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Augusto Santos Silva: “Há novas condições para examinar as Lajes”

JOÃO RELVAS/LUSA

Com a entrada em cena da administração Trump nos EUA, o ministro dos Negócios Estrangeiros admite novos rumos na conversa com os americanos sobre a base aérea

O ministro dos Negócios Estrangeiros admite que a mudança de inquilino na Casa Branca pode dar outros rumos ao processo negocial entre Portugal e os EUA sobre a utilização da Base Aérea das Lajes, na ilha Terceira. “Com uma nova administração há novas condições — não estou a dizer que melhores condições do que com uma administração Clinton — para examinar as Lajes e os Açores nos três planos em que temos vindo a considerá-los”, diz ao Expresso Augusto Santos Silva.

Em primeiro lugar, na presença militar dos EUA nas Lajes (e a consciência de que se trata de uma instalação estratégica); em segundo, no aproveitamento das infraestruturas existentes para o reforço da cooperação entre os dois países (nomeadamente no que respeita à segurança marítima); e, por fim, na prossecução do trabalho de sediar nos Açores uma plataforma de investigação científica internacional sobre os oceanos, o clima e o espaço.

Questionado sobre se a administração Trump pode voltar atrás na diminuição do contingente militar estacionado na ilha Terceira, o ministro dos Negócios Estrangeiros diz ter dúvidas: “Essa foi uma decisão muito tomada no interior do Pentágono”, lembra. Mas o futuro das Lajes está longe de decidido: há ainda uma última reunião da comissão bilateral permanente Portugal-EUA com esta Administração (está marcada para dia 30), mas será “uma reunião normal, a nível de altos funcionários”, sem decisões políticas, portanto. “Só com uma nova administração é que haverá passos para uma decisão mais conclusiva”, diz. Já sobre a plataforma científica, o MNE disse ao Expresso que o ministro da Ciência e do Ensino Superior se desloca a Washington no próximo mês de dezembro por forma a — conforme acertado com o secretário norte-americano da Energia, Ernest Moniz — deixar o processo “tecnicamente tão pormenorizado quanto possível” para a próxima administração só ter de o executar.

Expectante em relação às prioridades de política externa do novo Presidente, uma vez que o tom geral da campanha eleitoral (“muito atípica, centrada em aspetos comportamentais e morais e na agenda de política interna”) resultou “muito cético em relação ao multilateralismo e à ação dos EUA na cena internacional”, Santos Silva afirma não ver razões para “alterar uma linha” no relacionamento de Portugal com os Estados Unidos: “Encaramos a nova administração com o mesmo espírito; continuamos a ver os EUA como um parceiro da NATO, um parceiro muito próximo de Portugal”. Confia que Donald Trump “seguirá as orientações gerais” de sempre da política externa do país: muito comprometido com a NATO, com o aprofundamento das relações com a União Europeia e com as Nações Unidas.

Texto originalmente publicado na edição semanal de 12 de novembro de 2016