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Política

Trump deixa geringonça entre o politicamente correto e o anúncio do diabo

Governo felicita Trump e recorda as "tradicionais boas relações" de Portugal com os Estados Unidos, mas alerta para a necessidade de o novo presidente manter posições de "moderação, equilíbrio e influência na cena internacional". Alguns deputados do PS lamentam o resultado e os parceiros de 'geringonça' receiam o impacto das presidenciais norte-americanas. Foi a "vitória do ódio", acusa o Bloco

Felicitações protocolares, prudência sobre o futuro e repúdio absoluto. É entre estas posições que oscilam as reações à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas, por parte dos Governo português e dos partidos que o apoiam no Parlamento. A posição mais contundente veio da parte do Bloco de Esquerda, que, num comunicado, classificou o resultado eleitoral desta madrugada como "uma péssima notícia para os Estados Unidos e para o Mundo" e uma "vitória da política do ódio". O PCP diz que Trump "poderá aprofundar ainda mais a política externa reaccionária e agressiva" e há deputados socialistas que falam em "pesadelo".

As reações oficiais do Governo surgiram pela voz do Primeiro Ministro, António Costa, e do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. "O povo americano fez a escolha democrática que entendeu dever fazer, o Governo português felicitou já o senhor Trump pela sua eleição, nós desejamos e tudo faremos para mantermos as excelentes relações que temos tido com os Estados Unidos", disse António Costa, que recordou o "hábito" português de "respeitar as decisões democráticas dos diferentes povos com quem tem relações diplomáticas" para recusar fazer leituras políticas sobre a vitória de Trump e a derrota de Hillary Clinton. "Se tivesse de votar nos Estados Unidos, teria tido a necessidade de responder a essa questão, mas, assim posso concentrar-me na boa notícia de que o desemprego baixou em Portugal", disse Costa.

Também Augusto Santos Silva invocou, em declarações à TSF, as "relações históricas" de Portugal com os Estados Unidos e sublinhou o "muito trabalho" que há a fazer entre os dois países "do ponto de vista do estímulo das relações económicas, comerciais e de investimento". Mas deixou alguns alertas. Nomeadamente a eventual necessidade de "pedagogia" sobre a "importância do multiculturalismo" e o apelo a que os norte-americanos "mantenham a sua posição de moderação, equilíbrio e influência na cena internacional, designadamente no quadro multilateral, com particular atenção às Nações Unidas e à Aliança Atlântica”.

"Precisamos de uns Estados Unidos ativos na cena multilateral e no quadro da regulação, da resolução pacífica dos conflitos, na regulação dos mercados de capitais, na regulação da globalização, no estreitamento das relações com a Europa", defendeu o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Mas se o Governo se mantém na expectativa sobre o que os Estados Unidos farão sob a liderança de Donald Trump, já os partidos à esquerda do PS - que apoiam a atual solução de Governo - não escondem a sua apreensão em relação ao futuro. "A eleição de Donald Trump como Presidente dos EUA poderá aprofundar ainda mais a política externa reaccionária e agressiva dos EUA levada a cabo por sucessivas administrações norte-americanas, e da qual a candidata derrotada foi destacada protagonista", diz o PCP numa nota enviada às redações.

Também em comunicado, o Bloco de Esquerda foi mais longe: a comissão política dos bloquistas classifica o resultado eleitoral nos Estados Unidos como "a vitória do ódio"e diz que "a eleição de Trump é um perigo global". Pelo "ódio à igualdade de direitos, à imigração e ao primado dos direitos humanos", mas também "pela sua declaração de guerra contra o planeta, feita logo na campanha eleitoral". "Os EUA, a segunda maior economia do mundo, têm agora um presidente que nega a existência de alterações climáticas e quer cancelar o acordo de Paris", exemplificam os bloquistas.

O Bloco de Esquerda defende ainda que a vitória de Trump representa "o caso mais impressionante no ciclo de desintegração dos sistemas políticos depois da crise financeira" e argumenta que é "a permanência do domínio da finança globalizada e o agravamento das desigualdades nos Estados Unidos e na Europa" que "produz convulsões sociais e terramotos políticos como este".

"O fim da globalização feliz"?

Num texto de opinião publicado no site Esquerda.net - com o título "Quem semeia ventos, colhe Trumps!" - o líder parlamentar do BE pormenoriza que "os povos estão descontentes com a globalização, com o dumping dos direitos laborais e rendimentos, com o desemprego brutal, com dirigentes políticos corruptos e aldrabões, com economias que continuam a servir a especulação à custa do empobrecimento generalizado" e que é aqui que "reside a vantagem e o logro de Trump".

Porque, defende, Pedro Filipe Soares, Trump é "um candidato que se apresenta como sendo contra o 'sistema'" e que "bateu o 'sistema'", com "um discurso de outsider" que "conseguiu juntar os vários descontentamentos e aproveitar o descrédito generalizado da elite política, com a cereja no topo do bolo de ter como grande adversária direta a personificação do establishment, do tal 'sistema'". "As vantagens estão identificadas, o enorme logro está na definição do tal 'sistema'", diz o líder parlamentar do BE.

Na mesma linha, o deputado do PS Porfírio Silva, num texto publicado no blogue "Machina Speculatrix", cita Francisco Louçã para defender que "quaisquer que fossem os resultados das eleições" norte-americanas, elas ditariam sempre "o fim da globalização feliz". Porque, diz, "esta luta política, como outras que se andam a travar, é o preço da abordagem à globalização dirigida pelos “de cima” contra “os de baixo”" e porque "não é o fim da globalização, apenas o fim da ideia de que a globalização é naturalmente boa e boa para todos".

O deputado do PS defende, aliás, que os partidos sociais democratas tiveram "responsabilidade neste processo", nomeadamente por terem sido "demasiado ingénuos face à liberalização dos movimentos de capitais, que serviu também para enfraquecer a política face aos novos poderes fácticos do dinheiro".

"Talvez Trump venha a ser menos mau do que ele próprio prometeu", admite Porfírio Silva. "Mas isso serão acidentes da política quotidiana. O essencial é que a sua vitória, com o discurso que fez, mostrou que andamos demasiado distraídos. E que tardamos em perceber que cavámos, não só a direita mas também a esquerda, um insuportável fosso entre as pessoas concretas e as instituições democráticas", sustenta.

Outros deputados socialistas assumiram nas redes sociais o "pesadelo" que significa a vitória de Trump, como foi o caso de Edite Estrela. E para Isabel Moreira foi uma "agonia" ver que "Marine Le Pen foi das primeiras pessoas a reagir e a dar os parabéns a Trump". "Para onde fugir. Que mundo é/ vai ser este?" questiona a deputada.

Já o ex-ministro da Cultura e atual deputado do PS João Soares cita Churchill para recordar que "a democracia é o pior dos sistemas, com excepção de todos os outros". "A eleição de Trump não é o fim do mundo. Nem, como já vi por aí escrito, o quase triunfo do fascismo. A fasquia para o homem, Donald Trump, está tão baixa que ele só poderá surpreender pela positiva", defende Soares. "Tivessemos nós solidificado, de forma clara e digna, os valores que deram vida à Europa e as coisas seriam diferentes. Os riscos, que os há e grandes, da eleição do homem, Donald Trump, seriam bem menores. Mas, onde há vida, há risco. A luta continua!", conclui o deputado do PS.

Passos pede afastamento do tom de campanha

Nos partidos à direita, o líder do PSD, assumiu a esperança que Donald Trumo se distancie "daquilo que foi o tom da campanha eleitoral", defendendo que se isso acontecer "talvez as coisas não corram tão mal quanto se espera".

Passos Coelho assumiu ainda o grau de "incerteza" que agora irá envolver o futuro dos Estados Unidos e a sua relação com os parceiros internacionais e deixou o apelo para que não exista um "fechamento da economia" norte-americana.

"Sabemos que foi eleito democraticamente, sabemos que anunciou um programa que é um programa de maior fechamento da economia americana, de maior protecionismo, de certa maneira de maior fechamento da própria sociedade também,. E isso não é uma coisa que nos agrade. Não é um resultado entusiasmante, mas espero que a prática se distancie disso", defendeu.

No mesmo tom expectante, a líder do CDS, Assunção Cristas remeteu para futro próximo a avaliação ao que poderá ser o mandato de Trump como presidente dos Estados Unidos. "O que muda teremos oportunidade de ver na ação do novo Presidente. Penso que hoje é o dia de respeitar a decisão que foi tomada pelo povo americano, em liberdade e em democracia, e saudar os resultados. Em democracia, os resultados têm sempre de ser respeitados", disse.