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Política

Governo enganado 
por Merkel 
no apoio 
a Guterres

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Angela Merkel e Jean-Claude Juncker saíram claramente derrotados deste processo. A alemã apoiou a búlgara, que saiu temporariamente da equipa do presidente da Comissão para enfrentar Guterres

FOTO Yves Herman / reuters

Comissão Europeia tentou influenciar os 15 países do Conselho de Segurança

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

O Governo teve conhecimento de que a Comissão Europeia deu instruções aos seus representantes nas capitais dos 15 países membros do Conselho de Segurança para fazerem lóbi junto dos respetivos ministérios dos Negócios Estrangeiros a favor da candidata búlgara Kristalina Georgieva, que é vice-presidente da Comissão.

Ao que soube o Expresso, essa notícia chegou ao Governo português através de países amigos. Os atuais membros do Conselho de Segurança são, além dos cinco permanentes e com direito a veto (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), a Espanha, Ucrânia, Angola, Senegal, Egito, Nova Zelândia, Japão, Malásia, Venezuela e Uruguai.

Questionado diretamente pelo Expresso, o ministro Augusto Santos Silva negou conhecer tal informação, tendo-se limitado a afirmar que “ficaríamos muito surpreendidos se tal tivesse acontecido”. Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros, “sabemos que altos funcionários por sua iniciativa tomaram partido e criticamo-los por isso, não é uma atitude bonita”.

Independentemente das subtilezas diplomáticas que tal resposta indica, o Expresso sabe que é verdade e que a informação foi depois confirmada internamente. Aparentemente, o Governo não quer ir até às últimas consequências neste assunto. António Guterres acabou por ser o homem escolhido — por aclamação, um ato raro — pelos 15 membros do Conselho de Segurança e deverá ser eleito por votação na Assembleia Geral das Nações Unidas, possivelmente já na próxima quinta-feira.

A atuação da Comissão Europeia ter-se-á pois consumido a si própria. Kristalina Georgieva não foi eleita, pelo contrário, teve uma votação longe dos mínimos que alguns esperavam, deixando mal colocados aqueles que ao mais alto nível apostaram nela.

Fonte diplomática europeia comentava aliás ao Expresso que, se por um lado “era compreensível que alguns comissários e altos funcionários tivessem expressado publicado palavras de solidariedade e incentivo para com uma colega”, é de todo “inadmissível que o chefe de gabinete do Presidente da Comissão, Martin Selmayr, tenha tomado posição através do Twitter a favor da comissária búlgara, comprometendo Jean-Claude Juncker”.

A 10 de setembro, recorde-se, Selmayr escrevia no Twitter que se Georgieva for escolhida para a ONU, “será uma grande perda” para Bruxelas mas um “orgulho para os europeus”.
O Expresso sabe que o representante da Comissão Europeia em Washington também fez um tweet manifestando-se a favor de Georgieva, à boleia da posição assumida por Selmayr, mas essa sua declaração foi posteriormente apagada.

Contactado pelo Expresso, o porta-voz da CE, Margaritis Schinas. afirmou que a “Comissão não desempenhou nenhum papel no processo de seleção e não tinha nenhuma preferência relativamente aos candidatos”.

A vontade portuguesa de não criar ondas parece pois ir no sentido da “generosidade dos vencedores”. Pôr Guterres no pódio das Nações Unidas foi tarefa que durou oito meses e custou muito trabalho a um grupo de missão coordenada politicamente pelo próprio ministro dos negócios Estrangeiros e a secretária de Estado dos Assuntos Europeus e, do ponto de vista diplomático e operacional, pelos embaixadores José Freitas Ferraz, em Lisboa, e Álvaro Mendonça e Moura, em Nova Iorque (ver texto abaixo e a entrevista AQUI).

Como se montou a candidatura

Foi este grupo que delineou a estratégia, sempre articulada com o próprio António Guterres, que fez questão de fazer uma campanha pela positiva, transparente, tendo sido dos primeiros a apresentar a candidatura e informado sempre Portugal e os seus parceiros na UE, na CPLP e membros do Conselho de Segurança sobre os passos. “Dar a imagem de António Guterres como o candidato sereno, sobretudo a partir da primeira audição, consolidou muito a sua posição”, disse ao Expresso o ministro Santos Silva.

A maratona começou numa reunião alargada logo no primeiro dia do Seminário Diplomático, uma iniciativa anual do MNE, e que este ano teve lugar a 5 e 6 de janeiro, e onde Guterres foi, precisamente, orador convidado. “Foi um teste”, disse Santos Silva, que jantara com ele na véspera. Na reunião, onde participaram além do ministro e da secretária de Estado, o ex-ministro Luís Amado, os embaixadores Mendonça e Moura, Freitas Ferraz, Moraes Cabral, Francisco Duarte Lopes (diretor de Política Externa), Seixas da Costa e António Monteiro, entre outros, Guterres fez saber da sua disponibilidade.

A pergunta a ser respondida era: vale a pena? Concluíram que sim. Guterres considerou que as suas possibilidades de sucesso não deveriam ir além dos 20%, mas que valia a pena. Mais tarde, o PM concordou e todos os líderes políticos foram contactados.

Todos os 15 membros do Conselho eram importantes, mas para isso era preciso não “encostar ninguém à parede“. Nesse sentido, disse Santos Silva, “a nossa regra foi sempre compreender que o país poderia ter outro candidato, mas convencê-lo de que Guterres era a segunda melhor opção. Aconteceu com Espanha — que não podia deixar de dar apoio às candidatas da América Latina, ou mesmo a Rússia, que sempre nos disse que, embora preferisse alguém do Leste e mulher, aceitariam o nosso candidato”. “A Rússia sempre me disse que ‘nós reconhecemos em Portugal uma velha posição equilibrada’ e foi o que mais contou”, salientou.

Convencer China e EUA

Neste trabalho, a memória dos países é importante. A China não se esquecera da transição bem-sucedida de Macau, feita quando Guterres era PM e a deslocação à Ilha Terceira de Santos Silva, no mês passado, a cumprimentar o PM chinês que ali fez uma escala técnica, foi um gesto “muito apreciado”. Tal como tinha corrido bem a primeira conversa em Ulan Bator (Mongólia) na cimeira UE-Ásia, em julho. E, por fim, a China garantiu a Portugal que “seguiria a regra da votação, queremos o mais capaz. A partir daí deixou de ser um problema”, disse Santos Silva.

Quanto aos EUA, cedo as Necessidades perceberam que, havendo uma linha muito forte de apoio a uma candidata mulher, “ela não era do Leste”. Assim sendo, porque não Guterres? “Sempre nos disseram que ele era fantástico, e nós somos um aliado confiável, é mais fácil lidar com Lisboa do que com algumas capitais do Leste ou estruturas que uma vez apoiam uns, outra vez outros”, afirmou o ministro.

A França avançou, sempre esteve do lado português, e do Reino Unido só se sabe aquilo que é dito. E, segundo o ministro, este país pode ter apoiado a candidata Helen Clark mas também Guterres. “Nunca colocámos os países perante essa opção de escolha.

A estratégia resultou. O candidato português acabou por revelar-se como “global”, agradando a África, Ásia, América Latina, diz Santos Silva. “Foi uma candidatura diferente, uma candidatura global que as grandes potências podiam aceitar. E sem que Guterres esteja atado por qualquer compromisso”, garantiu. O que lhe permitirá, sem dúvida, uma muito maior liberdade e até legitimidade.

O trabalho com os restantes membros do Conselho de Segurança foi contínuo e persistente, mesmo com os aparentemente mais distantes. António Guterres foi o seu próprio embaixador, muitas vezes, e visitou o mais das vezes sozinho, todas as capitais dos 15. Como dizia o embaixador Mendonça e Moura, citado pelo ministro, “o nome de António Guterres vale mais do que o de Portugal”.

Tentando nunca reagir intempestivamente, a candidatura impôs-se logo na primeira votação, quando ficou claro que ele era um nome forte. E, finalmente, antes da 5ª votação, a penúltima, a task force resolveu acelerar. “Conseguido o objetivo intermédio, que era Guterres ter ficado sempre à frente consolidadamente, o nosso pedido deixou de ser apenas ‘votem no Guterres' mas ‘votem só Guterres’, conforme o país tinha ou não outros candidatos regionais em jogo”, explicou ainda o ministro.

O resultado foi esclarecedor e a sexta votação, já com Kristalina Georgieva, acabou por funcionar ao contrário. “Os membros do Conselho também sentem a pressão de mostrar resultados”, disse o embaixador. E a Rússia, perante aquele resultado (13 votos a favor) também ficou mais confortável para fechar logo o dossiê com o acordo de todos. De modo perverso para si própria, a intempestiva candidatura da segunda candidata búlgara acabou por atuar contra ela. E a favor de Guterres.

O centro de operações

Task-force. Foi aqui que (quase) tudo aconteceu. É a sala Franco Nogueira, o gabinete que Freitas Ferraz ocupa no Palácio das Necessidades por ser também diretor do Instituto Diplomático, e onde se reunia a equipa que apoiou Guterres

Task-force. Foi aqui que (quase) tudo aconteceu. É a sala Franco Nogueira, o gabinete que Freitas Ferraz ocupa no Palácio das Necessidades por ser também diretor do Instituto Diplomático, e onde se reunia a equipa que apoiou Guterres

Luís barra

A equipa de elite

Augusto Santos Silva e Margarida Marques
Do ponto de vista político, chefiaram a estrutura que foi criada para apoiar a candidatura de António Guterres.

Freitas Ferraz e Mendonça e Moura
O primeiro é diretor do Instituto Diplomático e o segundo embaixador de Portugal junto das Nações Unidas. Comandaram as operações de um ponto de vista diplomático-operacional.

Francisco Duarte Lopes e Miguel Graça
O diretor-geral de Política Externa e o diretor dos serviços de Organizações Políticas Internacionais faziam parte da equipa que se reunia todas as terças-feiras.

Jorge Aranda e Isabel Pestana
Pertencem à assessoria diplomática, respetivamente, do primeiro-ministro e do Presidente da República e serviam de ponte para António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa.

David Damião
É assessor de imprensa de António Costa e desempenhou o mesmo cargo quando Guterres era primeiro-ministro. Participou em todas as reuniões de coordenação.