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Portugueses preocupados, Governo desvaloriza

Intenção de Donald Trump de expulsar os imigrantes ilegais não preocupa José Luís Carneiro

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Mike Segar / Reuters

O secretário de Estado das Comunidades não vê “motivos de especial preocupação com a expulsão de nacionais portugueses dos EUA”, após a confirmação de que o Presidente eleito Donald Trump, uma vez em funções, se prepara para expulsar os imigrantes ilegais com cadastro. “A generalidade [dos portugueses] que ali vive e trabalha está devidamente legalizada”, explica José Luís Carneiro, tranquilizado, além do mais, pelo facto de “o número de nacionais deportados daquele país ter vindo a diminuir substancialmente: 25 em 2015 contra 126 em 2011, a generalidade dos casos com antecedentes criminais graves”.

Questionado pelo Expresso sobre se o Governo não ficou preocupado com o que a eleição de Trump poderia significar para os portugueses residentes nos EUA, sobretudo para os que ainda não estão naturalizados americanos, o secretário de Estado garantiu que não: “Não temos prevista qualquer ação de sensibilização dos cidadãos portugueses residentes nos EUA, no sentido de, reunindo os requisitos para o efeito, requererem a nacionalidade norte-americana”, disse.

Até porque, adiantou, “não existem estatísticas conhecidas sobre o número de nacionais portugueses em condições de serem naturalizados, processo que, pela sua natureza, decorre junto das autoridades americanas”. Claro que se os próprios o decidirem fazer, não será Portugal a opor-se, pelo contrário: “Encararíamos com naturalidade qualquer movimento dos portugueses naquele sentido.”

Portugueses pedem ajuda

As declarações do governante contrastam com as preocupações evidenciadas esta semana, em declarações à Lusa, por uma associação de apoio a imigrantes lusófonos nos Estados Unidos e um gabinete jurídico que trabalha com estas comunidades: “As pessoas não estão com medo. Estão apavoradas. Perguntam se devem sair de casa, veem carros no seu bairro e acham que são suspeitos. Em tantos anos nos EUA, nunca vi nada igual”, diz Ana Oliveira, proprietária de um gabinete de consultoria jurídica em Newark, Nova Jérsia.

A Aliança de Falantes de Português de Massachusetts (MAPS), uma associação com seis escritórios que apoia sobretudo imigrantes portugueses, brasileiros e cabo-verdianos, afirma também que tem “notado muita preocupação entre os clientes sobre o que a eleição de Donald Trump poderá representar”. “Nos meses anteriores às eleições, notámos um aumento de cerca de 30% no número de candidaturas à cidadania, aumento que atribuímos, embora sem factos que o comprovem, não só à vontade dos nossos clientes em participar nas eleições, mas também de assegurar os seus direitos e prevenir deportações ou outras sanções que possam vir a ser implementadas”, explicou à Lusa o diretor executivo da MAPS, Paulo Pinto.

Ana Oliveira tem passado os dias “a pedir às pessoas que tenham calma” e entregando-lhes uma lista dos passos a tomar: “Devem renovar os passaportes do país de origem e, caso os filhos não tenham, pedi-los. Devem ter algum dinheiro de parte em caso de emergência. Se tiverem família americana, devem pedir que façam o pedido de legalização, para ter algo que possam mostrar em caso de serem chamados por um juiz de imigração.”

Já a MAPS garante que irá “redobrar o esforço de educação sobre a importância do processo de naturalização, com sessões informativas sobre imigração ao longo do ano, apoio gratuito ao preenchimento dos formulários de candidatura e campanhas de publicidade incentivando a obtenção da cidadania americana”.

Uma longa relação

Sobre a eleição de Donald Trump, em termos genéricos, José Luís Carneiro partilha os termos da reação oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros ao resultado das presidenciais de 8 de novembro: “Confiamos que as prioridades da política externa da nova Administração se situem no grande quadro de valores que tem norteado a ação dos Estados Unidos no mundo, no compromisso com o sistema multilateral das Nações Unidos, com a Aliança Atlântica e com o desenvolvimento das relações com a União Europeia.”

E garante que “Portugal cooperará lealmente com os EUA, quer no âmbito bilateral quer no âmbito multilateral, respeitando o direito internacional e os valores democráticos e reforçando os laços que tão profundamente ligam os dois países”.