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Política

A crítica já não mora aqui

Ana Baião

Longe vão os tempos de arrasar o Governo em todas as áreas e por todos os oradores. E ainda mais longe está o tempo de tecer críticas internas. O XX Congresso do PCP é suave, o clima morno, o tom Pacífico. “O PCP não está comprometido com o programa do governo”, garantiu, ontem, o líder da bancada parlamentar comunista. Mas parece.

O histórico dirigente comunista, Domingos Abrantes chegou ao Congresso de Almada e foi logo interpelado pela jornalista da RTP que lhe estendeu o microfone e fez a pergunta direta: "está satisfeito com a posição conjunta assinada entre o PCP e o PS?". Abrantes nem hesita. "Não estou nem satisfeito, nem insatisfeito. Estou de acordo".

É assim neste XX Congresso comunista. Já lá vão dois dias de trabalho e nem uma crítica interna se ouviu ao facto de a direção do PCP ter viabilizado um governo socialista. O congresso anterior não previu nada semelhante, ninguém discutiu tal hipótese nos idos de 2012, quando os tempos eram de troika e de ataque cerrado à política de direita, personalizado pelo PSD e CDS, mas também pelo PS com quem agora os comunistas se entenderam.

Nada, porém, que pareça incomodar os 1200 delegados que, durante as horas de sessão do Congresso permanecem sentados nos seus lugares, deixando a impressão de que a sala está sempre com lotação completa. As intervenções sucedem-se e não há uma sombra de dúvida, um remoque à decisão tomada, uma voz a beliscar a direção comunista. Mesmo se Jerónimo de Sousa avisou o partido que estava bem consciente das "contradições" e da "complexidade" que o atual quadro político acarreta, ninguém manifestou oposição. Será como resume Abrantes: o importante não é estar satisfeito, será estar de acordo. O coro está afinado.Ponto final.

Ultra Light contra Costa

Mais surpreendente do que a ausência de crítica interna, neste Congresso do PCP o que espanta mesmo é a falta de confrontação com o Governo. Ninguém esperava ouvir os tradicionais coros "governo para a rua" que levantavam os delegados das cadeiras como se tivessem molas. Os tempos mudaram e, claro, não se manda para a rua um Executivo que se ajuda a manter no poder. Mas podia haver áreas, aspectos, sectores onde a ação governativas mereceria reparos.

"O PCP não está comprometido com o programa do Governo, não se diluiu, não está condicionado por qualquer acordo parlarmentar e não é a força de suporte do Governo", disse ontem João Oliveira, levantando a sala em aplausos.

Jerónimo tinha arrancado o Congresso com um aviso para fora de que se podia "repetir a historieta do PCP domesticado, que não nos impressionam", mas ao longo dos dois dias de Congresso, desfilaram pela tribuna oradores que falaram da cultura, da banca, da agricultura, dos caminhos de ferro, dos telefones, das escolas, dos jovens... de tudo. Mas sem nunca atacar de frente o PS, António Costa ou qualquer membro do seu Governo.

Quando muito, deixaram-se, beliscões. Suaves para o habitual. Mário Nogueira, o dirigente da Fenprof capaz de dizer dos ministros da Educação o que Maomet não disse do toucinho, apenas deixou um leve lamento. "Tarda o Governo PS em passar das palavras aos atos", afirmou.

Paulo Sá trouxe o fisco e as finanças à baila e foi mais longe. Mas sem quebrar nenhum prato. "O PS recusa-se a enfrentar os interesses do grande capital", atirou, chamando as medidas fiscais de "manifestamente limitadas e insuficientes". E foi só. O congresso termina dentro de momentos.