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“É muito importante pensar no que Cuba não pode perder”

Entrevistado pelo Expresso em março, na véspera do concerto dos Stones em Havana, Luís Faro Ramos, embaixador de Portugal falou da visita de Obama, das mudanças que estão a acontecer no país e das relações de Portugal com Cuba. Republicamos essa conversa no dia em que Marcelo Rebelo de Sousa inicia uma visita oficial à ilha das Caraíbas

DR

Em sua opinião, qual era a maior expectativa dos cubanos em relação à visita do Presidente Obama?
Mais de 50 anos de relações diplomáticas bilaterais interrompidas forjaram no povo cubano um sentimento muito forte de identidade. Atualmente, o Presidente Obama goza de uma grande popularidade em Cuba, porque representa uma viragem determinante no modo como os Estados Unidos da América encaram o seu relacionamento bilateral com este país. Julgo que a população cubana espera que a visita possa vir a ter como resultado uma significativa melhoria, ainda que só a médio ou a longo prazo, das suas condições económicas. Apesar do embargo económico se manter, algumas decisões tomadas pelo Presidente Obama, sobretudo as mais recentes (da semana passada) permitirão o desenvolvimento de negócios dos dois lados.

E do lado do Governo de Havana?
Do lado do Governo espera-se sobretudo, penso, que a visita ratifique a viragem que menciono na resposta à questão anterior, colocando o relacionamento bilateral ao nível do respeito mútuo e reconhecimento de um ponto fundamental para a normalização plena, o de que os dois países são diferentes e têm conceções diferentes sobre questões políticas, económicas e culturais.

ALEJANDRO ERNESTO / EPA

Esta viagem é um passo decisivo para o fim do embargo, e a resolução da questão Guantánamo?
Em relação ao embargo, será um passo relevante, não decisivo certamente, na medida em que do lado do Congresso dos EUA tem sido claro que o levantamento do embargo não está para já em cima da mesa. O Presidente dos EUA e elementos da Administração norte-americana têm afirmado que o seu desejo é ir convencendo os legisladores de que o embargo já não faz sentido, e através das decisões tomadas e da aproximação encetada, demonstrar que a normalização é irreversível e o embargo, mais cedo ou mais tarde, será levantado. É também relevante para este ponto mencionar que a larga maioria da Comunidade Internacional é contra o embargo, e que nos próprios EUA parece estar a crescer o número daqueles que se opõem a tal medida.

Quanto à devolução a Cuba da base naval de Guantánamo, as declarações conhecidas de um lado e outro não permitem antever que esse passo esteja para breve.

JEFFREY ARGUEDAS

Nota uma maior abertura do Governo cubano em relação à politica externa desde que assumiu funções em setembro de 2015?
Este curto período temporal não me permite, porventura, dar uma resposta completamente informada a esta pergunta, mas parece-me que o Governo cubano está a entender de um modo aberto e empenhado os problemas e desafios com que a Comunidade Internacional em geral e a região da América Latina e Caraíbas em particular se confrontam atualmente.

A população já tem condições para receber mais remessas dos familiares emigrados?
Tanto quanto sei nunca deixou de ser permitido aos cidadãos cubanos que se encontram fora do país enviarem remessas financeiras para os seus familiares que estão em Cuba.

Os cubanos têm possibilidades de sair do país em termos práticos, ou a hipótese de viajar ainda fica muito restrita?
Penso que os cubanos beneficiam, sem restrições, da possibilidade de viajar para o estrangeiro, com uma exceção recente que abrange profissionais médicos.

DR

Estão a ser feitas ações concretas para promover o ensino da língua portuguesa em Cuba e promover as exportações de produtos portugueses?
Foi assinado, no final do ano passado, um Protocolo entre o Instituto Camões e a Universidade de Havana, que contempla a instituição de um Leitorado de português junto daquela Universidade. A Leitora designada para o efeito chegou a Havana há cerca de duas semanas, e está já em pleno período de preparação para o desenvolvimento da sua atividade. Trata-se de um passo importantíssimo para a promoção da Língua portuguesa em Cuba e respetivo ensino.

Vai haver outras atividades no âmbito cultural?
Será também executado este ano um ambicioso Plano de Atividades culturais, que contempla designadamente uma mostra de cinema português, a celebração do dia da língua portuguesa e um repertório de fado cantado por artistas cubanos.

E o plano económico?
Quanto à promoção das exportações portuguesas, há que dizer que no ano passado se registou um aumento de cerca de 40% em relação ao ano anterior (2014), regista-se um interesse crescente por parte dos empresários portugueses no mercado cubano, e esta Embaixada assume-a como uma das suas tarefas principais, juntamente com o trabalho político/institucional e a área da Língua e Cultura. Há ainda que referir a existência de uma muito dinâmica Câmara de Comércio bilateral, que há cerca de um mês assinou um Protocolo de colaboração com a AICEP.

Quantos portugueses visitaram Cuba no último ano?
De acordo com dados disponibilizados pelas autoridades cubanas, mais de 15 mil.

DR

Qual é a imagem que os cubanos têm de Portugal?
A imagem de um país acolhedor, diversificado, de pessoas com mente aberta e disponíveis para o diálogo, e que tem algumas similitudes com Cuba, como a dimensão da sua população. O sucesso planetário de alguns desportistas portugueses contribui para essa imagem.

Agora que Cuba está a trilhar o caminho da abertura, quer mencionar três ou quatro valores sociais que considere importantes preservar no futuro?
Saúde, Educação, Cultura, Segurança. Para além daquilo que Cuba pode ganhar, é muito importante pensar-se agora naquilo que Cuba não pode perder.

N.B. Veja aqui a versão que foi publicada em março. O Expresso conversou com Luís Faro Ramos na véspera do concerto dos Rolling Stones em Havana. Com muita pena, o embaixador não assistiu a este espectáculo que foi um símbolo da mudança

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