pensar como foi possível fazer tanta coisa. Não é só o túnel [do Marquês]. Foram opções muito importantes e muitas delas sem dinheiro. Só o que mudou em Monsanto, coisa que em décadas ninguém tinha feito. Os bairros históricos, o que mudaram. Tanta coisa em três anos, tanta piscina, tanto jardim. Contabilizando o tempo, a quantidade de obras e o benefício para a cidade, penso que foi o melhor mandato desde Krus Abecasis. Acho que é por isso. Porque eu não sou propriamente um personagem amado no sistema político português. Nunca fui. Mas mesmo aqueles que nunca votarão em mim não acham que seja estúpido alguém lembrar-se do Santana Lopes outra vez para Lisboa. Por causa do trabalho feito.

Em 2001, a sua vitória em Lisboa precipitou a saída de Guterres e abriu caminho a que Durão fosse primeiro-ministro. Se fosse candidato em 2017 e ganhasse Lisboa podia dar um balão de oxigénio a Passos Coelho. Apetece-lhe salvar a pele a outro líder?
Passos Coelho está numa fase diferente. Durão Barroso estava a subir, percebeu que precisava de mim e demonstrou isso ao longo do seu consulado, fizemos uma dupla. O argumento dele foi: tens de vir para Lisboa, porque se ganhares o Governo cai. Isso era importante. Candidatei-me por uma obrigação nacional.

Agora não há essa leitura?
Não. Não acho que seja por causa de Lisboa que o Governo caia.

O Governo não cai, mas ganhar Lisboa talvez salve Passos de cair, não?
Pois... isso é outra questão. No plano da axiologia, na escala dos valores, na altura o meu dever era com o país. Mas hoje continuo a pensar que é bom que os governos compram as legislaturas e não vejo sinais de desagregação na atual maioria.

Mas vê os sinais de efervescência no PSD?
Isso, como digo, é outra questão. É a liderança partidária. Uma coisa é a minha posição face a Passos Coelho, outra coisa é a minha posição face ao PSD. Cada vez penso pior dos partidos dominados por aparelhos. Vejo as lutas de fações e cada vez tenho mais distância. Não é isso que me move. E essa é uma razão de alguma distância entre mim e Passos, porque em relação a determinadas figuras do aparelho ele não tem a mesma posição que eu.

Ele está dependente do aparelho?
Não digo isso, mas ele sempre se rodeou de pessoas que representam a estrutura de poder do aparelho do PSD. Respeito, mas nunca me dei bem com isso. Aí há uma distância. Sou capaz de ir a um sítio qualquer fazer um discurso a defender Passos Coelho. Já mudar a minha vida e não continuar o que estou a fazer na Misericórdia por causa de uma liderança...

Rui Rio disse que se as autárquicas correrem mal e o PSD não se afirmar está disponível para ir contra Passos. O senhor elogiou essa entrevista pela clareza de posições e pelas políticas diferentes que apresenta. Rio é bom para suceder a Passos?
Não quero falar disso. Por uma questão de respeito ao tempo atual. Estamos no tempo do advento, mas ainda não é tempo de chegar ninguém.

Diz que nunca se candidataria contra Passos. E depois de Passos? Não gostaria de voltar à liderança do PSD, tendo em conta a forma como passou por lá e saiu? Voltar e tentar agora em bom?
Não. É uma boa história, mas não. Se eu pensar pessoalmente em termos de consolo, já estou razoavelmente consolado pelo que vou lendo e ouvindo. É extraordinário uma pessoa passar o que eu passei e 10 anos depois ouvir que pode ser líder do partido outra vez, ou presidente da Câmara, ou primeiro-ministro. Leio editoriais a dizer: ‘Se isto fosse com Santana como seria?’ Isto chega-me. Vamos lá ver: nós não interessamos nada no Universo, somos um grão de areia, mas quem é personalista importa-se com o grão de areia, principalmente com os seus filhos e netos. Em 2005, quando aquilo acabou, estava em casa e pensava o que é que os meus filhos e os meus netos iam pensar de mim quando lessem sobre o ‘pior primeiro-ministro da História de Portugal’, e isto e aquilo... É um bocado chato. Hoje, acho que eles já têm muito para ler que desmente essas versões. Do ponto de vista do egocentrismo, do que tem a ver com o respeito por nós próprios e pelos nossos, já não tenho preocupações.

Não vê circunstância nenhuma em que pudesse recandidatar-se no PSD?
Hmmm... Não. Isso não faz parte dos meus planos. Mas volto a dizer: já sei o suficiente da vida para não dizer que isso nunca acontecerá de certeza. Por minha iniciativa não será seguramente.

Os números redondos dão-lhe para balanços? Como é ter 60 anos?
Muito complicado, muito complicado. Os 50 foram complicados, os 60 também. São mudanças que me fazem impressão. Pesa-me. E tem repercussões nas opções que fazemos. Quando pensamos nas opções aos 60 anos... Eu li “O Fio da Navalha” do Somerset Maugham quando tinha 18 anos; li-o duas vezes e lembro-me daquela opção de às tantas o protagonista, que tinha uma vida boa, resolver que também precisamos de ir à procura do transcendental, da nossa conciliação com a fé, ou com o Universo, depende da perspetiva de cada um. Sempre achei que, a partir de certa altura, queria mais serenidade na minha vida. Chamava-lhe a fase de ir para o planalto, como fazem os índios. Nos 50 comecei a sentir isso, nos 60 sinto muito. Não quero ser desinquietado além do limite. Essa questão que hoje se coloca [de voltar à política ativa] mexe com a minha estrutura. Por isso é que as decisões são difíceis. Acredite: não tenho nenhum interesse pessoal em voltar a ser presidente da CML. Já fui. Outra coisa são projetos ou obras que eventualmente gostaria de fazer. Mas tudo isto mexe com a minha organização de vida interior. Já vou para o quarto neto, os meus filhos estão criados e educados, como sabe tive uma vida pessoal muito complicada, mas hoje tenho uma vida calma e estável, pessoal e profissionalmente, e acho que é isso que é compaginável com os 60 anos, embora hoje o envelhecimento seja cada vez mais tarde.

Os 60 são os novos 50?
Exatamente. Hoje em dia, se há uma coisa que as pessoas de 60 anos se recusam, é a ser velhos. Vê-se pela maneira de vestir, pelo exercício... É muito diferente do que era, mas que mexe com as pessoas, mexe. Mas lembro-me que já quando fiz 30 anos fiz uma festa de aniversário no Stones (o primeiro a chegar foi o Paulo Portas, que me deu aquele livro do Rawls... “Uma Teoria da Justiça”) e o título do convite era “Que saudades dos 20, vivam os 30!” Acho que o segredo é esse, sabermos ter saudades do que já vivemos e sabermos preparar os novos tempos. Mas quanto mais a vida avança mais difícil é.

Difícil é imaginá-lo a ir para o “planalto” se tiver a oportunidade de pôr as mãos na massa da política...
[Risos] Mas olhe que eu estou diferente. Hoje aprecio a calma, a estabilidade. Até aos fins de semana detesto ter programas...

Gostava de lhe perguntar sobre duas personagens que referiu e que conhece bem. Surpreendeu-o a ida de Durão Barroso para a Goldman Sachs?
Respeito. Não me surpreendeu, deve haver poucas pessoas que o conheçam melhor do que eu. Sei que a Goldman Sachs é complicada, mas não condeno. É uma opção com custos, mas não acredito que ele, frio como é, não os tenha previsto todos.

E Paulo Portas como homem de negócios? Não o surpreendeu?
Também não. Não sei quanto tempo vai durar, porque a dificuldade dele em estar longe da política é bem maior que a minha. Mas não me surpreendeu. E até defendo que isto possa acontecer, porque senão os governantes vão trabalhar para onde? Se não podem trabalhar nas áreas que são as suas, ficam num mosteiro para a vida toda com reformas?

Em Portugal não há muitas saídas para um final de carreira política. Muita gente dá em teoria um bom candidato presidencial, mas poucos podem lá chegar...
Ah, quer falar do Marcelo? Também o conheço muito bem.

Escreveu uma crónica em que dizia que Marcelo está a ver a realidade com óculos cor de rosa, até usou a expressão “Marcelo no País das Maravilhas”. Ele está a exagerar na proximidade ao Governo?
Acho que sim. Esse artigo saiu numa sexta-feira e à noite estive com o primeiro-ministro no São Carlos. No intervalo, ele até brincou comigo porque eu levava estes óculos azuis. Mas eu disse que esta proximidade toda até deve embaraçar o PM. E, veja, na sessão de comemoração do primeiro ano do Governo, o PM revelou que também tem divergências com o PR. Deu um sinal de que tanta proximidade é excessiva. Mas digo também que acho que Marcelo tem feito muito bem ao país. E na prática ele até está a comportar-se na linha daquilo que eu sempre defendi para a relação de um Presidente com o seu Governo. O Governo em funções tem de ser sempre o Governo do Presidente.

É mau que o PR esteja a segurar esta maioria? Acha que é desnecessária tanta proximidade?
Acho. E acho que Marcelo Rebelo de Sousa escusa de fazer de conta que às vezes é primeiro-ministro. Não é. Ele é Presidente da República, são planos diferentes.

Vê a ‘geringonça’ com dinâmica para viver por si, sem a ajuda do PR?
Hoje em dia sim. Tem estado a criar energia própria. E noto uma coisa que me surpreendeu: o PCP e o BE estão cada vez mais envolvidos com a solução e cada vez a apostar mais em António Costa. É uma constatação que tem significado político e é muito interessante. Acho que eles com isso estão a criar uma fonte de energia própria que não precisa obrigatoriamente do Presidente para durar a legislatura toda. É claro que se eles tivessem o PR contra seria muito mais difícil, mas isso até os podia unir mais.

Quando diz que Marcelo tem de se lembrar que não é PM, acha que está a extravasar funções?
Isso seria uma expressão um bocado dura para ele, que tem sido um muito bom PR. Mas às vezes mete a foice um bocadinho em seara alheia. Nada que ele não saiba corrigir.

Na análise que fez a esse discurso do PR diz que ele passou ao lado da questão social. Do ponto de vista social o país está pior do que estava com a coligação?
É curioso como na Misericórdia eu sinto tão bem as várias curvas das crises. Houve a grande crise em 2012, depois em 2014 e agora no primeiro semestre de 2016. No segundo começou a aliviar. Pedidos de emprego, pedidos de subsídios e de outros apoios, nota-se a diferença. Não sei se o pior da crise passou de vez, mas que neste segundo semestre respiramos mais, isso sim.

Nota neste Governo uma preocupação social maior?
São opções diferentes. É evidente que a devolução e o ritmo da devolução de rendimentos conforta mais as famílias e as pessoas. Nota-se no país, há outra confiança. Se a base é real ou artificial, essa é a questão que está para dirimir.

Escreveu que podemos questionar se a dose de austeridade do Governo anterior foi correta ou exagerada. Qual é a sua resposta?
Essa é a magna questão política que está na cabeça dos cidadãos... [Hesita] Aí Rui Rio pôs bem a questão: nem sempre a fiscalidade indireta é injusta. Nem sempre ir por essa via, que tem sido privilegiada por este Governo, é injusto. Acho que [no Governo PSD-CDS] houve demasiada crença no peso da fiscalidade direta. Mas qual é o governo que acha que todas as medidas que tomou foram as mais adequadas? [O chefe de gabinete de Santana Lopes volta a fazer sinal de que a entrevista tem de acabar pois o provedor já está atrasado para o compromisso seguinte] Temos mesmo de acabar.

Última pergunta então: tem ido aos jogos do Sporting?
Tenho, a todos! Estou absolutamente envolvido com este período do Sporting, por isso quando há um dissabor fico ainda mais dorido.

É mais fã de Jorge Jesus ou de Bruno de Carvalho?
Jorge Jesus. Quando ele era treinador do Benfica e eu o apanhava na bancada nos jogos da seleção dizia-lhe sempre ‘você tem que ir para o Sporting’. Ele é um treinador extraordinário. Depois há aquelas coisas que ele diz pela boca fora… mas como treinador é um grande profissional.

Então este ano é que é?
Tenho muitas dúvidas. O Benfica está a jogar muito bem, mais do que o Sporting. As saídas que houve no Sporting têm reflexos.

Mas se o Sporting for campeão em 2017/18, e o senhor for presidente da Câmara, pode recebê-los e ir para a varanda festejar. Não é uma boa razão?
[Risos] Mas até essa sorte eu já tive, apanhei o Sporting campeão em 2002. Lembro-me do Jardel aos pulos na Câmara.

Então, nem isso o motiva?
Nem isso.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 de dezembro de 2016