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Marcelo vê 50 por cento de hipóteses de a legislatura chegar ao fim

MANUEL DE ALMEIDA / LUSA

Este OE passa e só fica a faltar um (2018) de risco. Costa quer chegar ao fim. Mas depende da economia, das sondagens, das autárquicas... e do PSD

Vista de Belém, a esquerda (PCP e BE), que teve de engolir o adiamento do fim da sobretaxa e o não aumento das pensões mínimas, está mais calma do que parece e não há sinal de que o Orçamento do Estado para 2017 possa não passar. Marcelo Rebelo de Sousa ouviu os partidos e já salta folhas no calendário. Para o Presidente da República, as probabilidades de a legislatura chegar ao fim (a 2019) subiram de 10 para 50 por cento — “isto está fifty-fifty”, tem dito em privado —, e tudo depende do próximo ano. Marcelo volta, assim, ao ponto de partida — foi ele quem disse, em maio, que as autárquicas de 2017 marcariam “um novo ciclo” político.

Eis os dois cenários que começam a fervilhar no caderno de apontamentos presidencial. Primeiro: a economia mexe; António Costa pode dar alguma coisa à esquerda no OE-2018; as autárquicas correm bem ao PS e ao PCP, mantendo os comunistas confortáveis no apoio ao Governo; e Passos Coelho (que os socialistas consideram um seguro de vida) aguenta-se no PSD. Neste caso, a convicção em Belém é de que Costa segue em frente, apostado em ficar para a história como o primeiro-ministro que, contra todas as previsões, cumpriu uma legislatura à frente de uma “geringonça”. Seria o ponto de partida para ir às legislativas de 2019 pedir uma maioria absoluta.

Segunda hipótese: a economia mexe mas pouco; a aprovação do próximo OE treme, por haver menos folga do que este ano para agradar ao PCP e ao BE; as autárquicas correm bem à esquerda mas correm mal ao PSD, que entra em ebulição; e a perspetiva de ter pela frente um novo líder da oposição leva Costa a rever os planos. Ir a votos quanto antes pode, nesse cenário, evitar que um novo opositor se afirme. Se as sondagens o incentivarem, o primeiro-ministro pode aproveitar o OE-2018 para espreitar a brecha para uma crise. Revisitemos Marcelo: “O ideal é que este Governo dure. [Mas] depois das autárquicas veremos o que se passa”, disse, em maio. “Depende muito do ano que vem”, confirmam fontes da Presidência.

“Corra com eles!”, uma frase em queda

Na rua, há uma frase que Marcelo ouvia muito e que praticamente deixou de ouvir. “Corra com eles!” Parece que se ajustaram à ideia de que isso não é para já, relatam em Belém. O mal-estar que este Orçamento do Estado evidenciou entre o PS e os parceiros à sua esquerda, e que levou Marques Mendes a dizer que este OE “é o princípio do fim da ‘geringonça’”, foi registado em Belém, mas aparentemente sem as certezas do comentador e conselheiro de Estado. Marcelo marca uma diferença entre os barões do BE e PCP, onde concorda que se abriu um ambiente de tensão com o PS “dificilmente reparável”, e o estado de espírito nas bases e eleitores. Aí, acredita que passou a ideia de que o acordo das esquerdas foi benéfico.

Já no Orçamento do Estado para 2018 “vai ser muito mais difícil” ter coisas para a esquerda, a menos que a economia se reanime. Marcelo e Costa estão empenhados nesta frente. Já combinaram ir juntos à Autoeuropa ver o novo modelo que permitirá contratar 1500 trabalhadores em 2017. E há outras boas notícias: a IBM abre uma fábrica em Viseu, a Mercadona abre supermercados no Norte... “Pode ser que isto comece a mexer”, ouve-se em Belém.

Cuidado com a banca

O sector financeiro é uma pedra no caminho da esquerda que o Presidente acha que Costa acautelou mal. Quando promulgou o diploma que permitiu subir os salários dos administradores da CGD, Marcelo pediu atenção aos montantes e reagiu mal aos números que vão ser pagos ao presidente da Caixa (423 mil euros por ano): “Impossível e indesejável”.

Na opinião do PR, o Governo devia ter dito logo estar perante uma exigência do BCE e devia ter acautelado “um cortesinho”, até haver resultados. Perdida esta guerra, Marcelo nem por isso esfriou a relação com Costa. Ambos esperam pelas autárquicas para reavaliarem a reta final da corrida.