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O que diziam os emails da Educação

João Wengorovius Menezes, ex-secretário de Estado da Juventude e Desportos, 
que se demitiu em abril

Luis Barra

Ex-secretário de Estado combinou com Tiago Brandão Rodrigues saída do seu chefe de gabinete. Ministro da Educação não travou

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Sic

Subdiretor da SIC

Foi a 5 de abril de 2016, às 2h01, que João Wengorovius Meneses, então secretário de Estado da Juventude e Desportos, recebeu o último email do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues. Wengorovius considerou este email uma “interferência” na gestão da sua equipa e da exoneração (que pretendia) do seu chefe de gabinete, Nuno Félix.

“João, (...) Tinhas-me dito que o Nuno Félix tinha ido de férias durante uns dias, ficando uma das tuas adjuntas a substituí-lo. Esses dias de férias foram autorizados? (...) Queria também transmitir-te que a cônjuge de Nuno Félix se encontra internada, no Hospital de Santa Maria, com uma situação clínica complexa e preocupante. Neste sentido, é meu entender que o Nuno Félix tem de ter da tua parte – e de todos os membros do teu gabinete – toda a ajuda, apoio, consideração e flexibilidade para que este momento difícil possa ser amenizado. Tiago”, lê-se na mensagem a que o Expresso teve acesso.

Na troca de correspondência, Wengorovius tinha feito várias queixas ao ministro. “É muito complicado ter um chefe de gabinete demissionário de baixa com todo o trabalho e responsabilidade que temos em mãos. Ainda por cima, ontem o Nuno Félix foi ao gabinete meia hora (e nessa circunstância) fez dois ou três despachos. Não faz qualquer sentido. Tive de lhe transmitir isso. Esperarei estes quinze dias, mas não será sustentável esperar mais tempo, sob pena de a SEJD sair gravemente prejudicada. Esperemos que a situação familiar não se prolongue, caso contrário teremos de encontrar outra solução. Relativamente às nomeações, fico então a aguardar... ”, lê-se.

João Wengorovius não chegou a aguardar 15 dias. Segundo revelou ao Expresso/SIC, ainda conversou uma vez com Tiago Brandão Rodrigues sobre o assunto, mas este não mudou de opinião, insistindo que era preciso dar um tempo a Nuno Félix. Confrontado pelo Expresso, o ministro Tiago Brandão Rodrigues não fez comentários, limitando-se a afirmar que “todos os esclarecimentos sobre esta matéria já foram prestados”.

Más relações

A verdade, porém, é que as relações entre ministro e secretário de Estado já estavam muito deterioradas. Só no dia 10, um domingo, este conseguiu encontrar-se com o ministro, na casa deste. Da agenda, constavam vários assuntos de trabalho mas não Nuno Félix, o chefe de gabinete de João Wengorovius que se manteve em funções com o novo secretário de Estado do Desporto e que demitiu há duas semanas depois de ter sido denunciado publicamente que não tinha concluído nenhuma das duas licenciaturas que constavam do seu currículo oficial, uma Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e outra em Direito na Universidade Autónoma de Lisboa.

Foi por causa desta polémica, desencadeada com a notícia do “Observador” sobre as falsas licenciaturas, que voltou à baila a demissão do ex-secretário de Estado do Desporto em abril, que ficou sempre por esclarecer.

Foi nessa reunião com Tiago Brandão Rodrigues que João Wengorovius percebeu que não valia a pena manter-se no lugar, afirmou. Dois dias depois combinou a sua demissão, para ser anunciada no dia 13 de abril, mas foi surpreendido por uma notícia da televisão, à meia-noite, dando conta do facto.

A essa hora, só lhe restava reagir através da sua página de Facebook, onde entre outras coisas confirma a demissão em razão do “profundo desacordo com o sr. ministro da Educação no que diz respeito à política para a juventude e o desporto, e ao modo de estar no exercício de cargos públicos”.

Elo de separação

Com Wengorovius saiu toda a sua equipa, exceto Nuno Félix, que se manteve como chefe de gabinete do seu sucessor, até se demitir, na semana passada. Foi nessa altura que vieram a público notícias de que o ministro estaria a par da falsificação do currículo de Nuno Félix. João Wengorovius não sabe se o ministro sabia e diz isso mesmo. Ele próprio, diz, só tomou conhecimento do facto na véspera de apresentar a sua própria demissão, e que isso foi irrelevante para a sua decisão.

O ex-secretário de Estado não esconde que não apreciava Félix, que considerava que “não tinha a preparação para a função”, razão pela qual o colocou em situações embaraçosas por diversas vezes, e que além de mais “não havia uma lealdade à prova de bala”. É essa a razão por que acaba por combinar com o próprio a exoneração, no princípio de março. Que só não se concretizou de imediato porque, entretanto, Nuno Félix marcou uma semana de férias, depois não apareceu durante outra semana e, finalmente, pôs baixa (que é referida nos emails). Ao todo, um mês – um quarto do tempo em que o governante ocupou a pasta.

Diz Wengorovius que o ministro estava a par da intenção de exoneração e que inclusivamente foi comunicado a todos o nome da nova chefe de gabinete que substituiria Nuno Félix. Tiago Brandão Rodrigues não o impediu de o fazer, pedindo-lhe apenas para esperar, “porque entendeu que não seria o momento oportuno para sair”, de acordo com a interpretação de Wengorovius.

Nomeações dependentes do PS

Nuno Félix, militante da JS, era, em boa verdade, bem mais próximo do ministro do que do ex-secretário de Estado. Foi Brandão Rodrigues quem lho recomendou, a pretexto de ter “um elo de ligação entre ambos que conhecesse bem, um elemento facilitador que conhecia bem” entre dois homens que só se conheceram praticamente no dia da tomada de posse. E que, pelos vistos, entendiam a governação de maneira diferente.

Segundo Wengorovius, Félix passava mais tempo no gabinete do ministro (a quem ajudaria na área da comunicação) do que no dele. O convite a Wengorovius para o Governo tinha partido do próprio António Costa, de quem é amigo e com quem tinha trabalhado na Câmara de Lisboa durante três anos.

Para Wengorovius, o ministro estava preocupado em ter o PS consigo e várias vezes lhe comunicou que no se referia a nomeações tinha que consultar o partido.

“Isto é compreensível para um ministro independente e que não tem rede de contactos pessoais nem partidários e que ocupa uma pasta central para a esquerda”, afirmou o ex-secretário de Estado ao Expresso. “Ele é um ministro tampão”. As não-licenciaturas de um ex-chefe de gabinete de um ex-secretário de Estado foram uma feia nota de pé de página.

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