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O regresso do filho pródigo

Desgaste. O segundo mandato de Guterres ficou marcado por episódios negativos, como a queda da ponte de Entre-os-Rios

rui duarte silva

Saiu, sozinho e incompreendido, em 2002. 14 anos depois, o PS (e o país) recebeu-o de braços abertos

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

As despedidas querem-se breves. E assim foi a última vez que António Guterres discursou publicamente na qualidade de secretário-geral do PS. Foi a 26 de janeiro de 2002, na convenção nacional que entronizou Ferro Rodrigues como líder socialista. Passava pouco do meio dia. O ainda primeiro-ministro (só deixaria de o ser no início de abril, depois das legislativas ganhas por Durão Barroso) falou poucos minutos, após a intervenção de Almeida Santos (presidente do partido) e antes da de Ferro. Passou o testemunho, sob contido aplauso de um partido que continuava sem compreender muito bem as razões da saída do homem que o liderara nos últimos dez anos, e desceu do palco. Atravessou sozinho a plateia do Coliseu dos Recreios, em direção a uma das portas, parando não mais do que meia dúzia de vezes para cumprimentar quem lhe estendia a mão. Cá fora, à sua espera, apenas três pessoas: Guilherme D’Oliveira Martins (ministro da Presidência), David Damião e Luís Bernardo (os seus assessores de imprensa em São Bento). Foram até à beira-Tejo, comeram qualquer coisa pelo caminho, e fizeram o percurso inverso. Acabaram os quatro no cinema São Jorge, na Avenida da Liberdade, a assistir à sessão da tarde do recentemente estreado “Ocean’s Eleven”. Luís Bernardo lembra-se como se fosse hoje e não resiste à ironia: “Havia muito poucos ‘guterristas’ naquele dia, comparados com os que há hoje [depois de eleito secretário-geral da ONU]”.

A reconciliação do partido com Guterres, diga-se em abono da verdade, é anterior a estes recentes dias de glória. Quando, em junho último, António Costa anunciou a sua presença aos microfones do XXI Congresso e ele surgiu inesperadamente no palco (ao som do “1492” de Vangelis, o hino da Nova Maioria de 1995), os socialistas reunidos na nave central da FIL irromperam numa ovação, longa e exuberante. “Não fazem ideia das saudades que eu tinha de estar aqui”, confessou o ex-primeiro-ministro — e o sentimento, pelos vistos, era mútuo. Tinham passado 14 anos e o PS, se não esquecera, tivera tempo para compreender ou, pelo menos, perdoar ao ‘filho pródigo’ que agora regressava. Como o pai da parábola do evangelho de São Lucas.

Talvez porque, à distância desta década e meia, percebem que a sua partida, anunciada a dezembro de 2001, na noite em que o PS perde a presidência dos principais municípios, foi de facto o melhor que podia ter acontecido ao partido: três escassos anos depois, os socialistas estavam de novo no Governo e, pela primeira vez na sua história, com uma maioria absoluta. A tal que Guterres tivera receio de pedir nas legislativas de 1999 (por receio de que a ousadia fosse mal compreendida por um eleitorado ainda não refeito dos excessos do poder de dez anos de Cavaco Silva) e que acabara por lhe fugir entre os dedos, por um deputado apenas.

Luís Bernardo e outras três testemunhas diretas da época ouvidas pelo Expresso (não quiseram aparecer identificadas no texto) não têm dúvidas de que “Guterres antecipou o que ia acontecer e achou genuinamente que era melhor para o país ele sair. Mas ninguém via o que ele via e por isso a sua atitude foi mal compreendida”. Uma rara “capacidade de leitura de contexto” que lhe foi sempre um instrumento precioso ao longo de toda a sua carreira política. Em 2001, garantem essas testemunhas, a decisão de sair já estava tomada há algum tempo (ainda que guardada só para ele).

O próprio confirmou, na biografia que o jornalista Adelino Cunha escreveu dele em 2013, que teve consciência do momento em que “deixei de ser parte da solução para me tornar parte do problema”. “Eu era um obstáculo para que o PS jogasse outras soluções de poder. Era altura de abrir um novo ciclo com novos protagonistas.”

Nesse dezembro, perante a nomenklatura socialista em estado catatónico e um país incrédulo, explicou que “se nada fizesse, se olhasse para estas eleições e passasse por elas continuando a exercer as funções de primeiro-ministro, o país cairia inevitavelmente num pântano político que minaria as relações entre governantes e governados”. O resultado das autárquicas fora o pretexto mas havia mais, muito mais do que isso, a justificar-lhe que aquele era o momento de pôr ponto final no percurso iniciado em 1974, com a adesão ao PS.

Só tinham passado seis anos desde que conquistara, ainda que sem maioria absoluta, uma saborosa vitória para o PS nas legislativas, pondo cobro a dez anos de governos PSD. Empurrado pelos novos ventos da Terceira Via de Tony Blair e Bill Clinton, Guterres fizera-se eleger como uma espécie de anti-Cavaco, garantindo que “razão e coração” podem coexistir, que as “pessoas não são números”, que é possível ter “paixão pela educação”.

Os primeiros quatro anos corresponderam ao entusiasmo e à esperança da campanha eleitoral, foram os anos do Rendimento Mínimo Garantido, da Expo-98, da estratégia de Lisboa, da bem-sucedida luta pela independência de Timor-Leste. Mas o segundo mandato já não foi assim. A bizarra “minoria” absoluta de 115 deputados de 1999 e, por isso, dois orçamentos do Estado aprovados com o pouco ortodoxo recurso ao deputado do CDS de Ponte de Lima, Daniel Campelo ; dossiês controversos (e reveladores de profundas divisões no Executivo e no partido), como o da taxa da alcoolemia, e de efeitos políticos devastadores, como o da Fundação para a Prevenção Rodoviária (que ditou a demissão de Armando Vara e de Luís Patrão); o desastre de Entre-os-Rios (que provocou o afastamento da política do seu braço-direito, Jorge Coelho). Tudo contribuiu para um desgaste progressivo e o acumular de desilusões.

As qualidades que o tinham elegido primeiro-ministro em 1995, o facto de ser um homem de diálogo, hábil conciliador e fazedor de pontes (afinal as características que mais lhe valeram na gestão do processo de candidatura à ONU) eram agora vistas como defeito, sinónimo de moleza e fraqueza. Num Governo que voltara a ser dominado pelas lógicas partidárias (em flagrante contraste com o primeiro, abrilhantado por muitos independentes vindos dos Estados Gerais), não faltavam as “primas-donas” e ao “chefe da orquestra” sobrava-lhe em paciência de Job o que lhe faltava em capacidade de dar murros na mesa se e quando era preciso. Para fora eram sinais de que não havia comando ou mão firme. Lá dentro, ele desculpava-se: “Não nasci para ser filho da mãe”.

Jamais regressou à vida partidária. Admitia-se que talvez um dia pudesse ser candidato presidencial, e ele, desde sempre habituado a olhar para a linha do horizonte, nunca disse taxativamente que não. Aos mais próximos, porém, não era assim: “Sempre me disse que não tinha vocação para aquele tipo de poder, para a função presidencial nos termos em que tinha sido exercida por Sampaio e era exercida por Cavaco”, conta um desses amigos. Concluindo, com alguma tristeza por o saber perdido de vez para a política nacional: “Ainda não tinha visto o Marcelo”.

  • Até ao topo do mundo

    A longa aprendizagem do português que se tornou o novo secretário-geral da ONU e que a par e passo soube construir uma carreira internacional em vinte anos