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Marcelo ansioso: nem há investimento nem há oposição

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Marcelo com Passos: o Presidente pede “clareza na alternativa”

MANUEL DE ALMEIDA/ Lusa

Situação económica "problemática", OE falhado para o investimento e ausência de oposição "clara e forte". Cansado de um país gerido "ao dia", PR insiste nos acordos de regime

Marcelo Rebelo de Sousa escolheu a semana de apresentação do Orçamento do Estado para fazer dois discursos marcantes: um, nos 25 anos do Conselho Económico e Social, em que pediu aos partidos e parceiros sociais que em vez de ficarem “à espera das eleições que não chegam” ousem fazer acordos; o outro, num seminário que pediu a Pedro Ferraz da Costa para organizar sobre estratégias para o investimento, onde reconheceu que a “geringonça” está melhor (“numa posição menos frágil”), mas o país está pior. Pelo menos do ponto de vista económico, que o Presidente classificou de “problemático” Falta o resto, e o resto não foram peanuts: o Presidente pediu “clareza de demarcação de alternativa” à oposição. À sua frente estava o líder do PSD, Passos Coelho.

É este o dilema de Marcelo. Herdou um Governo que suscitou a desconfiança interna e externa mas que se tem vindo a afirmar do ponto de vista político; vai promulgar um Orçamento do Estado que considera fracassado do ponto de vista económico mas que cumpre as metas do défice e repõe apoios sociais; e enquanto aguarda pelas autárquicas para saber se o líder da oposição se aguenta, resta-lhe fazer o que prometeu em campanha — “garantir a estabilidade política, evitar crises, fomentar a acalmia e investir na concertação” em busca de “acordos de regime, mesmo se de dificílima dificuldade”.

O Presidente ainda aposta na concertação, como disse nos 25 anos do CES — “Serão hoje possíveis acordos? Eu ouso pensar que sim, mesmo que parcelares”. E nesse sentido tem estado em permanente contacto, quer com as centrais sindicais quer com as patronais, apostado em ajudar a melhorar um orçamento que considera ficar aquém nos incentivos ao investimento, sobretudo pelas mossas que faz na estabilidade fiscal.

Foi Marcelo quem fez da bandeira do crescimento prioridade absoluta, a par do cumprimento do défice — enquanto cobriu a política orçamental de Costa em 2016 o PR engrossou as exigências na frente económica para 2017. E Belém não esconde que, aqui, o OE fica longe do desejável.

“As eleições que não chegam”

“Ainda temos até dezembro”, disse o PR por estes dias, sinalizando a expectativa de que até à votação final do documento nele possam vir a ser enxertadas melhorias para a vida económica do país. Mas Marcelo não tem grandes ilusões: nem BE nem PCP vão deixar Costa fazer milagres nesta frente e o primeiro-ministro parece cada vez mais apostado em fazer história cumprindo uma legislatura atípica, que quase todos davam como perdida.

Quando, esta semana, avisou que é bom todos deixarem de “ficar à espera das eleições que não chegam”, Marcelo Rebelo de Sousa mostrou estar a preparar-se para um ciclo político que, ao contrário do que ele chegou a pensar, pode não acabar com as autárquicas. E é neste novo quadro que o PR acentua a urgência de uma oposição “clara e forte”.

Porquê? Porque se a legislatura se cumprir sem um único pacto de regime, o PR que chegou a Belém a prometer pontes e entendimentos alargados sofre uma derrota. Mas mesmo que Costa e a sua “geringonça” não cheguem ao fim, Marcelo sabe que ele próprio não pode, a partir de agora, ficar à espera das eleições que não (sabe se) chegam. Tem de manter a pressão para que “o estrutural” prevaleça sobre “o conjuntural”, ou, como disse no CES, para que em vez de se pensar só “em 2016, 2017 ou 2018”, se pense “em 2019, 2023 ou 2027”. Conseguirá?