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Ana Avoila: “Esta é a primeira luta que fazemos contra o OE”

josé Caria

A Frente Comum ainda mantém o Governo de António Costa em (algum) estado de graça e confia nas potencialidades da aliança parlamentar de esquerda para alterar o próximo Orçamento do Estado a favor dos funcionários públicos. Entrevista a Ana Avoila, coordenadora da Frente Comum

Rosa Pedroso Lima

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Jornalista

José Caria

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Para as contas de Ana Avoila, a histórica dirigente sindical dos trabalhadores da Administração Pública (AP), o protesto marcado para o próximo dia 18 não é uma greve. Na verdade, os pré-avisos anunciados visam apenas permitir “a deslocação dos trabalhadores” para uma manifestação nacional, a realizar em Lisboa. A diferença é semântica, porque milhares de trabalhadores do Estado vão, de facto, faltar ao serviço. Mas tem um inegável significado político.

A Frente Comum ainda mantém o Governo de António Costa em (algum) estado de graça e confia nas potencialidades da aliança parlamentar de esquerda para alterar o próximo Orçamento do Estado (OE) a favor dos funcionários públicos. “Até ao lavar dos cestos é vindima”, diz Ana Avoila, que acredita em mudanças de última hora no OE. Senão, como “a paciência tem limites”, a luta vai mesmo continuar.

A greve de dia 18 é um aviso para o Governo da parte da AP?
Não é correto dizer que há uma greve no dia 18, há uma manifestação. O pré-aviso é só para permitir a deslocação dos trabalhadores a nível nacional.

É um aviso ou uma ameaça?
É uma forma de demonstrar que o Governo tem de alterar o OE no que diz respeito à Administração Pública. Que tem condições para o fazer e que vai fazê-lo. Nós não aceitamos que continue a mesma linha do congelamento de salários e de carreiras nem que o trabalho extraordinário seja pago a metade do que é pago no sector privado. Não faz sentido que, desde 2005, não haja qualquer progressão de carreiras na Administração Pública e que os aumentos salariais não existam desde 2009. Nós não estamos numa luta de protesto, estamos numa luta de reivindicação, porque acreditamos que é possível mudar a situação. O OE só é votado no dia 29, e até lá o Governo tem de ter a sensibilidade suficiente para perceber que este não é o caminho.

Mesmo assim, diz que não é um protesto...
A luta faz-se de muitas formas. Às vezes, fazemos ações de protesto sobre matérias fechadas. Esta luta é para exigir um Orçamento do Estado que é possível melhorar. Até ao lavar dos cestos é vindima.

Tem alguma garantia da parte do Governo?
Não. Estão a decorrer reuniões... vamos ver. O Governo deu sinal de querer discutir o descongelamento de salários e carreiras no futuro. Nós queremos discutir o futuro, mas queremos discutir também o que se passa hoje. O que nos separa é isso.

Jerónimo de Sousa já avisou que os trabalhadores do Estado iriam fazer ouvir a sua voz. Este é o primeiro caso?
Vamos tentar discutir as coisas... e ou o Governo percebe o que tem de fazer ou então os trabalhadores terão de fazer ouvir a sua voz. Esta é a primeira luta que fazemos contra este OE. No ano passado não a fizemos porque tivemos as 35 horas, houve reposição de feriados e devolução de salários...

As expectativas foram goradas?
Ainda não, mas se continuarem assim vão ser. E aí os trabalhadores vão ter de dar resposta, porque têm o direito de perguntar: “Porque é que nos tratam assim?”

A paz social que tem reinado na AP pode acabar?
Não depende de nós. Chegou o momento de dizer ao Governo que pode fazer melhor, porque não aceitamos mais orçamentos que congelem carreiras e salários. A partir daí, a bola passa para o lado do Governo.

Com um OE insuficiente, como está o ambiente entre os trabalhadores da AP?
Creio que há níveis diferentes de apreciação, mas os sindicatos estão a discutir sectorialmente, ministro a ministro, tentando resolver as questões. Quando não conseguem, claro que vão ter de lutar. Na Saúde, por exemplo, precisamos que o Governo cumpra o que prometeu e devolva as 35 horas a milhares de trabalhadores que têm contratos individuais de trabalho nos hospitais. E que pague as horas extraordinárias em atraso.

A paciência tem limites...
Tudo tem limites. As pessoas estão com os salários de 2011. Eu creio que as pessoas estão numa de luta. Há mobilização e vontade de lutar e a convicção de que as reivindicações vão ser atendidas.