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Política

Marcelo quebra protocolo para celebrar singularidade das relações entre Portugal e Espanha

Rui Duarte Silva

Segundo dia da visita real espanhola arrancou pela manhã no Parque da Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto e termina em Lisboa, onde esta quarta-feira Felipe VI participa numa sessão solene na Assembleia da República

Não estava prevista qualquer intervenção do Presidente da República durante o almoço desta terça-feira no Palácio da Bolsa, oferecido por Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, a Felipe VI e Letizia Ortiz, bem como a mais duzentos convidados, entre os quais se contavam políticos e empresários dos dois países ibéricos. Porém, Marcelo Rebelo de Sousa deixou que o coração falasse mais alto, como o próprio o reconheceu, e não resistiu a quebrar o protocolo que determina que nestas ocasiões todas as intervenções devem ter um suporte escrito.

Para o que o Presidente da República pretendia dizer não havia necessidade de preparação prévia. Tratava-se, sobretudo, de falar do carinho, da amizade da qual resulta ser Espanha “um caso especial para Portugal”. Depois de sublinhar o acerto da decisão de escolher o Porto para início desta visita de Estado dos reis de Espanha, Marcelo, a discursar no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, celebrou a singularidade da relação entre os dois países, “na cultura, na sociedade, na economia e na política”.

No ano em que se assinala o 30.º aniversário da adesão à então Comunidade Económica Europeia, “um projeto que tanto nos é caro e fundamental para a nossa existência coletiva”, o PR chamou a atenção para “a interdependência e interrelação económica únicas, que a União Europeia reconhece, tal como há pouco reconheceu o nosso empenho financeiro e o nosso crescimento económico”.

Aos empresários portugueses e espanhóis ali presentes, “que conjuntamente com os trabalhadores das suas empresas todos os dias constroem um futuro conjunto de progresso e justiça social”, o PR agradeceu o papel desempenhado e apelou a que consigam fazer mais e melhor. Isto porque, assegurou, “é possível ir mais longe nas relações entre as nossas economias, os nossos Estados e os nossos povos”.

Logo de seguida interveio Felipe VI, que durante a manhã visitara o Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC), onde lhe foi oferecido um violino em fibra de carbono desenvolvido por uma empresa ali sediada, e depois o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S). Também o rei acabou por ter uma parte final de improviso, durante a qual expressou a convicção de que os dois países têm “um horizonte muito positivo no futuro”, embora “não isento de riscos”. Para que esse futuro se materialize será necessário “descobrir novas áreas de conhecimento”, numa referência direta às permanentes alusões à saga dos descobrimentos marítimos vivida pelas duas nações em séculos passados.

Exemplar relação económica

Nesse sentido, com esta visita, sublinhou Felipe VI, “não se trata apenas de fomentar e promover as relações económicas e comerciais singularmente intensas entre os dois países, nem de por em contacto empresários de uma e outra nação”. Trata-se, antes, de “constatar e dar testemunho do funcionamento exemplar da relação económica, comercial e empresarial entre Portugal e Espanha”.

São relações que deram um salto “qualitativo e quantitativo espetacular após o ingresso na então CEE”, graças à entrada em vigor do Mercado Único Europeu, do qual resultou uma abertura das economias dos dois países, “acabando com protecionismos, melhorando a competitividade e permitindo a livre circulação de pessoas, bens e capitais”.

Este aspeto acabou por ser central na intervenção de Rui Moreira. O presidente da Câmara do Porto começou por recordar que em 1986 Espanha recebia 4% das exportações portuguesas, e apenas 7% das importações nacionais provinham daquele país. Em trinta anos a situação alterou-se de um modo muito substancial. Espanha é hoje o principal cliente e fornecedor externo de Portugal, ao representar “20,5% das nossas exportações e 31% das nossas importações”, disse o autarca.

Neste momento, existem mais de seis mil empresas portuguesas a exportar para o mercado espanhol e, nas últimas décadas, referiu ainda Rui Moreira, “Espanha tem sido, quase todos os anos, o maior investidor direto em Portugal”.

Numa intervenção muito centrada nas relações económicas entre os dois países, Rui Moreira, que leu uma parte final do seu discurso em castelhano, dirigiu-se ao rei, “de velejador para velejador”, para frisar que “hoje, pode não haver novos mares para descobrir”., mas resta, no entanto, muito para navegar, “a nós, povos que temos a irrequietude dos eternos navegantes”.

Após o almoço, a comitiva seguiu para Lisboa, onde prossegue o programa oficial da visita.