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Fidel

Amigos. Fidel Castro conduz Otelo Saraiva de Carvalho (e o tenente Marques Júnior) num jipe pelo interior de Cuba, em julho de 1975

FOTO Arquivo de Luísa Marques Júnior

Fidel Castro só veio a Portugal duas vezes, mas nunca deixou de estar presente na política portuguesa: desde as guerras coloniais às cimeiras ibero-americanas, passando pelos tempos do PREC. Seis histórias sobre o Comandante

Nas nuvens na Praça 
da Revolução

Otelo Saraiva de Carvalho

No auge da revolução, o general Otelo Saraiva de Carvalho fez uma visita histórica a Cuba. “Fui recebido principescamente — ou melhor: republicanamente, quase como um chefe de Estado”, recorda o estratego do 25 de Abril. Vasco Lourenço, seu camarada no Conselho da Revolução, também fora convidado, mas desistira na véspera da partida, já com as malas feitas. Justificou-se a Otelo: “Se fôssemos os dois, arriscávamo-nos a, quando cá chegássemos, isto estar tudo virado.” A visita prolongou-se de 20 a 30 de julho. O comandante do COPCON — uma espécie de braço armado da revolução — levou a mulher e os dois filhos, o tenente Marques Júnior (e a mulher), o jornalista João Paulo Diniz e representantes dos três ramos das Forças Armadas.

Quem acompanhou a delegação foi o número dois do regime, Raúl Castro, irmão mais novo de Fidel e chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Otelo foi antecipadamente convidado a falar no comício do 26 de julho, dia nacional de Cuba, data do assalto ao quartel de Moncada e início da revolução. “Os dias antes da partida foram infernais, de modo que pedi ao então tenente-coronel Loureiro dos Santos para me escrever o discurso, de elogio à revolução cubana. Quando cheguei a Havana, dei o texto à Annie Silva Pais, que o traduziu para castelhano e que li no comício.” Otelo descreve: “O Fidel deu-me a palavra. Falei uns 20 minutos, com muita emoção. Diante de mim estava o mural de homenagem ao Che e a Praça da Revolução cheia — disseram-me que estariam umas 600 mil pessoas. Foi muito bonito!”

Na véspera da partida, houve um almoço no restaurante Los Canaviales. Fidel conduziu Otelo para uma sala reservada, onde almoçaram na companhia de Raúl. “Há poucos dias, o Agostinho Neto enviou-me um emissário, a pedir apoio militar para o MPLA. Precisa de vários batalhões, para se opor à ofensiva dos zairenses, a partir do norte, e dos sul-africanos, a sul.” Antes de se decidir, Fidel gostaria de saber se Lisboa estava “disponível para enviar tropas para Angola”, no âmbito do processo de independência. “Nem penses nisso”, respondeu Otelo. Ainda assim, Fidel pediu-lhe que colocasse a questão ao Presidente Costa Gomes. “Vou esperar uma semana pela resposta, finda a qual estou na disposição de enviar tropas para auxiliar o MPLA.” Com este recado, Otelo aterrou em Lisboa na manhã de 30 de julho. O resto é conhecido: Costa Gomes nunca respondeu a Fidel e Portugal não enviou mais tropas. Pelo contrário, Cuba não perdeu tempo e, antecipando-se à União Soviética, deu início à famosa “Operação Carlota”: o transporte em massa de militares e equipamento para Angola, em apoio do MPLA. Como fez notar o então embaixador em Havana, José Fernandes Fafe, no dia da independência, 11 de novembro, “já havia 16 mil militares cubanos em Angola”.

Autógrafo. A assinatura de Fidel num livro infantil trazido de Cuba em 1975 por Luísa Marques Júnior, que integrou a delegação portuguesa chefiada por Otelo

Autógrafo. A assinatura de Fidel num livro infantil trazido de Cuba em 1975 por Luísa Marques Júnior, que integrou a delegação portuguesa chefiada por Otelo

No plano interno, o que mais marcou a visita de Otelo foram as suas declarações no aeroporto: “Vai-se tornando impossível fazer uma revolução socialista na totalidade pacífica.” Aos muitos jornalistas, voltou a usar a imagem do Campo Pequeno, que esgrimira semanas antes, quando ameaçara eliminar “umas centenas ou uns milhares de contrarrevolucionários”. Ao tomar conhecimento desta ameaça, Vasco Lourenço perdeu as estribeiras: “Tu és maluco!” E interrogou: “Fazes ideia da quantidade de pessoas que por esse país fora se está, neste momento, a ver ameaçada de ser metida no Campo Pequeno?” O episódio é comentado nos livros-entrevistas de Maria Manuela Cruzeiro. Para Vasco Lourenço, Otelo veio de Cuba “com o fogo revolucionário todo no rabo”. Na apreciação de Costa Gomes, ele só começou a ser “muito esquerdista” após a visita; a ponto de, numa das muitas idas a Cuba uma vez saído de Belém, “o Fidel me ter dito que um dos seus maiores problemas de consciência era o de não ter conseguido transmitir ao Otelo toda a complexidade da revolução cubana”.

Semanas mais tarde, fortemente criticado pela esquerda revolucionária, Otelo fez uma autocrítica em conferência de imprensa: “Não tenho estrutura política. Se tivesse mais cultura política, seria o Fidel Castro da Europa.” Otelo, que completou 80 anos, não mais voltou a Cuba. E nunca mais se encontrou com Fidel. “Tenho muita pena. Gostei imenso da visita, que foi um encanto.”

A tradutora preferida 
do Comandante

Annie da Silva Pais

Mulher de rara beleza e que não passava despercebida, a tradutora para português preferida de Fidel Castro era conhecida por Annie. Era portuguesa e chamava-se Ana Maria da Silva Pais. Uma entusiasta da revolução, militante do Partido Comunista de Cuba, era, surpreendentemente, a filha única do último diretor-geral da PIDE/DGS, a polícia política da ditadura, Fernando da Silva Pais.

Casada com um diplomata suíço, Raymond Quendoz, que conhecera em Portugal, Annie acompanhou o marido quando este foi transferido da embaixada de Lisboa para a de Havana. O casal Quendoz aterrara em Cuba a 12 de outubro de 1962, no último avião a fazer a ligação entre Miami e Havana e em plena crise dos mísseis nucleares, opondo os EUA e a União Soviética. Na embaixada da Suíça — que então representava 13 países, entre os quais os EUA, que haviam cortado relações com Cuba —, Raymond tinha a seu cargo a cifra e as mensagens secretas. Em plena revolução, a ilha virou do avesso a portuguesa, que cedo abraçou a causa revolucionária. Separou-se de Raymond e passou a manter uma relação com o secretário e médico particular de Fidel. O caso deu brado nos meios diplomáticos e particularmente entre os serviços secretos, temendo-se que ela tivesse tido acesso a informações classificadas e as pudesse ter passado ao inimigo.

Annie nunca deixou de conviver com os sucessivos embaixadores de Portugal, que, apesar de estar nos antípodas políticos de Cuba, jamais cortou relações diplomáticas com Havana. Particularmente estreita foi a convivência com o embaixador Luís Gonzaga Ferreira, que, numa comunicação secreta, reportou a estranha evolução política da filha do poderoso chefe da PIDE. No dizer do diplomata, Annie tinha uma “profunda admiração — talvez possa dizer mesmo obsessão — pela obra e personalidade de Che Guevara, que conhecia pessoalmente, não sendo possível dizer porém qual o grau das relações políticas que manteriam”.

No final de 1965, o diretor político do Ministério das Relações Exteriores, Rogelio Montenegro, chamou Gonzaga para lhe transmitir uma mensagem de Fidel. “O Comandante manda dizer que o caso não vai ser utilizado na Conferência Tricontinental”, a realizar-se nos primeiros dias de 1966. O evento faz parte dos anais da luta contra o colonialismo e o imperialismo norte-americano. Nela participou a nata dos movimentos de libertação e de guerrilha, sobretudo de África, com relevo para os de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Na embaixada, temia-se que Annie pudesse vir a ser exibida como troféu político durante a conferência. O caso, porém, continuou a ser do domínio estritamente reservado.

Annie foi autorizada a fixar-se em Cuba. Retomou o nome de solteira, continuou envolvida na militância política e arranjou trabalho como professora de línguas e tradutora e intérprete. Foi fundadora e funcionária do Equipo de Servicios de Traducción e Interpretación (ESTI), que dependia diretamente do Conselho de Ministros. Viajou um pouco por todo o mundo, frequentemente como tradutora e intérprete de Fidel para português, mas também para francês. Segundo o seu colega Ernesto Pulgarón, Fidel “tinha total confiança nela, e era sempre ela quem traduzia os discursos do Comandante para português”.

O caso de Annie é conhecido: deu origem a uma reportagem do Expresso e a um livro (“A Filha Rebelde”, escrito por mim e por Valdemar Cruz). Interessará apenas reter que ela só voltou a Portugal depois do 25 de Abril, quando o pai (a que estava muito ligada afetivamente) era o principal preso político do regime saído da Revolução dos Cravos. Durante alguns meses trabalhou em Lisboa, em serviços de apoio aos militares que estavam no poder. Acompanhou intensamente o julgamento do pai, um dos principais réus do assassínio do general Humberto Delgado. Optou, no entanto, por regressar a Cuba, onde continuou a viver e a trabalhar. A sua última relação amorosa foi com José Manuel Abrantes, o ministro cubano do Interior, que, envolvido no caso Ochoa, viria a ser condenado a 20 anos de prisão, onde morreu de forma algo misteriosa. Annie da Silva Pais faleceu em 1990, em Cuba, vítima de cancro. Tinha 54 anos.

Dois presentes 
de Salazar para Fidel

Manuel Lopes da Costa

Em 1967, o Governo de Lisboa nomeou um novo embaixador para Havana. Na mala, Manuel Lopes da Costa levou “dois presentes de Salazar para Fidel”. Um era “um saco de sementes de casuarina, para consolidar as areias da ilha de Pinos”, atual ilha da Juventude. “Eram sementes vindas de Angola, onde as casuarinas ajudavam a evitar que as areias fossem arrastadas para o mar. Sei que chegaram a ser semeadas. Claro que em Lisboa se desconhecia completamente que aquela ilha era utilizada para dar treino militar a futuros guerrilheiros que iriam operar nos territórios portugueses de África.” O segundo presente foi “um tipo de machete que tínhamos desenvolvido em Moçambique para colher a cana de açúcar.” A cana era a grande produção de Cuba, que se lançara, voluntarista e militante, numa campanha tendente a obter uma colheita anual de 10 milhões de toneladas de cana. “O machete tinha uma configuração diferente dos usados em Cuba. Teoricamente, dava mais rendimento.” Os presentes foram entregues em mão pelo novo embaixador ao ministro das Relações Exteriores, Raúl Roa. “Depois, quando me encontrou pela primeira vez, o Fidel agradeceu-me pessoalmente.”

De Fidel, Lopes da Costa recorda as duas vezes que foi convidado para participar em caçadas, uma paixão que ambos partilhavam. “Caça do veado a cavalo, com carabina, que tinha grande tradição em Cuba, e também a perdizes e pombos. Ele atirava razoavelmente, mas o irmão Raúl atirava melhor.” O embaixador, de 83 anos, retém um gesto de “grande amabilidade” de Fidel: “Ofereceu-me o melhor cão de caça que tive na minha vida e que tive de deixar em Cuba. Era um pointer inglês.” Chamava-se “Maconde”, o mesmo nome de uma das principais etnias do norte de Moçambique e a principal fonte de recrutamento da Frelimo. “Não fui eu que pus esse nome ao cão. Já se chamava assim quando mo deu.”

As condições em que foi obrigado a abandonar o país não lhe permitiram levar o pointer. Com efeito, Lopes da Costa só esteve na ilha dois anos — e não os quatro que eram expectáveis. Em novembro de 1969, na Guiné, após um combate com a guerrilha do PAIGC, um dos detidos (e ferido com gravidade) tinha a nacionalidade cubana. Era um capitão, de nome Pedro Rodriguez Peralta, que não só dava instrução militar como participara em combates. Em sinal de protesto contra o envolvimento de Cuba na guerra na Guiné — e decerto noutras colónias —, Lisboa chamou de imediato o embaixador em Havana, dando-lhe 48 horas para deixar a ilha. “Foi uma forma de manifestar o nosso desagrado”, explica o diplomata-caçador. A resposta não se fez esperar, e Havana retaliou da mesma forma. Apesar deste momento de especial tensão, os dois países entenderam manter as relações diplomáticas. Só em janeiro de 1971 Lisboa nomeou um novo embaixador: António Pinto Machado. No ano seguinte, porém, na sequência de um estranhíssimo assalto à chancelaria, que incluiu a violação do cofre e a cópia da coleção de telegramas secretos, a cena repetiu-se. Machado recebeu ordem para retornar a Lisboa, mas mais uma vez a embaixada não foi encerrada. À sua frente permaneceu um funcionário local, Ramon Frank y Puig.

As relações só se normalizaram em pleno em 1975, quando o posto de Havana foi preenchido por um embaixador político, José Fernandes Fafe, um intelectual de esquerda, amigo pessoal de Mário Soares e com excelentes relações com Melo Antunes. O capitão João Varela Gomes, que anos antes liderara o fracassado golpe de Beja, foi o primeiro militar de Abril a visitar oficialmente Cuba, no dia do primeiro aniversário do 25 de Abril. Quando voltou a Portugal, trouxe uma mensagem verbal de Fidel, fazendo notar ao Governo de Lisboa que o embaixador Lopes da Costa tivera uma postura exemplar e muito decente em Cuba. “Foi o próprio Varela Gomes quem mo disse, mais tarde. Foi um gesto que nunca esquecerei. É verdade que não teve qualquer importância, porque não tive nenhum processo de saneamento ou disciplinar, mas podia ter tido.”

O “dinossauro” cubano

Mário Soares

Mário Soares foi uma única vez a Cuba: com um passaporte falso, com o apelido Díaz e na qualidade de jornalista desportivo brasileiro. A acompanhá-lo, o amigo José Fernandes Fafe, também a viajar clandestinamente. Os dois discordam da data: Soares jura que foi em 1964, Fafe está certo de que “foi um ano antes, imediatamente a seguir à crise dos mísseis”. Foi uma aventura difícil, tendo em conta o bloqueio norte-americano e as expressões que já se faziam sentir de um regime ditatorial. Chegar à ilha só era possível de avião e mediante um percurso que, para iludir a PIDE, passava por Itália, antiga Checoslováquia, Irlanda e, por último, Canadá. Soares e Fafe chegaram pelos próprios meios a Roma, onde o ex-embaixador cubano em Lisboa, Amado Blanco, lhes deu as novas identidades.

Em Havana, tudo era novo, e eles não escaparam a uma confusão com as identidades. Entre a verdadeira e a atribuída, as autoridades não acreditavam estar perante os portugueses Mário Soares e José Fernandes Fafe. Foram acolhidos como jornalistas comunistas e instalados num hotel retirado do centro urbano. Nada mais longe das pretensões de ambos, que desejavam conhecer a Cuba revolucionária e estabelecer contactos de teor político mas também intelectual. Acabaram por ser transferidos para uma pensão rafeira no centro de Havana, como recorda José Fernandes Fafe, de 89 anos. Valeu-lhes um inesperado encontro no Ministério do Interior com outro português, José Manuel Tengarrinha, um quadro do clandestino PCP, que desfez o engano das identidades e os levou para o Habana Libre, onde estava hospedado.

Soares acabaria por sair de Cuba com mais dúvidas do que as que levava e sem qualquer contacto com Fidel. Apenas o ouviu discursar num grande comício. Já declaradamente socialista (leia-se: não comunista), não foi considerado importante o suficiente para chegar à fala com a liderança cubana. “Não fiquei particularmente impressionado. Pelo contrário: detetei as taras totalitárias do regime”, contou a Maria João Avillez (em “Soares. Ditadura e Revolução”).

Para a primeira conversa, teve de esperar 24 anos. Em “Soares. O Presidente” (também de Avillez), recorda o contacto “formal e demorado” com Fidel durante a posse presidencial de Rodrigo Borja, do Equador. Corria o ano de 1988, e Soares já era Presidente da República há dois anos. A polémica havia de chegar três anos depois, no decurso da I Cimeira Ibero-Americana, realizada em Guadalajara, no México. Numa conferência na universidade local, uma jovem mexicana quis saber a opinião do português sobre Fidel. Espontaneamente, este respondeu que se tratava de um “dinossauro político, representante, no nosso tempo, de uma espécie em vias de extinção”. Reproduzida pela imprensa, a frase chegou a Fidel, que não mais a terá esquecido. Dois anos depois, na III Cimeira, em Salvador da Baía, voltaram a encontrar-se. Num círculo restrito — Soares, Fidel e mais três chefes de Estado —, o cubano pediu ajuda para o seu país. O português retorquiu com a necessidade de uma contrapartida: a liberdade para o povo cubano. Segundo o relato de Soares, Fidel não respondeu e desviou a conversa, elogiando a condecoração brasileira que o Presidente português ostentava.

O tema da solidariedade voltou no ano seguinte, em Cartagena das Índias, na Colômbia. Fidel acusou todos os presentes de estarem do lado dos EUA no bloqueio, votando Cuba à pobreza. Dirigindo-se à comitiva portuguesa, e visivelmente irritado, lembrou que Cuba fora parte ativa na revolução portuguesa e que tinha sido solidária com a antiga colónia de Angola, impedindo que a África do Sul instalasse Jonas Savimbi no poder. Soares considerou que uma intervenção como aquela não poderia passar em claro, no que contou com a concordância do primeiro-ministro, Cavaco Silva. Alegou que o líder cubano não fora solidário com Portugal, tendo, isso sim, apoiado a União Soviética e o PCP, quando este quis tomar o poder; como também não fora solidário com África, optando por participar num plano de sovietização de Angola e da África Austral.

Após os dois mandatos presidenciais, Soares teve um programa na RTP1. Chamava-se “Conversas de Mário Soares” e reuniu entrevistas suas com algumas importantes figuras mundiais. Dalai Lama, Shimon Peres, Václav Havel, Mikhail Gorbachev, Xanana Gusmão, Joaquim Chissano e Hugo Chávez foram algumas das personalidades que passaram pelo programa. Tentou que também Fidel colaborasse. Na embaixada em Havana estava Alfredo Duarte Costa, que fora um dos seus conselheiros diplomáticos em Belém. Soares telefonou-lhe. “Pediu-me para que eu propiciasse um encontro dele com o Fidel, para que aceitasse participar no programa. Falei nisso ao Fidel várias vezes. Nunca disse que não, mas foi sempre muito evasivo. Quando voltei a insistir, recomendou a Soares que fosse entrevistando os outros que tinha na lista, que era grande. Percebi o recado e disse a Soares que perdesse a esperança.” O diplomata recorda que, anos mais tarde, Soares escreveu um artigo. “Já não o consigo datar, mas foi provavelmente na ‘Visão’. Era um texto muito simpático para o Fidel. Interpretei-o como uma tentativa de Soares de fazer as pazes. Sei que a embaixada de Cuba enviou uma cópia para Havana e consta que Fidel ficou muito contente.”

O primeiro Presidente 
a visitar Cuba

Jorge Sampaio

Jorge Sampaio foi o primeiro Presidente da República de Portugal a visitar Cuba. Foi em novembro de 1999, no âmbito da IX Cimeira Ibero-Americana, que se realizou em Havana. Sampaio pertence a uma geração que vibrou com a vitória dos guerrilheiros barbudos da Sierra Maestra e o derrube do ditador Fulgêncio Batista — que, não por acaso, escolheu a ditadura congénere de Salazar para se exilar. Jovem licenciado em Direito e já frequentador das tertúlias mais ou menos clandestinas da oposição, Sampaio foi convidado em 1963 para uma invulgar reunião em casa de Nuno Teotónio Pereira. O arquiteto acabara de chegar de Havana, onde participara num congresso da União Internacional dos Arquitetos. Da ilha, Teotónio Pereira trouxera não apenas a barba crescida, à Che Guevara, mas também uma grande bobina, com a gravação áudio do discurso proferido por Fidel na abertura do congresso. A reunião foi para ouvir a voz — e saborear e comentar o discurso de Fidel.

Sampaio não mais deixou de acompanhar a experiência cubana. Em 1974, depois de se ter demitido do Movimento de Esquerda Socialista (MES), uma pequena formação de esquerda radical, decidiu passar o fim do ano em Cuba. Acusado pelos seus adversários do MES (entre os quais Teotónio Pereira) de desvio social-democrata, fez uma incursão de turismo político à ilha. Acompanhado da mulher, Maria José Ritta, e de vários amigos, como o arquiteto Manuel Salgado, visitou alguns novos bairros de Cuba, desenhados por uma novíssima geração de arquitetos, segundo um novo padrão de planeamento urbano.

Encontro. Jorge Sampaio foi o primeiro Presidente da República a visitar Cuba

Encontro. Jorge Sampaio foi o primeiro Presidente da República a visitar Cuba

FOTO Rui Ochôa

Quanto a Fidel, a primeira vez que o encontrou foi em novembro de 1996, em Santiago do Chile, quando se estreou nas Cimeiras Ibero-Americanas. A mudança de Presidente da República em Lisboa fora percecionada em Havana, e Fidel pediu uma audiência a Sampaio, que acedeu de pronto. Posição diferente foi a do primeiro-ministro António Guterres, que, a caminho do Chile, declarou que não tinha “intenção” de se avistar com Fidel, esperando, outrossim, poder encontrar‑se um dia “com o dirigente de uma Cuba democrática”. Foi a primeira de várias dessintonias entre Sampaio e Guterres no plano externo. Acompanhado de Nuno Brederode Santos, Sampaio recebeu mesmo Fidel e apelou a um esforço de “descrispação” e ao “diálogo permanente”.

Quem também se estreou no Chile nestas cimeiras foi o primeiro-ministro espanhol José María Aznar. António Franco, o então chefe da Casa Civil de Sampaio, testemunhou as más relações de Aznar com Fidel, em contraste absoluto com o excelente relacionamento deste com o rei Juan Carlos. “Num almoço reservado, assisti a um diálogo inesquecível, quando se formou um grupo: o Jorge, o rei, o Fidel e outros, a fumarem puros que ele trouxera de Cuba. Juan Carlos estava com o braço em cima dos ombros do Fidel, que lhe perguntou: ‘Mira, Juanito, quando é que há eleições em Espanha? É que gostava muito de votar em ti!’ O rei deu uma enorme gargalhada. Foi então que se aproximou o Aznar, que revelava um ódio visceral, mais do que ideológico, ao Fidel. Tirou a gravata, enrolou-a e ofereceu-lha. Este olhou-o com ar de desprezo, meteu a gravata no bolso, agradeceu e comentou para o Aznar: ‘Hombre, deixa-me, porque me continuas a espiar?’ Foi uma estocada até ao fundo!”

VINHO DO PORTO. Na Cimeira Ibero-Americana do Porto, em 1998, Fidel Castro tornou-se um dos novos membros da confraria

VINHO DO PORTO. Na Cimeira Ibero-Americana do Porto, em 1998, Fidel Castro tornou-se um dos novos membros da confraria

FOTO INÁCIO ROSA / LUSA

A cimeira de 1998 foi no Porto. Como de costume, Fidel foi uma das estrelas: na prolongadíssima conferência de imprensa, num comício em Matosinhos de solidariedade para com o povo cubano, no espetáculo de entronização na Confraria do Vinho do Porto. Antes de regressar a Cuba, foi até à Galiza, a convite do presidente do Governo Autónomo, o ex-ministro franquista Manuel Fraga Iribarne, para conhecer a terra dos antepassados. Havana foi quem acolheu a cimeira seguinte, de 1999. Para evitar a cena do Chile, Sampaio e Guterres concertaram-se previamente e alargaram o leque de contactos, incluindo Elizardo Sánchez, um dos mais respeitados nomes da oposição ao castrismo, e o cardeal D. Jaime Ortega, líder da Igreja Católica.

Fidel esteve uma segunda vez em Portugal, a 17 de maio de 2001. Desta vez em Lisboa. Foi no termo de um périplo de dez dias que o levara à Argélia, Irão, Síria e Líbia (onde visitou o amigo Muammar Kadhafi). Com o avião obrigado a uma escala técnica, em vez de Madrid, onde ainda estava Aznar, preferiu Lisboa. Sampaio ofereceu-lhe um jantar em Belém, em que também esteve presente o ministro dos Negócios Estrangeiros Jaime Gama. Coube a Marcelo Rebelo de Sousa efetuar a primeira visita de Estado a Cuba, no passado mês de outubro. Já com um outro Castro no poder, o irmão Raúl, e após a visita história de Barack Obama.

Um almoço por semana

Alfredo Duarte Costa

Jovem estudante exilado na Bélgica antes do 25 de Abril, Alfredo Duarte Costa cursou Ciências Políticas e Relações Internacionais na Universidade Livre de Bruxelas. Uma das teses que apresentou incidia sobre a crise dos mísseis de 1962 — em que a Humanidade esteve à beira de uma guerra nuclear —, tendo-se debruçado igualmente sobre a revolução cubana. Mal imaginava os dividendos que iria colher deste investimento...

Entrado na carreira diplomática depois do 25 de Abril, fora um dos consultores de Mário Soares como Presidente da República. Até que, em 1999, o ministro Jaime Gama o nomeou embaixador em Havana, um posto com que sempre sonhara. Entre Duarte Costa e Fidel Castro logo se estabeleceu uma relação muito especial. “É difícil acreditar, mas um dos primeiros jantares que tivemos começou às 21h30 e só acabou às 5h50 da manhã seguinte. Depois, passámos a jantar à média de uma vez por semana. É verdade: não estou a exagerar. Jantámos muitas vezes sozinhos, normalmente no Palácio da Revolução, ou às vezes no Palácio das Convenções, na mesma rua onde fica a residência do embaixador de Portugal. Conheci a mulher e todos os seus sete filhos e até passei um réveillon com eles. No último ano, fui condecorado com a Medalha da Amizade.” Já reformado e com 70 anos, Duarte Costa registou as suas memórias de Fidel num livro a que deu o título “Encontros Que a Memória Guarda”, a ser lançado no próximo ano. O mesmo já fizera Fernandes Fafe, que em 2008 publicou o ensaio biográfico “Fidel”.

Embaixador. Alfredo Duarte Costa com Fidel; a criança no meio é Elián González, centro de um conflito com a administração Clinton

Embaixador. Alfredo Duarte Costa com Fidel; a criança no meio é Elián González, centro de um conflito com a administração Clinton

FOTO Arquivo de Alfredo Duarte Costa

Foi uma época com duas fases muito distintas. A primeira, marcada pela reaproximação entre as diplomacias da União Europeia e de Cuba. Portugal tirou partido desse clima. Nesse contexto, Havana acolheu em 1999 a IX Cimeira Ibero-Americana, em que Portugal se fez representar, como de costume, pelo Presidente e pelo primeiro-ministro: Sampaio e Guterres. Aliás, vários ministros socialistas foram a Cuba nesses anos de degelo: Jaime Gama (dos Negócios Estrangeiros), Pina Moura (das Finanças), António Costa (da Justiça). Também Almeida Santos, o presidente da Assembleia da República, à frente de uma delegação parlamentar, e, mais tarde, de férias com a família. “O Fidel marcou-lhe uma audiência para a meia-noite, no Palácio da Revolução”, conta Duarte Costa. “Era uma hora estranha, mas não para o Fidel. Eu acompanhei os deputados. Chegámos à hora marcada e ainda pudemos assistir a uma reunião dele com um grupo de professores e estudantes da universidade. Só depois se reuniu connosco. Entre Fidel e Almeida Santos houve uma espécie de clique, de tal modo que, às tantas da manhã, quando a reunião acabou, o Fidel convidou-o para almoçar no dia seguinte.” O almoço prolongou-se até depois das 18h, quando o presidente do Parlamento fez notar o adiantado da hora, a que Fidel respondeu, bem humorado: “Já percebi que estás farto de me ouvir.” Antes, Almeida Santos elogiara a vastidão da informação e da cultura do anfitrião, que comentara os planos para a barragem do Alqueva e dissertara sobre a aspereza do clima do Alentejo. “Há alguma coisa sobre a qual o Comandante não saiba falar?”, provocara Almeida Santos. A resposta viera no mesmo registo: “Olha, não sei estar calado!”

A segunda fase foi inteiramente diferente. Foi após o fuzilamento de três sequestradores, que se apoderaram de uma balsa com meia centena de pessoas e tentaram fugir da ilha e alcançar a Florida. Depois de um julgamento sumário por um tribunal especial, os três cubanos foram fuzilados em abril de 2003. Como retaliação, a UE congelou as relações com Havana. Duarte Costa condena a atitude cubana, própria das ditaduras: “Havia uma espécie de moratória sobre a pena de morte. A última vez que tinha havido execuções fora em 1989, quando foi fuzilado o general Arnaldo Ochoa”, que comandara a missão militar em Angola, decisiva na vitória de Luanda contra a UNITA e a África do Sul. “Ninguém compreendeu estas execuções. Tanto mais que tinham prometido não voltar a fuzilar ninguém.” Os convites de Fidel ao português passaram a rarear. “Lembro-me de que organizou um jantar com três embaixadores da UE — o belga, o francês e eu — para tentar justificar-se. Manifestámos-lhe a nossa surpresa e deceção. Acho que se arrependeram imenso.”

Ao coro de condenações juntou-se uma voz muito especial: o Prémio Nobel da Literatura José Saramago, amigo e apoiante de sempre de Fidel. Num artigo no jornal “El País”, a 14 de abril, Saramago foi contundente: “Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico-me por aqui.” Nos media, falou-se em rutura definitiva. Pilar desmente. “Depois disso, o Fidel e o José conversaram”, explicou, por SMS, a partir do México. “Não estavam de acordo, nem tinham de estar. Mas justificaram-se um ao outro, no óbvio e no menos óbvio, e despediram-se com um abraço. Quando o José morreu, Fidel enviou uma coroa de flores e uma mensagem, que não tinha nada de circunstância.”

Alfredo Duarte Costa deixou Havana em 2004, despromovido para o Congo. Já com José Sócrates no Governo, foi chamado pelo ministro Luís Amado às Necessidades. “Pediu-me para ir a Cuba, tentar negociar a libertação de alguns dissidentes. Aquando dos fuzilamentos, só num dia foram presos 75 dissidentes. Aceitei a missão. Oficialmente, meti férias e estive em Cuba quase duas semanas. Não cheguei a falar com Fidel, mas tive três encontros com o ministro dos Estrangeiros, Felipe Pérez Roque. As coisas chegaram a estar bem encaminhadas, mas depois falharam.”

*com João Miguel Salvador

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 de dezembro de 2016