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Geringonça intocável: o congresso do PCP em 7 pontos

Ana Baião

Há dois congressos, o aberto à comunicação social e a sessão fechada aos delegados. A reunião pública foi marcada pela unanimidade, Costa e Marcelo ficaram de fora, João Oliveira foi dos mais aplaudidos e, para travar o regresso da direita, a luta continua a fazer sentido

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Os comunistas estiveram três dias reunidos em Almada, no primeiro congresso pós-’geringonça’. As teses foram aprovadas por unanimidade e, durante os trabalhos abertos à comunicação social, não houve ninguém a discordar do acordo assinado há um ano com o PS. Jerónimo de Sousa, em vésperas do congresso, ainda dizia esperar que surgissem cíticas pois a situação que existe "não é intocável". Mas afinal o que foi discutido?

  • É a luta de Cunhal que continua

Foram várias as referências a Álvaro Cunhal como sempre acontece nos congressos do PCP, mas importa sublinhar que nesta reunião o nome do líder histórico aparece como caução para o acordo que o PCP fez em novembro de 2015 com o PS. Ou seja, o caminho escolhido não contraria as lições e o legado de Cunhal: tudo o que o PCP está a fazer enquadra-se na luta “justa e empolgante” pela qual o antigo líder sempre se bateu. Estas referências servem aqui para sossegar os mais desconfortáveis com o acordo com o PS e explicar aos militantes como a doutrina do partido não está, de modo algum, a ser contrariada. O objetivo último mantém-se: impedir a direita de estar no Governo e, por isso, a 'geringonça' está para durar. "Vamos tirar o máximo" do acordo com o PS, dizia João Oliveira.

  • As omissões, de Costa a Marcelo

Três dias de debate e o que ficou de fora? Críticas ao Governo quase não se ouviram. O orçamento do ministério da Cultura é “vergonhoso”, o PS não “enfrenta o grande capital” e pouco mais. O PCP diz que não se sente limitado pelo acordo com o PS, mas parece. O nome de António Costa nunca foi pronunciado, nem do Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, ou de algum ministro do atual Governo. As referências ao Bloco de Esquerda foram de passagem. A grande vaia ainda foi para Cavaco Silva, quando foi lembrado como ele “apadrinhou” o anterior Governo PSD/CDS.

  • Salário mínimo e escola pública: as prioridades do partido

As prioridades do PCP para o futuro são a fixação do salário mínimo nacional em 600 euros, revogação caducidade da contratação coletiva, combate à precariedade, a defesa da escola pública e do Serviço Nacional de Saúde. Jerónimo de Sousa elencou-as no discurso de encerramento em que, contudo, se esforçou mais por reafirmar a profissão de fé no comunismo.

  • O Euro continua a dividi-los

É uma grande diferença entre o PS e o PCP. Antes da adesão de Portugal à moeda única, os comunistas pediram um referendo, que nunca veio a existir. Durante vários anos, alertaram para os riscos da moeda única, com a crise de 2008 começaram a pedir de forma mais clara a saída do Euro e a crítica ao projeto europeu subiu de tom. No imediato, o PCP queixa-se dos constrangimentos do Tratado Orçamental e avisa o PS que há “uma contradição insanável” entre esses objetivos e uma política de apoio ao crescimento e ao investimento público. Os avisos multiplicaram-se ao longo do congresso, mas a verdade é que o PCP já ficou para a história como tendo viabilizado um Orçamento (o de 2017) que se propõe conseguir o défice mais baixo de sempre (1,6%).

  • Pressão para renegociar a dívida

Para o PCP, é urgente renegociar a dívida pública pois sem isso o país não conseguirá libertar recursos para crescer. Há um argumento que o partido não se cansa de repetir: o que o país paga em juros da dívida (oito mil milhões por ano) serviria para pagar todo o Serviço Nacional de Saúde. Esta questão consta dos acordos assinados pelo PS tanto com o PCP e BE, aguarda-se ainda o consenso gerado à esquerda sobre esta questão. O PS já deixou bem claro que não vai travar nenhum combate na Europa por causa disso, mas os parceiros não abrandam a pressão - consideram, aliás, que está aí a chave para que o Orçamento de 2018 possa ser mais expansivo.

  • Quem tem mais likes?

É um clássico em qualquer congresso: o palmómetro dos delegados que permite aferir bem a popularidades dos vários dirigentes. De quem é que o povo comunista gosta mais? Para além de Jerónimo, como é óbvio, os mais amados são João Oliveira (líder parlamentar), Francisco Lopes (deputado e um dos dirigentes de topo do partido), Edgar Silva (candidato presidencial do PCP em janeiro de 2016), Arménio Carlos (líder da CGTP) ou Bernardino Soares (ex-líder parlamentar e presidente da Câmara de Loures). Este poderá ser o último mandato de Jerónimo de Sousa como secretário-geral do PCP, portanto, será que o 'palmómetro' pode indicar algum sucessor?

  • Património é motivo de orgulho

Se há área em que o PCP se distingue dos outros partidos é no património que detém: na quantidade de imóveis e na rentabilidade que daí retira. No congresso, o partido assumiu que isso é motivo de orgulho e que permite a independência do partido. Desde Francisco Louçã a Manuela Pinto Ângelo, os dirigentes comunistas defenderam com unhas e dentes o património (avaliado em cerca de 14 milhões de euros), criticaram a comunicação social por “vasculhar” as contas do partido, denunciando aquilo que consideram ser uma tentativa de limitar o PCP.

  • Jerónimo “confirma e reafirma” profissão de fé no comunismo

    O secretário geral do PCP encerrou o XX Congresso com um discurso totalmente virado para dentro do seu partido. A mensagem é clara: o PCP continua a ser o mesmo: “dos operários e dos trabalhadores”, que mantém como objetivo a luta pelo comunismo e com as mesmas bases teóricas do marxismo-leninismo.

  • A crítica já não mora aqui

    Longe vão os tempos de arrasar o Governo em todas as áreas e por todos os oradores. E ainda mais longe está o tempo de tecer críticas internas. O XX Congresso do PCP é suave, o clima morno, o tom Pacífico. “O PCP não está comprometido com o programa do governo”, garantiu, ontem, o líder da bancada parlamentar comunista. Mas parece.