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Miguel Veiga na última entrevista ao Expresso: “Nunca me silenciaram”

Rui Duarte Silva

Naquela que foi a última entrevista concedida ao Expresso, em novembro de 2014, o fundador do PSD várias vezes ameaçado de expulsão, falecido esta manhã no Porto aos 80 anos, falou com o desprendimento de quem não tinha nada a perder nem a provar. E ninguém escapou. De Cavaco a Passos, passando por Barroso. Uma entrevista de vida mas com muita política pelo meio

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

A casa é na Foz. Um sol quente de outono entra pela casa cheia de livros e de memórias, retratos, quadros. Uma vida. O mar está tão perto que parece poder tocar-se estendendo a mão da cadeira onde Miguel Veiga, nascido em 1936 no Porto, advogado, portuense, conversa comigo. Declaração de interesse: somos amigos e companheiros de Prémio Pessoa. Somos cúmplices.

Logo, não é uma conversa distante. Não sei o que ele é mais, se advogado, se portuense, porque na sua retórica e oratória emocionais, os dois se confundem. Fundador do PSD, foi pelo partido que fundou, e de que foi vice-presidente e membro de comissões políticas e conselhos nacionais, ameaçado de expulsão. Mais que uma vez. Inutilmente, porque "se está nas tintas".

Não tem medo de nada, nem da morte. E não se reconhece neste PSD. Reconhece-se na lealdade aos amigos e no amor à inteligência e às coisas belas. À sua cidade. Ao mar da Foz. Aos livros. Aos quadros e esculturas que cobrem a casa. Aquele céu que lhe entra pelo olhos azuis é o único a que terá direito porque não acredita no outro, o dos crentes. É ateu, pensa pela sua cabeça, não gosta de seitas. Se houvesse céu, gostava de reencontrar os pais, os melhores pais do mundo, que fizeram dele um menino de ouro e um homem que preserva a inocência e a picardia das crianças. Mais uns salpicos da brejeirice portuense, que cultiva. Ao almoço, lombo recheado com ameixa, água, leite-creme sem açúcar queimado para ele. Diz à mulher que não gosta de lombo com ameixas, como se fosse um menino contrariado. A mulher e os amigos riem-se. Faz birra durante dois segundos.

Fuma muito, uns cigarros atrás dos outros, não obedece aos médicos. Não quer viver como pode nem deve, quer viver como quer, o que sempre fez com gosto e generosidade.

Rui Duarte Silva

Quando penso em Miguel Veiga penso em Porto. E nas virtudes tradicionais, os atributos dos homens do Porto. Do Norte.
Estou intimamente ligado ao Porto. Enraizado. Nasci e cresci no Porto e espero morrer no Porto, aqui, junto ao mar da Foz. Para mim, o Porto é sobretudo o mar da Foz. Como portuense, participo das qualidades e defeitos. As qualidades são a fidelidade, a amizade, uma determinada honestidade ligada à fidelidade. O portuense é essencialmente um homem honesto, por vezes rude na sua honestidade. Não é nada sofisticado, é muito direto. Imediatista. Pessoal. O portuense não tem duas caras e o fingimento é avesso à nossa cultura. E tem defeitos, um deles é uma certa falta de cosmopolitismo, um lado provinciano acentuado.

Esse provincianismo é bairrismo, regionalismo, clubismo, ou falta de exposição a uma cultura mais sofisticada? Há algum complexo de inferioridade em relação a Lisboa?
É bairrismo. É clubismo. Nenhum complexo de inferioridade, antes pelo contrário. O portuense é orgulhoso e senhor do seu nariz.

O portuense só tem uma cara, disseste. Achas que em Lisboa as pessoas têm duas caras?
Sim. Aqui as pessoas são mais genuínas e por isso mais rudes. A própria linguagem tão parodiada pelo resto do país é reflexo disso. Diz-se que o portuense não tem mundo, é um provinciano que vive refastelado em si mesmo. Um povo que troca os vês pelos bês.

Existe no Porto um grupo diferenciado, uma certa burguesia esclarecida, sofisticada, viajada, e que até viajava mais para a Europa do que Lisboa. Eu tive colegas em Direito, em Coimbra, quando não havia Direito no Porto, que eram disto exemplares. Falou-se muito nessa burguesia a propósito da eleição de Rui Moreira. O eleito dessa burguesia conservadora...
... Elitista. E cosmopolita, é verdade. Alguns desses teus colegas são meus amigos.

És um representante dessa burguesia, dessas famílias com nomes que conhecemos. Famílias que não estão associadas a escândalos.
Não. O escândalo não faz parte da nossa maneira de ser e proceder. O portuense não é cauto na linguagem mas é cauto e casto na forma de viver e conviver. A elite de Lisboa não tem nada a ver com a do Porto. Gosto muito de Lisboa e muitos dos meus grandes amigos são lisboetas, mas há uma grande diferença entre a nata portuense e a lisboeta. A grande diferença é a fidelidade, entendendo-a eu como uma inteireza de princípios. O portuense identifica-se com a sua cidade e faz a cidade. Não há dispersões, derivas. Diz-se que o portuense é mais limitado, e nalguns aspetos será, admito, mas o seu carácter é muito mais vincado do que o do lisboeta.

Tenho sempre a sensação de que as pessoas do Porto se queixam menos. Se lamentam menos. Em Lisboa há uma lamentação permanente sobre o estado do mundo. O fatalismo. Coisa de "mouros".
No Porto, é uma questão de pudor. O portuense tem arreigado em si o pudor de sentimentos que são muito fortes. O pudor é um modo de eles se robustecerem porque o portuense é um sentimental. Agarrado à sua cidade, aos vizinhos, às tradições. E não tem pejo que o considerem um provinciano. E ai de quem lhe pise os calos, porque reage mal e malcriadamente.

Tens origens não portuguesas.
A minha família é um caso curioso, porque o meu bisavô materno era russo. Cossaco. E fazia a navette Moscovo-Paris, para vender peles. E conheceu a minha bisavó, que era francesa. E quando o pai dela, o meu trisavô, os surpreendeu, disse ao cossaco: ou casas e fazes-te francês ou andor. Ele casou e ficaram a viver em Paris sob a alçada do meu trisavô francês. Que era Kahn.

Era judeu.
A grande família judia, os Kahn. Em Portugal, tinham a versão Cohen.

Ainda és parente do Strauss-Kahn... O judaísmo transmite-se por via materna. Consegues retraçar o resto da família durante e depois da Segunda Guerra Mundial?
Nunca foram religiosos, de modo que isso da transmissão perdeu-se. A maior parte morreu nos campos de concentração. Auschwitz e um outro, mais pequeno. Essa parte da família foi quase toda morta. A minha mãe ainda mantinha uns contactos com uns vagos primos. Eu não. Devo ser primo do Strauss-Kahn e tenho como ele alguns apetites, mas os meus são saciáveis e os dele não.

E como é que a tua mãe veio parar a Portugal? Não era refugiada.
Não, veio antes da guerra. O meu pai é que foi lá. Os pais da minha mãe eram pessoas ricas e tinham uma casa de praia em Juan-les-Pins. O meu pai era um jovem flibusteiro portuense, com um carro descapotável, que ia sempre passar férias a França. Encontrou a minha mãe e passados dois ou três anos casou com ela. O meu pai era advogado. Um grande advogado.

Sentes-te o herdeiro dessa tradição? Ou o Porto é dominante?
Vagamente. O Porto absorveu tudo. E a minha mãe ainda gostava mais de Portugal do que o meu pai. Muitas vezes surpreendi a minha mãe a falar português com o meu pai e ele respondia em francês. O meu pai tinha uma adoração pela cultura francesa e por Paris.

Herdaste dele esse amor pelas belas coisas?
Do meu pai e da minha mãe. Eles eram dois seres diferentes, autónomos, que se davam muitíssimo bem. E que me educaram em toda a liberdade.

O que não era comum num país salazarista, fechado, antiliberal.
Não era. Nunca pus essas medalhas ao pescoço, mas fui vítima desse salazarismo porque deixei de ser professor universitário por causa de uma informação da PIDE. Acabei o curso com uma boa nota e inscrevi-me para ser assistente e dar aulas. A que tinha direito. E barraram-me o caminho. Ainda tenho a informação da PIDE: "O indivíduo supracitado tem bom comportamento moral mas não oferece as mínimas condições para assegurar...", etc. E vinha uma daquelas frases pomposas de que já não me lembro bem.

Eu era da oposição. Comecei a entrar em comícios da oposição com 18 anos e participei em movimentos de oposição, não comunistas. O meu pai era um homem da oposição e foi candidato várias vezes. Davam-me total liberdade, tal como no aspeto religioso.

O Porto nunca foi ferozmente salazarista. Nem Coimbra, apesar de Salazar ter estudado lá. Havia uma tradição republicana forte.
Não. Nem Porto nem Coimbra. A base de apoio do regime era Lisboa. bastava ver os raros comícios da oposição, quando a situação os permitia. Tinham milhares e milhares de pessoas.

Rui Duarte Silva

O facto de pertenceres a uma das boas famílias do Porto livrou-te de seres mais incomodado pela PIDE?
Talvez. Que me castigaram de outra maneira, castigaram. Cortaram-me as vazas. E depois de me formar, tudo o que eram eventuais clientes ligados às coisas públicas desapareceram.

És muito advogado, até no modo como articulas as frases e formulas um pensamento. Foste para o escritório do teu pai?
Fui e estagiei com ele. Gostei muito de ser advogado. Foi a minha vida durante 50 anos. E gosto muito de literatura, um amor que vem do meu pai e do meu tio, o Petrus, que tinha uma grande biblioteca, de que fui herdeiro. Sou filho único, sobrinho único e neto único.

O que dá muito tempo para ler.
Pois dá. Lia bastante. Lia ficção. Política pouco. Quando comecei a advogar passava a vida a fazer citações literárias. Por escrito. E os juízes gostavam daquilo.

Defendias oposicionistas? Como fez o Mário Soares?
Cheguei a defender alguns, com o meu pai.

É uma grande vantagem nascer numa família decente, séria, educada, feliz e próspera. Dá solidez.
Se é. Eu vivia aqui na Foz, que era uma terra de meninos-bem que não faziam nada. Não estudavam, nada. Quando cheguei aos 13 anos, o meu pai e a minha mãe resolveram que isto não era vida para mim e meteram-me num colégio inglês. Fui interno durante um ano em Inglaterra, Bournemouth, para aprender as regras da civilidade e que o mundo não era a Foz do Douro. Passei bem porque não se estudava puto. Tinha uns franceses com quem me dava e que também recusavam falar inglês. Repartia o meu quarto com dois persas, que tinham fugido ao Mossadegh. A Inglaterra estava cheia de persas.

Esses eram dois grandes malandrões e como eu recebia mantimentos, estávamos ainda num período de restrições do pós-guerra, trocava coisas. Um belo dia recebo umas compotas bestiais levadas por uma prima inglesa do lado Kahn, casada com um lorde inglês e riquíssima.

Enchia-me o colégio de víveres. Eu trocava aquilo por serviços, faziam-me a cama e eu subornava com marmalade. Um desses figurões persas, um dia diz-me se quero conhecer umas meninas. Havia um colégio feminino em frente.

Eu tinha 13 anos. Agendaram e levaram-me lá, aquilo era uma grande propriedade. Aparecem-me duas inglesas cheias de caracóis azuis e os gajos deixam-me com elas. Eram meninas com a maior das desenvolturas e tiraram-me a virgindade. As duas.

És completamente francófono e nada anglófono. Estante cheia de franceses. Será trauma?
Pois sou. Francófono. Então na literatura...

Onde estavas no 25 de Abril?
A advogar no Porto. E na oposição. Não conhecia o Mário Soares, dava-me muito com o grupo do António Macedo, os oposicionistas socialistas. Eu representava sempre nos comícios a juventude oposicionista, éramos dois. Eu e aquele deputado que morreu, o José Luís Nunes.

Quiseram levar-me para o Partido Socialista, mas não fui, por causa da maçonaria. Queriam que fosse maçon e eu não queria e acabei num limbo. Até que rebenta a revolução. No princípio, não acreditei. Telefonei ao meu pai, julgando que fosse um golpe da direita. Li o primeiro comunicado e cheirou-me mal. Disse ao meu pai, estamos tramados, o regime vai endurecer.

Como é que escapaste do serviço militar?
Fui dispensado. O meu pai queria que eu fizesse serviço militar. Um cliente dele assistiu a uma dessas conversas e disse "eu trato do menino". E tratou. Fui dispensado por ter "os pés chatos". Coisa que nunca tive.

E no dia da revolução?
Tive um julgamento em Gaia e meti-me no carro. Já tinha feito uns telefonemas para me certificar que não era uma coisa da direita. Não encontrei nenhum automóvel. Cheguei ao tribunal e ninguém. Fui para o gabinete do juiz e disse-lhe que tinha havido um golpe e não havia julgamento, nem funcionários. O juiz diz-me que tinha visto muitos militares. Disse ao juiz, isto é mesmo um golpe para deitar abaixo o regime. E o juiz olhou para mim, encostado à janela, e respondeu, lá será! Com a prudência de juiz.

Rui Duarte Silva

Já conhecias o Francisco Sá Carneiro.
Conhecia. Ele era de um grupo diferente do meu. Na adolescência, ele pertencia ao grupo da Granja e eu pertencia ao grupo da Foz. Encontrávamo-nos numas festas familiares. Desde muito novos.

Havia uma destrinça entre católicos e não católicos? Ele era um católico.
Mais do que católico, era dos retiros de casais. Foi o único católico que conheci que, através do catolicismo, chegou à democracia. Disse-lhe isso muitas vezes. Eu cheguei à República através da minha formação laica e republicana e tu através da formação católica. Éramos adversários nos tribunais. Não me dava muito bem com ele porque era absolutamente intransigente. Havia entre nós um estado de crispação. Comecei a apreciá-lo através das intervenções que teve na Assembleia Nacional.

Quando é que te juntas a ele politicamente para fundar o PPD?
Passei a ter admiração por ele por causa de uma série de artigos e intervenções na Ordem dos Advogados sobre a liberdade e a abolição da censura. Mas nada nos unia politicamente. Eu era da oposição.

Dirias que ele era mais à direita do que tu? De certeza mais conservador.
É difícil fazer essas classificações, mas, originariamente, era. Bastava-lhe essa tintura católica. Depois de ter recusado entrar no PS fiquei em terra de ninguém. Um belo dia, o Artur Santos Silva telefonou-me a convidar para jantar com o Francisco Sá Carneiro, na Foz. No ténis da Foz. Ele diz-me que o Francisco está com ideia de formar um partido. Eu digo logo que num partido católico não entro. Fui. Estávamos só os três. E aí começou. A grande aventura.

Que partido é que vocês queriam? Quem é que teve a ideia de meter a palavra Popular, Partido Popular Democrático, no nome? Tudo era popular, na altura.
Foi o escritor, o Ruben A. (Andresen Leitão). Nós queríamos Partido Social Democrata, mas já havia um partido inscrito com esse nome, aliás por um gajo pouco recomendável. Estava uma trapalhada e o Ruben A. disse, Partido Popular, já está.

E como é que se avança do ténis da Foz para um dos maiores partidos portugueses?
O Francisco Sá Carneiro ia-me dando notícia dos contactos que tinha, com o Artur Santos Silva. Tinham Coimbra, que era muito importante, com o Barbosa de Melo, o Mota Pinto e o Figueiredo Dias. Tinham aderido. A certa altura, houve um projeto de estatutos mandado pelo Sá Carneiro, encomendado não sei a quem, e quando o Barbosa de Melo lê aquilo diz, Francisco, eu com isto não alinho. Não é um projeto social-democrata, isto é um partido liberal. Nem eu nem os de Coimbra alinham. E o Francisco diz-lhe, não concorda? Então faça você. E ele fez o esboço, as bases programáticas que depois foram discutidas na célebre reunião da Curia, onde estive presente com mais dez ou onze, os fundadores do PPD.

Imaginavam que o partido se tornasse tão grande e tão importante na democracia?
Não! Entretanto, foi crescendo. Era um partido que correspondia aos anseios da classe média portuguesa. E quando digo classe média meto dentro as classes trabalhadoras em ascendência.

Qual era para vocês o grande adversário? O PCP era importante. O PS?
O PS era o grande bloqueio e uma aliança com que nunca concordámos porque era um partido marxista.

Os partidos foram evoluindo, adaptando para sobreviver. Na fase da AD (Aliança Democrática), o PPD dá uma guinada para a direita, da social-democracia para o liberalismo, enquanto o PS vai ficando social-democrata. Quando aparece o general Soares Carneiro como candidato a Belém, há fissuras no PPD.
Sim. E isso não estava na matriz do PPD. Claro que havia fissuras. Brechas abertas.

A que atribuis a guinada para a direita? Anticomunismo ou combate ao Partido Socialista? Nessa fase, os dois partidos ficam inimigos, havia manifestações da AD em frente ao Largo do Rato, com insultos e pancada, ódios. No Norte, era ainda pior. Soares era o Anti-Cristo. E o PS enxovalha Sá Carneiro por causa de Snu Abecassis. Os dois partidos pareciam ter enlouquecido. Disputa pelo poder?
Isso tudo. E não te esqueças que o PS se intitulava partido marxista. Conheço o Mário Soares nessa altura. Logo depois da AD. Foi amor à primeira vista.

Muito diferente da rigidez de Francisco Sá Carneiro. Foi o princípio de uma bela amizade.
Indestrutível amizade. Sempre apoiei as candidaturas presidenciais do Mário Soares. Sou um amigo e admirador indefetível. É o grande político do século XX. Um internacionalista.

Apesar de não teres sido maçon, és essencialmente um livre pensador. Ou um pensador livre. E ele também. Não pertencem a clubes que vos aceitem como membros.
Eu acho que ele deve ter sido maçon uns três meses. Não se deu bem. Nunca mais lá voltou. Era o que dizia o Marx, o outro Marx. O Groucho.

Porque é que não fizeste uma carreira política? Podias ter sido ministro. Não era uma coisa que se recusasse com facilidade. E aposto que não aguentavas mudar para Lisboa.
Fui várias vezes convidado. Não era uma coisa que se aceitasse com facilidade. Eu queria ficar livre na minha profissão e sabia que se aceitasse um cargo desses o meu escritório ia ao ar. E não querer mudar para Lisboa tinha o seu peso. Estive na Constituinte, pouco tempo. Saí quando ocorreu a morte do meu pai e tive de voltar ao Porto para tomar conta do escritório.

Ficaste a ser uma espécie de Grilo Falante do Pinóquio. A consciência moral do PSD. Estiveste para ser expulso mais que uma vez, a última há pouco tempo. Foi por um triz.
Nunca me silenciaram.

Rui Duarte Silva

Hoje o partido é lisboeta, é outro partido. Como é que isso acontece?
​Lisboa é um sugadouro, a capital. A proximidade do poder. O poder atrai.

Achas que o Sá Carneiro, que morre sabendo que vai perder, já tinha também essa ideia de que o poder é tudo, com poder tudo se pode? Por outro lado, o caso com a Snu tinha feito dele um herói romântico, um cavaleiro corajoso. O que a Natália Correia celebrou.
Ele ia embora se perdesse. Ia embora para voltar. E voltava para pôr a casa em ordem e impor as suas condições. Foi por causa disso que alugou aquela casa perto da praia, nos arredores de Lisboa. Onde se iria recolher. Tinha uma grande implantação no partido.

A morte dele provoca um sentimento de orfandade. E o papel de Francisco Balsemão, teu grande amigo, foi difícil. Calçar sapatos de defunto.
Puxa! Foi muito difícil e foi um ato de coragem do Francisco, porque havia muita gente no partido, gente conhecida, que se reuniu e não queria o Francisco Balsemão lá. E fez tudo para o tirar de lá.

A tua participação na vida partidária era intensa ou ficavas de observador?
Participei muito. Fiz muitos comícios e sessões de esclarecimento para o partido. Fiz sessões de esclarecimento até ao fim da vida. Mais que isso não.

O que é este PSD, o de Passos Coelho? Não é o teu.
Não! Não é o PSD, mas talvez possa voltar a ser o que foi, se mudarem os órgãos dirigentes. É difícil, porque os que lá estão agarram-se com unhas e dentes. Fizeram daquilo a sua vida. Ou melhor, a sua vidinha. É um mundo que me é completamente estranho e, pior do que isso, e não me quero enfeitar, que me repugna.

Entristece-te ver o partido refém de interesses que rejeitas e sem inteligência programática?
Entristece-me e revolta-me. Revolta-me. Andámos nós a dar o coiro ao manifesto para chegarmos a este estado de coisas.

Donde vem esta nova geração? Há quem diga que é um partido de retornados nos lugares dirigentes. Gente que quando chegou de África se sentiu rejeitada por Portugal, estrangeira. Há quem diga que são apparatchiks que nunca passariam de ínfimos atores no velho PSD. O que opinas?
É verdade tudo isso. É a gestão e aproveitamento dos interesses.

Se Sá Carneiro não tivesse morrido o partido teria tido outro rumo?
Tinha. Indiscutivelmente. O Barroso já é um produto híbrido. E no mau sentido da palavra. É o que os franceses chamam "un profiteur". Um aproveitador.

E a figura de Cavaco? Às vezes penso o que teria sido um encontro dele com Sá Carneiro. Uma coisa cómica. O cavaquismo tornou-se o PSD e o país tornou-se o cavaquismo.
Cómica ou trágica. Tens toda a razão. Por incrível que pareça, o PSD tornou-se o cavaquismo. E de que maneira. Cavaco é um elemento espúrio.

Nostalgia do homem providencial, que tão maus resultados deu? Cavaco sempre se colocou acima dos partidos e da política, como se não fosse isso mesmo. Afastaste-te do PSD de Cavaco, o que não era fácil.
Ele bem se soube aproveitar disso. Era omnisciente e omnipresente. Não foi nada fácil.Aquilo alastrou e ainda é um poder real dentro de Portugal. Na minha vida profissional, nunca tive uma ação nem um cliente que me fosse enviado pelo partido ou pela influência do partido. Nunca! Nunca! A tua independência

A tua independência financeira salvou-te.
Verdade. Mas a minha independência financeira resultou do exercício aturado da minha profissão. Por isso nunca aceitei cargos ministeriais nem quis ficar em Lisboa. Com o dono fora, o escritório fechava as portas. A minha liberdade passava por ali.

Achas que Portugal é hoje um país menos livre porque o poder económico, a pobreza, a austeridade o desemprego fazem as pessoas terem medo de dizer o que pensam?
Nesse sentido, sim, é verdade. Mas nós tivemos sempre muito medo.

A última ameaça de expulsão, por causa de teres apoiado Rui Moreira, afetou-te? Ainda estás filiado no PSD.
Já me estava nas tintas. Nada tenho a ver com aquela gente. Sou filiado porque o processo de expulsão não prosseguiu.

Fundaste o PPD. Não me digas que ser expulso de algo que se fundou não traz violência emocional. Amargura?
Claro que traz, mas esta gente que domina o PPD é tão baixa que não me afeta. É gente sem história, sem princípios. Tudo é possível. Se me expulsassem não me faziam mossa. Amargura não, desilusão sim.

Como é que vês hoje a situação de Portugal?
É um país em liquidação. Falta força anímica, energia. Falta de esperança, que é um conceito vago mas é o que resta, que não temos mais nada. Nunca me passou pela cabeça que a degenerescência do PSD fosse tão grande e tão radical. Abrupta. E o PS também não está grande coisa. Em 2015, as eleições vão ser ganhas pelo Partido Socialista com maioria relativa. Não sei como se vão entender.

Apoiaste Rui Rio, e depois Rui Moreira, que Rio discretamente apoiou. A derrota de Meneses trouxe uma esperança. Rui Moreira não tinha, no princípio, nenhuma hipótese, lembras-te? Estavas na conspiração. E venceu.
Se Rui Rio regressar à presidência do partido, o acordo entre ele e o António Costa está feito.

Costa já lá está. Mas Rui Rio não, e continua a dizer que não. E aparece agora como candidato presidencial, empurrado de fora. Não é a mesma coisa. És adepto das primárias no PSD, para tirar de lá o líder, como se fez no PS?
Sou. Mas eles não fazem. Não correm riscos.

És muito português e ver assim Portugal custa-te. Mas tens amigos que não têm a tua opinião do PSD e apoiam Passos.
Custa-me. E de que maneira. É preciso gostar muito deste país. Mas eu gosto. Sou um sentimental. A amizade coloco-a acima da política. No caso do Vasco (Graça Moura) passávamos por cima dessas coisas.

O que é essencial para ti, hoje?
A amizade, de que sou um cultor. As relações afetivas são as que me importam. E como já não tenho muitos anos à minha frente, a amizade é essencial. Os rituais da amizade.

Tens medo da morte?
Nada. Não acredito no post mortem. A extinção não me atormenta. Só gostaria de acreditar nalguma coisa que após a morte me fizesse reencontrar os meus pais.

Eles estariam no céu à tua espera e iriam todos viajar para Paris. O conto de fadas.
Tiraste-me as palavras da boca. Bem-aventurados os que acreditam. Penso nos meus pais todos os dias porque tive os melhores pais do mundo. Adorava-os. A infância foi uma idade de ouro. Fui o mais feliz que uma criança pode ser. E essa criança continua dentro de mim.