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Rebeldes atrapalham escolhas autárquicas do PS

Com guerras em várias concelhias, convenção autárquica do partido será só em março de 2017

Com guerras em várias concelhias, convenção autárquica do partido será só em março

Com guerras em várias concelhias, convenção autárquica do partido será só em março

José Sena Goulão / Lusa

O PS decidiu adiar para março de 2017 a realização da Convenção Nacional Autárquica que estava inicialmente agendada para dezembro deste ano. A informação foi avançada ao Expresso por fonte oficial do partido, explicando que “o mês de dezembro foi sempre indicativo” e que o PS definiu agora o mês de março para realizar o encontro, em Lisboa, “devido à sua agenda política”.

O conceito de “agenda política” é lato e abrange também a indefinição e as polémicas que ainda envolvem algumas candidaturas socialistas em vários concelhos do país. Apesar de a direção ter definido como regra o princípio de recandidatura de todos os presidentes de câmara que ainda não estejam a cumprir um terceiro mandato, há algumas concelhias que não aceitam essa orientação.

DE VILA DO BISPO 
A BARCELOS

Presidentes 
sem apoio
É esse o caso, por exemplo, de Vila do Bispo, onde não é ainda certo que o atual presidente, o socialista Adelino Soares, se recandidate, depois de a concelhia local lhe ter retirado a confiança política. “É um dossiê que está a ser analisado, mas que seguirá as normas previstas nos estatutos do PS, em que a decisão da comissão política local deverá depois ser validada pela direção nacional do partido”, sintetizou ao Expresso o presidente da distrital do Algarve do PS, António Eusébio.

Em Nelas, a concelhia local também decidiu, numa eleição interna, não apoiar a recandidatura do atual presidente da Câmara, Borges da Silva, um independente eleito pelo PS. A decisão foi comunicada “de forma inequívoca” no verão pela concelhia local, demarcando-se da recandidatura que Borges da Silva estaria já a anunciar, “à revelia de todas as estruturas e orientações partidárias”.

Em Barcelos, a luta interna dura desde junho. A concelhia escolheu para candidato o número dois da autarquia, Domingos Pereira, num processo em que o presidente de câmara, Miguel Costa Gomes, acusa Pereira de “atitude de enorme deslealdade” e a concelhia de “democracia à norte-coreana”. Domingos Pereira, a quem Costa Gomes retirou todos os pelouros enquanto vereador, diz que não fez mais do que respeitar os estatutos do partido, levando a indigitação do candidato autárquico à concelhia. “A distrital ratificou o nome votado por maioria”, refere, sublinhando que a recondução é um princípio genérico e não imperativo no partido. Se avança ou não, Domingos Pereira não abre o jogo: “Não me compete decidir nada, respeitarei as deliberações do partido”.

Em Vizela, fortaleza rosa desde a elevação a concelho em 1998, a tensão já levou à dissidência de Victor Hugo Salgado, vice-presidente da câmara a quem o líder da autarquia, Dinis Costa, retirou todos os pelouros em maio. A exoneração aconteceu após Dinis Costa, desafiado por Hugo Salgado, ter vencido na comissão política local, por quatro votos, o tira-teimas sobre quem seria o candidato às eleições em 2017. “Foi uma afronta em tempo inoportuno, o lógico era a questão ser suscitada após o congresso”, diz Dinis Costa, afiançando ter o apoio da distrital e dos órgãos nacionais do PS na corrida ao seu terceiro mandato.

FERREIRA DO ALENTEJO

O regresso 
de Ameixa
Em Ferreira do Alentejo não se coloca a recandidatura do atual presidente, Aníbal Reis Costa, a cumprir o terceiro mandato no cargo. Mas aquele que era encarado por Reis Costa e pela direção do partido como um sucessor natural. o vice-presidente da Câmara, Nuno Pancada, acabou ultrapassado na ‘corrida’ pelo ex-deputado do PS e presidente da câmara de Ferreira do Alentejo entre 1993 e 2005, Luís Pita Ameixa. O regresso de Ameixa ocorreu, segundo explicou ao Expresso, na sequência de “um movimento de cidadãos”.

“Foi um movimento que cresceu a tal ponto que houve indicadores que me davam uma votação de 55% se avançasse numa lista independente e 20% a um outro candidato socialista. Mas eu sempre disse que a avançar deveria fazê-lo pelo PS”, resume. Embora admita que Nuno Pancada era o candidato inicialmente previsto pela concelhia, Pita Ameixa refere que o seu nome acabou por ser aprovado por 10 dos 16 membros da concelhia, o que “esvazia eventuais polémicas” em torno da sua candidatura. “Conjugou-se a vontade do grupo de cidadãos com a da concelhia. É uma candidatura irreversível”, afirma, convicto de que este processo seguirá a via formal para aprovação por parte da distrital de Beja e da direção nacional.

MATOSINHOS

Confusão na lota
Matosinhos volta a ser uma dor de cabeça para a frente socialista. A cisão na escolha do sucessor de Guilherme Pinto teve início em julho, quando Ernesto Páscoa foi aprovado com 58% dos votos pela concelhia. A distrital do Porto avocou o processo, alegando Manuel Pizarro que o líder da concelhia “não é o melhor posicionado” para devolver a câmara aos socialistas. A aposta de Pizarro e direção do PS é Luísa Salgueiro. Após uma moção de repúdio, uma centena de militantes locais já pediu a António Costa “diretas” para pôr fim à discórdia. O apelo a primárias surge a par de um manifesto de apoio à deputada, assinado por 80% dos eleitos autárquicos, entregue, esta semana, na sede da distrital.

Anteontem, o grupo de independentes de Guilherme Pinto deu “o sim” a Pizarro para a elaboração de uma lista de consenso, cabendo agora à distrital indicar a candidata, os independentes o número dois e o líder da AM. Páscoa “não avançará à revelia do PS”, mas avisa que levará o caso a tribunal se os estatutos internos forem desrespeitados. Não rejeita o regresso dos “hostis” de 2013, “mas sem direitos adquiridos”.

[ Artigo publicado no Expresso de 19 de novembro de 2016 ]