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Vasco Cordeiro: “Geringonça? Os outros partidos é que têm de responder”

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foto rui soares

Vasco Cordeiro, líder do PS-Açores, em entrevista ao Expresso recusa explicar o que fará caso ganhe as eleições sem maioria absoluta. Diz que vai esperar para ver se o deixam governar sozinho

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

As sondagens prometem ao PS e ao seu líder nos Açores uma vitória folgada. Mas Vasco Cordeiro teme a teoria dos vencedores antecipados e luta contra a abstenção. Cauteloso, também evita pronunciar-se sobre eventuais “geringonças” à moda açoriana: compete aos outros partidos falar primeiro, diz. As eleições são no domingo.

Está à espera de uma vitória folgada nas eleições?
Estou à espera que o povo se pronuncie. Surgiram previsões que vão nesse sentido, mas é preciso ter cautela, porque o pior é desvalorizar o ato eleitoral. Só contam os votos que entrarem nas urnas no dia 16 de outubro.

Teme a abstenção?
Não há vencedores antecipados. A abstenção é negativa em si para o funcionamento da democracia e em particular a autonomia dos Açores.

Mas está à espera de governar com maioria absoluta?
A sua pergunta exige determinados pressupostos, que ainda não podemos dizer se existem. O PS ou ganha com maioria absoluta ou, ganhando com maioria relativa, formará uma maioria absoluta. No caso de uma maioria relativa, no entanto, compete primeiro aos outros partidos responder se impediriam ou não o PS de governar nessas condições. É daí que parte a necessidade de formar uma maioria absoluta.
Não foi entusiasta da “geringonça” no Governo central. Acha possível uma ‘geringonça’ nos Açores?
Uma ‘geringonça’ quer dizer que o segundo partido mais votado, conseguindo apoio no Parlamento, é que forma governo. E isso entronca na resposta anterior, são os outros partidos que têm de responder primeiro.

Se tiver maioria relativa e procurar formar Governo, procuraria apoio mais à esquerda ou à direita?
Respondo do mesmo modo.

Nas últimas eleições, enfrentou como líder do PSD Berta Cabral, agora vai enfrentar Duarte Freitas. A mudança de líder faz alguma diferença?
Quem tem que responder são os militantes do PSD.

Não tem uma boa relação com ele?
Tenho, como já tinha com Berta Cabral.

O ambiente que se gerou no Governo central entre os partidos de esquerda refletiu-se nos respetivos partidos nos Açores?
Historicamente está demonstrado que sempre que o PS teve responsabilidades do Governo na República a compreensão relativamente às autonomias regionais foi uma realidade. É só isso que lhe posso dizer.

Os Açores precisam de mais autonomia, nomeadamente as alterações ao Estatuto a que Cavaco Silva se opôs?
Essa questão ficou resolvida. Há algumas matérias que podem reforçar a forma como a autonomia pode contribuir para o fortalecimento da democracia. Existem duas ideias: participação de listas independentes e listas abertas para a Assembleia Legislativa Regional e também a extinção do representante da República. Mas isto só se colocará se for aberto um processo de revisão constitucional.

E mais poderes?
Defendemos, por exemplo, mais competências na área do mar, no licenciamento de diversos tipos de exploração do fundo oceânico.

A crise que os Açores atravessaram nos últimos anos fizeram-no infletir alguma coisa no seu programa?
Os Açores foram afetados pela crise nacional e internacional, numa economia pequena e aberta, os sintomas e efeitos da crise são fortes. Em relação ao programa que o PS agora apresenta, visa reforçar o trajeto de recuperação que já se torna visível e mesmo consistente em alguns sectores, mas ainda por fazer.

O desemprego é um cavalo de batalha nestas eleições e muito criticado pela oposição...
A taxa de desemprego baixou de 18% para 11% desde o princípio de 2014, mas continua a ser muito alta. As ofertas de emprego em agosto de 2016 cresceram mais de 200% em relação a período homólogo de 2015, e o número de inscritos nos centros de emprego em agosto deste ano também é o mais baixo desde 2011. Mas é evidente que para quem está desempregado essas taxas pouco dizem.

O sector do leite tem sido muito castigado. Tem propostas concretas?
O problema não é de produção, mas de transformação e escoamento, que tem a ver com a retração do consumo de leite em alguns dos principais mercados, e o embargo russo, o que vai além da capacidade de intervenção de uma entidade regional.

E quanto ao turismo, que está em expansão, não teme que o seu excesso estrague a riqueza natural da região?
A nossa galinha dos ovos de ouro é a sustentabilidade ambiental que deve ser sempre salvaguardada, se queremos ter também sustentabilidade do crescimento do turismo. Na nossa proposta de governo, defendemos limites de carga de forma a preservar cuidados em algumas áreas como São Miguel. É perfeitamente possível conciliar o contributo do turismo para criação de emprego e riqueza com a primazia da sustentabilidade ambiental.

Lajes: o centro espacial é possível?
É louvável o trabalho que o Governo da República está a fazer no sentido de criar e abrir novas possibilidades na área das Lajes. Mas os problemas causados pela decisão da Força Aérea norte-americana em reduzir a sua presença não desapareceram com o anúncio desse centro e mantêm-se.

Aviões norte-americanos fizeram atrasar a descolagem do avião chinês nas Lajes na semana passada. Essa movimentação representa algum recado?
A ter havido é o que a própria Força Aérea Portuguesa — que tem a gestão dessa área — tiver permitido que seja.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 8 de outubro de 2016