Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Morreu José Lello

  • 333

António Cotrim / Lusa

Ex-deputado do PS e antigo ministro da Juventude e Desporto morreu esta sexta-feira, no Porto, vítima de doença prolongada. Tinha 72 anos

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Foi deputado desde 1983 e até ao fim da última legislatura, com interrupções apenas para integrar os governos de António Guterres: foi secretário de Estado das Comunidades enquanto Jaime Gama foi ministro dos Negócios Estrangeiros (foi, aliás, um dos últimos "gamistas" dentro do PS) e subiu a ministro da Juventude e do Desporto quando Armando Vara deixou o Executivo (na sequência da controversa Fundação para a Prevenção e Segurança). Foi um dos principais instigadores da candidatura de José Sócrates à liderança do PS, em 2004. A ele é creditada a expressão "menino de ouro", que deu título à biografia do ex-primeiro-ministro, da autoria de Eduarda Maio.

Orgulhava-se de ser amigo de Sócrates, visitou-o várias vezes enquanto ele esteve preso em Évora e já depois de libertado - sempre o defendeu ao longo da investigação. Numa das suas últimas entrevistas (ao jornal “i”, em setembro de 2015, em plena pré-campanha), não se coibiu de criticar António Costa pelo seu afastamento de Sócrates: "Nas alturas de dificuldade visitamos os amigos, esteja em causa o que estiver. E os portugueses entendem isso".

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou a morte, sublinhando o “valor e contributo para a causa pública” dados em vida pelo socialista.

“José Lello viu em vida reconhecido o seu valor e contributo para a causa pública, tendo recebido condecorações da parte de muitos países. Destaque particular, naturalmente, para a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, com que Portugal assinalou a importância da sua vida e obra”, vincou Marcelo Rebelo de Sousa, em nota publicada na página Internet da Presidência.

Os seus amigos de sempre no PS estão inconformados: "Partiu um grande camarada, um grande amigo, um socialista de todas as horas. É uma grande perda para todos nós. É um momento muito difícil para todos os amigos", diz a deputada Isabel Santos. "Estou em estado de choque. Foi um amigo de 40 anos, um companheiro. Conhecemo-nos no PS, fizemos um percurso comum. Foi um grande companheiro socialista. Perco um dos meus melhores amigos", afirma Renato Sampaio, também deputado pelo círculo do Porto.

"Aliado às suas características pessoais, era um homem que inspirava boa disposição e isso foi um instrumento muito importante também na ação política", afirmou ao Expresso o ex-ministro Jorge Coelho, recordando: "Conhecemo-nos há muitos, muitos anos. Foi um companheiro de partido e de Governo, um grande amigo e vou sentir muito a sua falta".

Segundo Coelho, Lello "fez um lugar extraordinário como secretário de Estado das Comunidades Portuguesas" e "fez com que o PS tivesse tido em 1999 uma votação como nunca antes tinha tido no círculo da Emigração".

Manuel Pizarro lamenta profundamente a morte de um militante de referência do PS e figura maior da vida cívica do Porto. "É com profundo pesar e tristeza que recebi esta notícia, sentimento comungado por todos os socialistas", afirmou o vereador da Câmara do Porto. Lembra que "José Lello participou em todos os combates da cidade após o advento da democracia". O ex-deputado estava doente há cinco anos, um período difícil mas "a que soube resistir com enorme coragem e jovialidade de sempre".

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, manifestou “grande tristeza” pel falecimento, destacando a “frontalidade” das suas posições políticas e a dedicação às comunidades portuguesas.

Numa mensagem enviada à agência Lusa, o presidente da Assembleia da República afirma que foi "com grande tristeza que recebeu a notícia do falecimento do antigo deputado José Lello.
José Lello, segundo Ferro Rodrigues, "serviu com generosidade e competência a causa pública".

"Era dirigente do PS, onde esteve à frente do departamento das Relações Internacionais. No Governo, destacou-se pelo serviço às Comunidades Portuguesas, tendo também exercido o cargo de Ministro da Juventude e Desporto", referiu o presidente do parlamento.

Enquanto parlamentar, Ferro Rodrigues recordou-o "não só como defensor das Comunidades Portuguesas, mas também o membro dedicado do Conselho de Administração da Assembleia da República e protagonista ativo da Assembleia Parlamentar da NATO".

"Foi uma personalidade marcante das últimas duas décadas do PS, sempre frontal nas suas posições, caraterística que o definiu até ao último dos seus dias", acrescentou o presidente da Assembleia da República.

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luis Carneiro, considerou que a morte representa a perda de um homem leal, de afetos, que se batia pelos seus ideais, pelos seus amigos e pela sua região.

“Devo recordar um camarada de grandes afetos, de grande fraternidade na relação com os seus amigos e com os seus camaradas. Depois a sua lealdade e a forma como se batia lealmente pelas suas convicções, na defesa dos seus amigos, na defesa das suas causas políticas, na defesa dos seus ideais, muita vezes e não rara vezes, na defesa do seu distrito e da sua região”, afirmou José Luís Carneiro.

O deputado do CDS-PP João Rebelo expressou consternação pela morte , lembrando José Lello como um político “muito combativo” e com “grandes qualidades”, que era “um facilitador de consensos”. “Fiquei muito consternado com esta notícia. Foi meu colega 12 anos na comissão de Defesa e na Assembleia parlamentar da NATO. Recordo-o como uma pessoa muito bem-disposta, que era muito combativa no debate parlamentar no qual manifestava grandes qualidades”, disse à Lusa João Rebelo.

Afastado da política ativa desde o ano passado, continuava a acompanhá-la de perto e nunca perdia uma oportunidade para comentar a atualidade na sua página no Facebook. O seu último post data de 6 de outubro, dia da votação no Conselho de Segurança da ONU do nome de António Guterres para o cargo de secretário-geral. Ele não escondeu o orgulho, ainda que contido (pois nunca fora um chamado 'guterrista'): "Defendo a igualdade de género e ainda mais o primado da meritocracia.A eleição do SG da ONU provou isso mesmo. A Kristalina foi a oitava!".

O PS cancelou a reunião da sua Comissão Nacional, que estava agendada para sábado em Lisboa, devido às cerimónias fúnebres.

Os socialistas tinham previsto para a noite desta sexta-feira juntar a sua Comissão Política - órgão alargado de direção - e no sábado a Comissão Nacional, órgão máximo entre congressos, com a particularidade de os encontros se seguirem à entrega do Orçamento do Estado (OE) para 2017, agendada para esta sexta-feira à tarde.

Com a morte de Lello, cujas cerimónias fúnebres decorrem no Porto, a reunião de sábado foi cancelada, indicou o PS, mantendo-se o encontro de hoje à noite da Comissão Política.
Não há ainda nova data para a reunião da Comissão Nacional, precisou também fonte socialista.

“O velório de José Lello decorre hoje (sexta-feira), entre as 18h30 e as 22h na Igreja do Cristo Rei, no Porto, e a cerimónia fúnebre acontece amanhã [sábado], pelas 16h30”, informou o PS/Porto em comunicado.