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Pedro Ferreira Passos Leite Coelho

Ilustração Helder Oliveira

O líder do PSD é criticado por um discurso pessimista e pouco mobilizador. Onde é que já ouvimos isto?

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Ao fim de meses a zurzir no Governo socialista, nas políticas erradas, no estado anémico da economia, na derrapagem da dívida pública, após ‘N’ discursos a denunciar a “mentira” e a “manipulação” do PS, o principal rosto da oposição desabafou: “Estamos fartos, cansados, de chamar a atenção para estas questões e eu direi que quase ninguém nos ouve!”

A falta de eficácia do PSD já era reconhecida por vozes gradas do partido. O principal crítico da liderança até apontou razões. Por exemplo, o cansaço em relação aos protagonistas: “O PSD não pode andar com as mesmas caras há anos, as pessoas têm de saber quando sair do palco.” Mas também a necessidade apresentar alternativas mobilizadoras. “O país precisa mais rapidamente e melhor de conhecer aquilo que são as alternativas do PSD. (...) Sabemos, porque não somos cegos, que esse resultado está longe de ser alcançado, porque vemos as sondagens, falamos com as pessoas e sabemos que há um caminho muito grande para percorrer.”

O ano era 2009, o PSD, maior partido da oposição, era liderado por Manuela Ferreira Leite e o seu principal crítico era Pedro Passos Coelho. Manuela ou não aparecia ou aparecia com cara fechada, pose austera e más notícias: o PS estava a levar o país para o “abismo”. Não havia uma promessa simpática, uma palavra de esperança. Só “Verdade”, com maiúscula. O PSD não gostou e Passos, derrotado por Manuela nas diretas de 2008, também não. O partido agitava-se — queria mais do que “verdade” e tragédia.

A viagem a 2009 lembra-lhe o PSD de 2016? As semelhanças entre a mensagem sombria de Ferreira Leite e o discurso de “mensageiro da desgraça” (Marques Mendes dixit) de Passos Coelho começam a criar entre os críticos do líder social-democrata o receio de que a história se repita. Até porque, como em 2009, as sondagens não animam — ontem, a da Católica punha o PS (43%) à beira da maioria absoluta e o PSD 13 pontos atrás. E Passos é o líder partidário mais impopular.

“A mera denúncia dos erros do adversário não é suficiente”, disse ao Expresso Pedro Duarte, uma das poucas vozes que no último congresso do PSD se demarcaram de Passos e lhe pediram que mudasse de estratégia. “Às vezes fico com a sensação de que regressámos a 2009: o PSD fazia uma oposição séria, dizia a verdade, denunciava erros, tínhamos também uma governação irresponsável que iludia os portugueses. Mas o discurso do PSD não foi mobilizador. Temos de apresentar um projeto que possa inspirar o país, mas o que vejo é que corremos o risco de voltar a cometer o erro de 2009.” Coincidência: em 2009, quando Passos fez um aviso parecido a Manuela (“O PSD precisa de um programa eleitoral que possa mobilizar a sociedade”), tinha Pedro Duarte do seu lado.

Passos Coelho ainda não chegou ao ponto de admitir que “ninguém ouve o PSD”, mas já disse que “o país está bastante pior, embora as pessoas não estejam ainda bem conscientes disso”. Ou seja, a mensagem do PSD não está a passar. Talvez, admite o líder laranja, porque o discurso do partido “não vende ilusões”. “A nossa missão não é agradar”, repete de cada vez que reafirma a mensagem. “Quando faço as minhas propostas não penso se vou ganhar ou perder votos, digo aos portugueses o que penso genuinamente. Podem não querer seguir o meu caminho, mas não duvido que daqui por dois ou três anos vão reconhecer que eu tinha razão”, dizia Manuela numa entrevista em 2009. Podia acrescentar as palavras de Passos em setembro passado: “Quanto mais o tempo passa, mais as pessoas se apercebem de que alguma coisa errada se está a passar”.

A questão do tempo não é irrelevante, avisa um social-democrata desencantado com o ex-primeiro-ministro. “Ele pôs as fichas todas numa estratégia de falhanço do Governo. Mas quem controla os calendários é António Costa e [Passos] corre o risco de lhe acontecer o mesmo que a Ferreira Leite: ter razão antes de tempo. Isso não entusiasma ninguém e não dá para ganhar eleições.”

Tragédia, suicídio... Diabo!

“O país está mais pobre, endividámo-nos o dobro, é um caminho de tragédia, de suicídio, aquele por onde Sócrates nos está a levar”, avisava Manuela. “Estamos a andar para trás”, repete Passos. “Esta solução de Governo está esgotada. Não tem nada para oferecer a não ser a estagnação”, disse no Pontal, antes do outono em que viria aí “o Diabo”.

Tanto o atual como a antiga líder tiveram pela frente a barragem de anúncios do PS. “Esta troika governativa só sabe fazer o que é fácil”, acusa Passos. Em 2009, Sócrates encheu a campanha de promessas (cheque-bebé, lembra-se?) e aumentou os funcionários públicos em 2,9% — questionada sobre se faria o mesmo, a presidente do PSD foi seca: “Aumentarei sempre os salários se houver dinheiro para os pagar”. Em 2016, Costa não só reverteu boa parte das medidas impopulares de Passos, como continua a agradar à Função Pública, agora com a promessa de integrar os precários. Esta quinta-feira, Passos respondeu a esta medida com o voto contra, porque “não sabemos quem são, o que fazem, o que é que vai custar para o futuro e quem é que vai ter de pagar isso.”

Passos faz muitas vezes a pergunta sobre de onde vem o dinheiro e quem vai pagar. Manuela tinha a mesma dúvida: “Nenhum português sabe de onde estão a vir os milhões anunciados todos os dias” (em 2009, “os milhões” eram para as “obras megalómanas”, agora são para as “reversões”). Ferreira Leite prometia “verdade”, Passos promete “confrontar a maioria e o Governo com a realidade”. Manuela acusava Sócrates de “logro”, Passos denuncia a estratégia “trambiqueira” de Costa.

Os alvos das críticas reagiram de forma semelhante. “A diferença entre nós”, disse Sócrates olhos nos olhos num debate com Manuela, “não é apenas de agenda económica, mas de atitude, entre quem tem confiança no futuro e nos portugueses e quem se limita a explorar a descrença, o negativismo e o pessimismo.” Costa cola os mesmos epítetos a Passos, mas o homem a quem o Presidente da República chamou “irritantemente otimista” é mais fino. Esta semana, perante bons indicadores económicos e com o OE quase aprovado, ironizou: “Até lhe podem chamar otimismo, para passo a passo irmos cumprindo o que prometemos, contra aqueles que estão sempre à espera do Diabo mas que têm pouca fé nos portugueses e nas portuguesas para vencerem a crise.”

A história repete-se até na efervescência que anima o PSD. No tempo de Manuela, ainda faltavam oito meses para as eleições e já Passos sinalizava a disponibilidade para ser candidato a primeiro-ministro — e Miguel Relvas mais um exército do aparelho preparavam terreno. Agora, a um ano das autárquicas, Rui Rio deu o tiro de partida para o debate sobre a sucessão e Luís Montenegro é questionado sobre as suas ambições de liderança. Em 2009, perguntaram a Passos sobre esta coisa do PSD ter um líder e andar a falar do líder seguinte. “É um jogo de perceções”, respondeu — se se fala mais da alternativa do que do líder, é porque este “não está a fazer o que deve”.

Separados à nascença

“Estamos fartos, cansados, de chamar a atenção para estas 
questões e direi 
que quase ninguém nos ouve”
Manuela Ferreira Leite, 2009

“O país está bastante pior, embora as pessoas 
não estejam ainda bem conscientes disso”
Pedro Passos Coelho, 2016

“É um caminho 
de tragédia,
de suicídio, aquele
por onde Sócrates 
nos está a levar”
Manuela Ferreira Leite, 2009

“Estamos 
a andar para trás”
Pedro Passos Coelho, 2016