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Duarte Freitas: “Ser-se pobre nos Açores é uma fatalidade”

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foto jorge pereira

Duarte Freitas, líder do PSD-Açores, desdramatiza, em entrevista ao Expresso, a pouca participação de Passos nas eleições regionais e aponta o dedo às áreas de exclusiva competência do Governo Regional

Duarte Freitas aponta o dedo a Vasco Cordeiro e frisa que na Saúde e na Educação, áreas da competência exclusiva do governo regional, os Açores têm “os piores indicadores nacionais”. Quanto a Passos Coelho, desdramatiza a pouca presença do líder nacional na pré-campanha e campanha eleitoral da região. “Como aconteceu com António Costa, a campanha eleitoral propriamente dita é preenchida pelas estruturas autónomas dos partidos. Sempre foi assim”, justifica. As eleições são domingo.

A ‘renovação’ do PSD-Açores que levou a cabo nos últimos três anos não terá sido demasiado radical? A aparente falta de unidade e mobilização dos militantes não estará a comprometer os objetivos eleitorais?
Quando fui eleito presidente do PSD-Açores, há três anos, apresentei-me com um projeto e um rumo muito claros. Nós temos hoje mais dois mil novos militantes, todas as semanas eu assino fichas de novos militantes, há sedes pela primeira vez em todos as ilhas dos Açores, temos órgãos constituídos renovados, a Comissão Política regional tem, pela primeira vez, mais mulheres do que homens...

Então, os antigos militantes não estão a fazer falta?
Eles estão neste momento a trabalhar connosco por todo o lado e todos querem ajudar o PSD-Açores a mudar o que está mal. Renovámos as nossas listas em 82%, dos dez cabeças de lista, sete são novos, o Partido Socialista repete oito... É toda uma nova dinâmica de renovação que tem de continuar, contando com os mais experientes e sempre trazendo pessoas mais novas e capazes que possam acrescentar a dinâmica necessária entre o PSD-Açores e a sociedade. Renovação interna e proximidade com o exterior é o que está refletido no nosso programa.

Mota Amaral está em campanha. Como é a vossa relação?
Mantenho com ele um diálogo muito regular, como, aliás, com quase todos os militantes do PSD. Mas com Mota Amaral em particular, dado que é uma pessoa por quem tenho uma enorme consideração.

Passos Coelho não esteve muito presente nesta campanha.
Ele esteve cá na pré-campanha a dar-nos a sua solidariedade e até participou na Universidade de Verão, o que nos enche de orgulho. Como aconteceu com António Costa. A campanha eleitoral propriamente dita é preenchida pelas estruturas autónomas dos partidos. Sempre foi assim.

Como avalia a relação da região dos Açores com a República?
É uma relação estável, tanto ao nível dos normativos estatutários e constitucionais como das leis de valor reforçado, como é o caso da Lei das Finanças Regionais. Mas também tem havido, no caso da República, medidas importantes para os Açores, por exemplo, a medida que foi tomada em relação à abertura do espaço aéreo, uma decisão com muito impacto. Foi talvez das medidas que tiveram maior efeito na economia e no desenvolvimento dos Açores, nos últimos 10 a 15 anos. É sabido que da parte do governo regional não havia a menor intenção de abrir o espaço aéreo, são conhecidas as palavras do atual presidente do governo regional que dizia que o problema do Turismo dos Açores “não eram os transportes”... Eu próprio, e o PSD-Açores, há muito que achava que a abertura do espaço aéreo era inevitável. E neste aspeto o que há de verdadeiramente novo no relacionamento da República com a região é que foi uma medida política tomada pelo governo de Passos Coelho que teve, de facto, nos Açores um resultado extraordinário, sem paralelo.

Apesar disso, a República continua a ser o ‘bode expiatório’ que explica tudo o que de menos bom acontece nos Açores?
Há medidas que têm de ser alteradas. Mas existe um quadro estável e temos que lutar pelos nossos direitos junto da República. Temos de saber desenvolver aquilo que é nosso. Repare, por exemplo, a Saúde e a Educação são áreas que estatutariamente são da competência dos órgãos de governo próprio dos Açores, e são duas áreas em que os resultados apresentados são trágicos. Obtivemos os piores indicadores nacionais no âmbito do abandono e do insucesso escolares; os piores resultados nacionais no âmbito dos atrasos nas cirurgias encontram-se na região, quase 50 mil pessoas não têm médico de família, há ilhas onde os médicos especialistas demoram dois anos para atender os doentes; tudo isto são competências exclusivas da Região Autónoma dos Açores. As nossas ilhas são fantásticas, com uma beleza muito apreciada por quem nos visita, mas há que evoluir muito em termos do nosso próprio desenvolvimento e, por isso, no nosso programa de governo demos prioridade à Educação. Temos que dar o salto, não podemos perder mais uma geração.

Ao fim de 40 anos de autonomia, o que pensar dessa realidade de que nos fala?
Entendemos que chegou o momento, ao fim de 40 anos de autonomia, de colocar os cidadãos e a nossa sociedade civil no centro das atenções. O nosso programa eleitoral e de governo foi preparado ao longo dos últimos três anos, contámos com o envolvimento de centenas de cidadãos independentes no Conselho Consultivo e em grupos de trabalho com o objetivo de alcançar uma mudança do ciclo governativo de 20 anos, e isso é uma mudança partidária, mas também é uma mudança de um paradigma de governação em que pretendemos que as pessoas e as organizações da sociedade civil sejam o mais importante. Queremos, por exemplo, um Conselho Económico e Social fora da tutela do governo, liderado por alguém com dois terços de aprovação do parlamento regional e constituído por uma maioria de entidades da sociedade civil e não do governo regional como acontece agora. Não há que ter medo da sociedade civil. Essa é a grande diferença em termos de mudança de paradigma da governação que, em vez de condicionar, faz da sociedade civil e de cada açoriano um ser autónomo capaz de ajudar no seu conjunto a autonomia e o desenvolvimento dos Açores para sairmos destes indicadores trágicos que são os nossos. Não me conformo, como açoriano que já viveu em quase todas as ilhas e que teve também de ver as ilhas de fora para dentro, com o facto de com a natureza que temos, o potencial que temos, as pessoas que temos não conseguirmos uma melhor capacidade de sermos mais felizes na nossa terra. De não termos, de facto, uns Açores efetivamente para todos e não apenas para alguns. Porque ser-se rico nos Açores é fantástico, mas ser-se pobre nos Açores é uma fatalidade. E com isso eu não me conformo... É por isso que me candidato.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 8 de outubro de 2016