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Política

Jerónimo “confirma e reafirma” profissão de fé no comunismo

Ana Baião

O secretário geral do PCP encerrou o XX Congresso com um discurso totalmente virado para dentro do seu partido. A mensagem é clara: o PCP continua a ser o mesmo: “dos operários e dos trabalhadores”, que mantém como objetivo a luta pelo comunismo e com as mesmas bases teóricas do marxismo-leninismo.

A única surpresa do discurso preparado por Jerónimo de Sousa para encerrar o Congresso comunista é, na verdade, não ter novidade nenhuma. O líder, que ontem à noite foi eleito por unanimidade pelo comité central (Jerónimo recusou votar em si próprio), fez um discurso breve, sem ter uma versão impressa distribuída aos jornalistas, (o que é raro em qualquer organização comunista) e em que a mensagem principal foi fazer uma profissão de fé absoluta nas bases políticas do PCP.

Não houve uma referencia ao Governo ou ao Bloco de Esquerda, nem sequer ao Presidente da República. O novo quadro político teve direito apenas a referências genéricas, numa intervenção que Jerónimo quis, claramente, que fosse apenas virada para dentro do partido.

O líder "confirmou e reafirmou" tudo o que havia sobre o credo comunista: que se afirma como partido dos trabalhadores e do povo, que mantém inalterado "o objetivo de construir uma sociedade socialista com vista ao comunismo" e com "a base teórica do marxismo leninismo".

As circunstâncias políticas mudaram, mas não arrastaram o PCP na mudança, quer assegurar Jerónimo de Sousa. E se dúvidas houvesse de que o rumo do partido não sofreu nenhuma guinada desde o último Congresso, Jerónimo até recuperou uma passagem das teses aprovadas há quatro anos. Na altura não se vislumbrava nenhuma perspectiva de entendimento à esquerda, mas mesmo assim os comunistas vaticinavam que "quando os trabalhadores e as populações intensificam a luta, o governo será derrotado".

"E foi, camaradas, e foi", disse o líder do PCP. Os comunistas capitalizam a derrota simultaneamente do "governo PSD/CDS, de toda a ideologia da inevitabilidade e até do medo" para dizer que seguiram o rumo certo e sem desvios ideológicos ou políticos. Jerónimo não tem dúvidas que o seu partido "não rebatia nenhum esforço na tarefa de melhorar as condições de vida dos trabalhadores e do povo".

A mensagem ficou dada. O partido pode estar sereno porque o "fascinante projeto pelo qual lutamos" continua a ser o da "construção de uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem". E se esse é "um objetivo a alcançar para além das nossas vidas", tal não impede de continuar "a agir no nosso tempo para tornar este ideal mais próximo".

Na verdade, Jerónimo deixa avisos. "O futuro é incerto perante a crise do capitalismo" e há "incerteza face à situação política nacional e os seus constrangimentos externos", mas os comunistas estão habituados. "Quem senão este partido, que nunca teve uma vida fácil e que nunca recuou perante as dificuldades, pode afirmar a sua confiança na pátria portuguesa, nos trabalhadores e no povo?", questionou.
O Congresso encerrou com uma forte ovação ao líder.

  • A crítica já não mora aqui

    Longe vão os tempos de arrasar o Governo em todas as áreas e por todos os oradores. E ainda mais longe está o tempo de tecer críticas internas. O XX Congresso do PCP é suave, o clima morno, o tom Pacífico. “O PCP não está comprometido com o programa do governo”, garantiu, ontem, o líder da bancada parlamentar comunista. Mas parece.