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Política

Que política queremos hoje

As decisões políticas já não são exclusivas dos partidos eleitos. Os cidadãos deixaram de ver os seus problemas resolvidos e afastaram-se, mas não deixaram de se interessar pela política

Rita Isabel Pardal

Parece que a política saiu à rua desde que Donald Trump ganhou as presidenciais americanas. De repente, nos cafés por esse mundo fora, discutem-se as ideias, as nomeações e as estratégias do Presidente-eleito. O sociólogo Boaventura Sousa Santos, atualmente a dar aulas na Universidade de Wisconsin-Madison, já perdeu a conta às conversas que teve sobre Trump. Há uns dias, um veterano de guerra, de origem africana, sem abrigo, disse-lhe que tinham de dar “uma hipótese de governar” ao bilionário. Pouco dias depois dessa conversa, assistiu às manifestações contra o pipeline Dakota Access (para levar petróleo do Dakota do Norte para Illinois, que passa por território sagrado índio, fazendo aumentar o fracking, um processo que coloca em risco o ambiente do planeta) em que “participaram milhares de jovens”.

E, no entanto, os números dizem que os cidadãos estão afastados da política. Em apenas seis Estados e no distrito de Columbia é que um dos candidatos teve mais votos do que a abstenção. Na Colômbia, onde se trabalha um processo de paz histórico que porá fim a mais de 50 anos de guerra, 63% das pessoas não votaram quando foram chamadas às urnas para referendar o acordo entre o Governo e as FARC. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) dizem que 50% dos colombianos não estão interessados em política. O mesmo estudo revela que em Portugal a percentagem é de 41%, sendo um dos países-membros que tem a taxa mais alta (ver gráfico). A média do total ronda os 20%, só nos países parceiros mas que estão fora da organização, como é o caso da Colômbia, se veem números mais altos do que em Portugal, ou iguais, como é o caso do Brasil (41%).

E à medida que a idade desce, o desinteresse pela política aumenta. Um em cada quatro jovens não quer saber de política. A República Checa é um dos exemplos que explanam isso: enquanto que a média do desinteresse está abaixo dos 40%, nos jovens chega quase aos 60%. E mesmo nos países onde o interesse é mais alto, como é o caso da Dinamarca e da Alemanha, o desinteresse dos jovens consegue atingir o dobro de pontos percentuais. Carlos Jalali, professor da Universidade de Aveiro, diz que a relação dos mais novos com a política não é para ignorar. “Há muito pouca reflexão sobre como devemos enquadrar os jovens. Mas há uma lacuna na educação.” Uma experiência recente, na qual Jalali participou, com alunos do 12º ano, mostrou que os que tiveram a disciplina de Ciência Política assimilaram melhor a sua participação na vida pública, contribuindo para diminuir as taxas de abstenção que em Portugal ultrapassam os 40%.

Onde estão, afinal, os milhares que se manifestam na rua e que nos cafés discutem as escolhas de Donald Trump, o caos do ‘Brexit’ ou, por cá, o futuro da ‘geringonça’ portuguesa? A quem interessa a política? Boaventura Sousa Santos não considera que os cidadãos estejam alheados da política. As pessoas estão, sim, afastadas dos políticos que as têm representado desde sempre. Ou seja: do sistema. “Demitem-se de um certo tipo de política. Quando, em 2011, surgiu o movimento dos indignados, foi claro que estava errada a premissa de que os jovens estavam despolitizados porque tinham entrado na sociedade de consumo e não tinham outras preocupações. Eles não estão despolitizados, não estão é interessados na política dominante existente.” E daí vitórias surpreendentes e partidos recentes que prometem a revolução e mudança do sistema, como o Podemos, em Espanha, o Syriza, na Grécia, ou o Movimento 5 Estrelas, em Itália. E é também por isso que personalidades fora do centro político atingem um protagonismo que há meia dúzia de anos seria considerado impossível.

O democrata Bernie Sanders, visto como um socialista, o que na América equivale à extrema-esquerda, cresce entre os jovens universitários e as classes médias. Veem nele o fim dos privilégios do sistema, a erradicação dos que se alimentam desse sistema, como a alta finança e os fundos de investimento. Donald Trump foi buscar votos cruciais à classe operária, prometendo-lhe que com ele as decisões deixariam de ser tomadas em Wall Street.

O caminho da política segue uma nova direção, ainda desconhecida. Nos anos 60 discutiram-se diferentes opções ideológicas, com uma tónica muito forte nas tendências progressistas como o socialismo ou a social-democracia. Os anos 80 estreitaram a visão para o neoliberalismo, argumentando que não havia alternativa entre as diferentes opções. A política dominante tornou-se uma luta pelo poder, sem ideologia. “Tivemos uma espetacularização da política com Trump, Berlusconni, Beppe Grillo. O esvaziamento ideológico foi substituído por uma sociedade mediática”, afirma Boaventura Sousa Santos.

A desilusão com as elites

Os cidadãos deixaram de acreditar nos partidos, na sua capacidade de lhes resolver os problemas concretos, mas continuam a concentrar-se em causas. O Brasil está em polvorosa. Espanha viu partidos emergentes disputar o poder taco a taco com outros já há anos institucionalizados. A União Europeia põe em cima da mesa o ‘Frexit’, caso Marine Le Pen ganhe as presidenciais do próximo ano. Existe a procura por uma alternativa. “Não há um alheamento da política. Há um alheamento das elites políticas. Isso resulta de uma insatisfação com as opções partidárias e uma descrença com as políticas públicas”, defende Carlos Jalali. Para o politólogo, na base deste sentimento está a perda de capacidade de decisão, para atores externos, que os próprios partidos facilitaram e proporcionaram. O fluxo decisório desviou-se para entidades não-eleitas, os governos deixaram de ter poder suficiente para conseguir tomar decisões com a influência necessária e os cidadãos ressentiram-se. Passou a ser a União Europeia a mandar em muitas das políticas públicas dos países-membros que a compõe. E nos EUA, o lobby de Wall Street domina grande parte das decisões. “Há uma falta da perceção da falta de responsabilidade”, frisa.

Assistimos a uma rejeição maior das elites que governam do que, propriamente, da política em si. É difícil encontrar alguém que não tenha uma opinião do momento de viragem que o mundo atravessa. A política está presente em todos os momentos do dia a dia, desde o buraco na estrada ao preço dos medicamentos, à qualidade do ensino, ao preço do pão e do café. Os cidadãos é que deixaram de acreditar que são os políticos que tomam estas decisões. Será este o fim do mundo que Fukuyama preconizava?