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Rangel sobre Passos e Marcelo: “Eu seria mais comedido”

Luís Barra

Eurodeputado do PSD acha “natural” a guerra de palavras entre o líder social-democrata e o Presidente da República, mas deixa farpa a ambos. E critica a posição de António Costa sobre a renegociação da dívida, acusando o PM de estar a falar “lá da sua cozinha doméstica”

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

em Bruxelas

Jornalista da secção Política

"Ainda bem que [Marcelo Rebelo de Sousa] não é o presidente do PSD", disse Pedro Passos Coelho; "tem toda a razão", constatou o Presidente da República, acrescentando que na sua função "não pode ter preferências nem pode ter amuos. Não pode gostar mais de uns portugueses do que de outros. Tem de gostar igualmente de todos os portugueses”. Vai animado o bate-boca entre o atual e o antigo líder sociais-democratas, num pingue-pongue que o eurodeputado do PSD Paulo Rangel considera "natural".

"Compreendo que o Presidente da República, como ele é do PSD e é muito querido no PSD e toda a gente sabe que ele é do PSD, tem de fazer um esforço para se distanciar. É isso que ele faz. E é natural que o PSD faça um esforço para afirmar a sua própria visão. Acho tudo natural", comentou Rangel, esta terça-feira, em Bruxelas, perante jornalistas portugueses.

Apesar de desvalorizar o caso, o eurodeputado não esconde que, se fosse ele o protagonista, faria as coisas de outra forma. "Eu seria, quer no caso do Presidente, quer no caso do PSD, um bocadinho mais comedido", confessou Rangel, deixando o recado para o PR e para o líder social-democrata.

Costa "lá na sua cozinha doméstica"

No final de um colóquio organizado pelo PPE, em que comentou os desafios europeus após as eleições norte-americanas, o Brexit e o referendo italiano, Paulo Rangel foi igualmente questionado sobre a posição do primeiro-ministro, que remeteu para depois das eleições na Alemanha qualquer iniciativa para por em cima da mesa a renegociação da dívida portuguesa e não foi brando com António Costa. Apesar de também concordar que muita coisa depende do resultado das eleições alemãs, Rangel discorda da forma como o chefe do Governo reagiu ao desafio lançado pelo PCP durante o congresso do passado fim de semana.

"Não concordo com o primeiro-ministro português quanto à forma como ele coloca [a questão]. Essa é a mensagem que ele quer passar para os seus parceiros de coligação. Não está a falar como um político europeu, mas a falar lá na sua cozinha doméstica que ele tem de organizar todos os dias", reagiu o eurodeputado do PSD.

"No fundo", diz Rangel, António Costa "tem de explicar qualquer coisa depois do congresso do PCP, que pôs imensa pressão sobre essa matéria. Tinha de dizer qualquer coisa, mas como político europeu sabe que as coisas não se colocam nesses termos. Nem se vão pôr nesses termos de renegociação da dívida no caso português".

Para o deputado ao Parlamento Europeu, Costa prejudica Portugal ao admitir um processo de renegociação da dívida, mesmo que seja para o empurrar com a barriga. "Faz muito mal em fazer isso, dizê-lo nesses termos numa altura em que a pressão sobre os juros portugueses não está propriamente baixa. Devia ser mais categórico a afastar isso".

As consequências do referendo italiano

Na opinião do eurodeputado social-democrata, o comportamento de António Costa assemelha-se ao de "alguns políticos europeus, como Cameron ou Renzi", que só têm uma "política de navegação à vista". "Este caminho não tem dado grandes frutos a nível europeu", constata Rangel, ainda na ressaca do referendo italiano, que, na sua opinião, pode ter grande impacto sobre a União Europeia e países como Portugal.

"Qualquer crise grave em Itália tem um impacto sistemático", assegura, notando a incerteza que envolve o futuro da oitava maior economia do mundo. "A Itália está numa situação extremamente frágil", nota Rangel, apontando "o risco de uma cavalgada do populismo" e o estado periclitante da banca italiana.

"Pode originar um aumento dos juros da dívida, criar uma crise bancária que arrastaria outros bancos", não só italianos mas alemães, como o Deutsche Bank e os bancos regionais, "o que pode criar uma nova crise bancária". A incerteza política, essa, só agrava a crise de confiança, tendo em conta que o candidato populista Beppe Grillo "poderá aparecer ainda com maior imprevisibilidade".

As eleições italianas, depois da demissão de Matteo Renzi, vêm tornar mais incerto um calendário eleitoral que, em 2017, promete deixar a Europa em sobressalto, tendo em conta as disputas que se aproximam na Holanda, na França e na Alemanha.

Paulo Rangel teme, aliás, que a vitória de Donald Trump nos EUA possa provocar um "efeito de imitação" deste lado do Atlântico, caso "forças populistas de esquerda e de direita que estão muito fortes na Europa possam ganhar um grande estímulo".

Nigel Farage, no referendo do Brexit, foi o primeiro a estabelecer essa linha direta entre os novos populismos europeus e o novo presidente eleito norte-americano. Razão para Charles Tannock, deputado conservador britânico que se opôs ao Brexit, com quem Rangel e um grupo de jornalistas portugueses almoçaram esta terça-feira, repetir, lembrando a velha frase chinesa: "Estes são tempos interessantes." Para os chineses, recorde-se, tempos interessantes são sinónimo de maldição.