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CDS vai expulsar ex-deputado por ser candidato independente a Ponte de Lima

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Rui Duarte Silva

Abel Baptista avança contra presidente da câmara que é do seu partido e que se candidata ao terceiro mandato

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Abel Baptista, histórico militante e dirigente do CDS-PP, vai anunciar amanhã a sua candidatura como independente à Câmara de Ponte de Lima, a sua terra natal, em rutura frontal com a líder do partido, Assunção Cristas. Para a direção nacional, é uma clara violação dos estatutos partidários. E, por isso, vai avançar com processo disciplinar com vista à expulsão.

O deputado eleito por Viana do Castelo tinha abandonado o Parlamento em setembro, depois de ter renunciado, em julho, a todos os cargos que ocupava no seu partido de sempre, entre os quais a presidência da concelhia de Ponte de Lima, «indignado com a intromissão abusiva», da líder do CDS na escolha do candidato autárquico naquele concelho. Victor Mendes, a cumprir o segundo mandato ao leme do município, foi convidado por Assunção Cristas a recandidatar-se nas autárquicas de 2017, no único município que não muda de cor política desde o 25 de Abril. A única exceção foi nas eleições autárquicas de 2002, quando Daniel Campelo protagonizou uma candidatura independente também contra os órgãos partidários, após ter sido suspenso por PauloPortas no rescaldo do famoso caso do «queijo limiano». Abel Baptista, ex-vice presidente da Câmara com Campelo, afirma que Assunção Cristas «desrespeitou a concelhia» ao tomar em mãos uma questão que deveria «ser discutida e decidida» em primeira instância pela concelhia e depois pela distrital. «Só em caso de falta de consenso é que a Comissão Política Nacional devia intervir», frisa o o ex-vereador da Câmara de Monção, município a que concorreu pelo CDS-PP nas autárquicas de 2013.

Domingos Doutel, coordenador autárquico do CDS-PP, lamenta «a teimosia e apetite pessoal de um militante de longa data e muito estimado dentro do partido, a começar pela presidente do partido». O CDS justifica a recandidatura de Victor Mendes pelo seu trabalho como autarca e por ter ganho com maioria absoluta em todas as mesas nas duas eleições a que concorreu. Domingos Doutel afirma que atitude de Abel Baptista, de quem é amigo, «é contra natura», negando qualquer tipo de desrespeito para com a concelhia e a distrital, «que ele próprio deixou cair sem viabilizar eleições, desde dezembro». O responsável autárquico garante que o ex-deputado violou o regulamento autárquico do partido, ao não ter levado a votação na concelhia a escolha do próximo candidato autárquico. «Houve reuniões com a Direção Nacional, mas ele nunca apresentou qualquer deliberação da concelhia sobre a sua escolha como candidato», diz Doutel, razão que levou o órgão máximo do partido a indicar o candidato por Ponte de Lima. Sendo militante do CDS-PP, ao concorrer em listas contrárias à do partido, Abel Baptista irá ser sujeito a ação disciplinar e «à pena de expulsão», conforme os estatutos do partido.

A direção do CDS assume uma posição dúbia: "Tendo tomado conhecimento da intenção de Abel Baptista apresentar a sua candidatura independente à CMPL, a direcção do CDS respeita essa vontade, embora a lamente", diz ao Expresso. E acrescenta mesmo, dando a entender que a expulsão poderá não ser o destino final do seu antigo deputado, uma vez ultrapassadas as autárquicas: "Abel Baptista tem um percurso de militância empenhada e competência no exercício de cargos partidários e públicos que merece reconhecimento e justifica o desejo que esse caminho possa ter continuidade para além da próxima disputa autárquica".

Aos 53 anos, «23 dos quais de serviço público sob a bandeira do CDS e mais de 30 de militância leal», Abel Baptista diz ainda que avança como independente por não concordar com a forma como os destinos da autarquia têm sido conduzidos. «Ponde de Lima estagnou e os únicos investimentos feitos são em largos, que têm sido um sorvedouro de dinheiros públicos». O ex-presidente da Assembleia Municipal de Ponte de Lima durante 12 anos terá, curiosamente, por lema principal da sua candidatura uma «política virada para as pessoas em detrimento do cimento, investindo na qualificação da população para minimizar o desemprego». Uma das suas apostas centrais será a dinamização das zonas industriais locais, «abandonadas pelo atual executivo». Afirmando-se um municipalista com grande ligação à terra onde nasceu, não tem dúvida que irá recolher as 2500 assinaturas indispensáveis à candidatura independente, não enjeitando apoiantes de outros partidos. «Esta é uma candidatura de cidadãos, sem olhar a cores partidárias», refere, garantindo que nunca abandonará o partido, mas que acatará a decisão caso venha a ser suspenso. Amigo de Nuno Melo, entre outros dirigentes do CDS-PP, garante que avança sem qualquer apoio de qualquer militante do partido.

Em julho, Assunção Cristas lamentou a renúncia do ex-colega de bancada, a quem se referiu como uma pessoa de extraordinário valor. Abel Baptista subscreve o projeto de lei do CDS que visa alterar a lei eleitoral autárquica, defendendo, tal como Rui Moreira, que as candidaturas independentes devem concorrer em situação de igualdade com as candidaturas partidárias, quer na apresentação das listas como na isenção de IVA. «Não faz qualquer sentido que por um factor imponderável não possam alterar a constituição das listas», diz. O Expresso tentou em vão contactar Victor Mendes, ausente da Câmara da vila mais antiga do país, num encontro de municípios com Centros Históricos.