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Passos: Costa “não merece governar quatro anos”

MÁRIO CRUZ / Lusa

Líder do PSD acusa Governo de só “navegar à Costa” e não ter ambição. Quem tem estabilidade e só pensa a curto prazo “não merece essa estabilidade” e “não merece governar quatro anos”, concluiu Passos Coelho, reafirmando que não muda de discurso

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Pedro Passos Coelho acusou o Governo, esta quarta-feira, de estar a desperdiçar a estabilidade política e a legislatura, preocupando-se apenas em "gerar simpatia" com vista às próximas eleições. Ora, concluiu o líder do PSD, quem dispõe de uma maioria, de estabilidade e de uma legislatura de quatro anos mas só pensa em "navegar à Costa", "não merece governar quatro anos".

Mais adiante no seu discurso, proferido perante o grupo parlamentar do PSD, Passos reforçou esta ideia puxando pelos galões de ter governado uma legislatura inteira em condições muito difíceis. Num "ciclo de quatro anos", explicou o ex-primeiro-ministro, "o mais difícil faz-se primeiro, para que os frutos surjam no fim, pois é no fim que se julga". No Governo de António Costa, Passos não vê nada de difícil a ser feito, mas apenas "o objetivo primordial de satisfação no curto prazo", sobrevivendo dia a dia, semana a semana, mês a mês, um ano de cada vez. Quem usa assim a estabilidade que tem, sem projetos de "fôlego", disse o líder do PSD, "não merece essa estabilidade".

Passos Coelho encerrou ao início da tarde uma sessão em que o PSD apresentou as três grandes prioridades de reformas estruturais para o futuro do país. As tais políticas com "fôlego" que diz faltar à maioria de esquerda. A partir das propostas feitas no âmbito do Orçamento do Estado, os sociais-democratas falaram do que é preciso fazer na reforma do Estado - descentralização foi a palavra mais ouvida -, na reforma da Segurança Social e no estímulo à economia. Antes de Passos falaram o líder parlamentar, Luís Montenegro, o ex-ministro Miguel Poiares Maduro, o ex-presidente da AICEP Pedro Reis e o ex-diretor do Instituto da Segurança Social Paulo Ferreira.

Na síntese que fez, Passos voltou a apontar a passar em revista este ano de "geringonça", apontando o falhanço da suposta "alternativa" da esquerda, que prometia por o país crescer mais do que crescia no tempo da coligação, o que não se cumpriu.

O "excesso de lata" do primeiro-ministro

Passos Coelho acusou o Governo de ter falhado no seu modelo económico, vendo-se obrigado a rever em baixa as suas metas de crescimento - e, mesmo assim, para as cumprir teve de seguir um caminho "que muda inteiramente o que foi apresentado no OE de 2016". Foi aquilo a que Passos chamou o "plano B", que o Governo "não tem coragem de assumir".

O "plano B", explicou Passos, passou por cortes permanentes de despesa superiores a 430 milhões de euros, "que o Governo recusa explicar com transparência onde foram feitos", mais um conjunto de medidas extraordinárias onde se inclui o perdão fiscal e o não reconhecimento de dívidas a fornecedores, e ainda "um corte em investimento público planeado de que não há memória", superior a 30%.

Foram estes os expedientes, acusa Passos, e mesmo assim o Governo "tem algumas dúvidas" sobre o défice público deste ano – e só por essa razão decidiu adiar para 2017 a recapitalização da Caixa, "que o Governo dizia que era tão urgente". Tudo porque o executivo "tem dúvidas sobre o impacto [da CGD] no défice".

Passos acusou ainda o Governo de António Costa de estar a minar a confiança, o que explica a falta de investimento na economia. "Temos um Governo que é estável mas que confunde estabilidade com confiança, e confiança é o que não existe em Portugal". Até a "muita lata" do primeiro-ministro, diz o líder do PSD, está a prejudicar o país, pois "o excesso de lata diminui a confiança".

O aviso à navegação: o discurso não muda

Foi neste contexto que Passos apresentou o PSD como o único partido capaz de "confrontar a maioria e o Governo com a realidade e fugir à armadilha do crescimento medíocre e da morte lenta". Ou seja, o PSD vai continuar a apontar os erros e riscos das políticas do Governo, a denunciar o reverso dos anúncios oficiais, mas também "olhar para as reformas que esses partidos [de esquerda] não são capazes e não querem fazer".

E se há quem ache que o caminho que Passos propõe é mais do mesmo, Passos responde que foi com esse discurso que o PSD ganhou as eleições. "Dirão: ganharam as eleições mas não governam. Mas por isso mesmo podemos olhar para os portugueses com coerência e dizer: viram que o que dissemos não estava assim tão errado?"

Ficou o aviso à navegação, sobretudo para consumo social-democrata: o discurso do partido é este e não vai mudar.