Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Freitas Ferraz: “Campanhas agressivas foram um grande erro”

  • 333

luís barra

José Freitas Ferraz, coordenador diplomático da estrutura de missão de António Guterres

Luísa Meireles

Luísa Meireles

texto

Redatora Principal

Luís Barra

Luís Barra

foto

Fotojornalista

luís barra

Os embaixadores José Freitas Ferraz, em Lisboa, e Álvaro Mendonça e Moura, em Nova Iorque, foram as batutas que conduziram a pequena orquestra (a task force) da diplomacia portuguesa que levará Guterres a secretário-geral da ONU. José Freitas Ferraz garante que “não houve compromissos assumidos” por Guterres e que ninguém lhos pediu.

Foi uma campanha difícil?
Foi uma campanha feita sempre pela positiva, por instruções e desejo do próprio engenheiro Guterres, que o quis, não vendo os adversários como inimigos, e por outro também não quis que se reagisse a atitudes mais duras ou críticas a nível internacional.

Mas havia alguns que ele temia mais...
Há oito meses, quando partimos para a campanha, ele próprio disse que pensava que as suas possibilidades eram de cerca de 20%. Não sendo apoiado por nenhuma grande potência, desde o princípio percebemos que ele tinha a capacidade de se tornar o candidato do compromisso final.

Reunindo o voto positivo de todo o Conselho de Segurança?
Numa altura em que a estrutura oficial da ONU é posta em causa, existe por parte dos membros do CS a necessidade de mostrar resultados em questões concretas. Isso jogou a favor dele.

Falou-se com que países?
Muitos, porque tínhamos em conta que Guterres era já muito conhecido pelos decisores internacionais, por ter sido primeiro-ministro durante seis anos e ter estado à frente do ACNUR dez. Estes interlocutores sabiam, porque o mundo é pequeno, que ele tem uma enorme capacidade para fazer pontes.

Neste oito meses não houve fugas...
A task force era uma estrutura muito ligeira, composta por representantes do gabinete do PM, do PR, do MNE, o diretor dos serviços de organizações multilaterais e o diretor-geral de Política Externa. Tinha uma geometria variável, iam buscar-se as pessoas de que se necessitava no momento, sempre em articulação com as nossas embaixadas nos 15 países do CS, o que permitia analisar quase diariamente e tomar as medidas adequadas.

Os outros candidatos cometeram erros?
Um dos grandes erros foi terem feito campanhas públicas muito agressivas, usando o Twitter quase de hora a hora. É uma arma de dois gumes porque cansa e pode ser perigoso.

Uma campanha low profile, portanto?
Sim, porque nos dirigíamos essencialmente a um eleitorado de 15 países e 15 representantes permanentes. Não havia necessidade e até seria desaconselhável fazer uma campanha com um perfil muito forte e global.

A entrada em cena de Kristalina Georgieva foi uma surpresa?
Ninguém sabia.

Como viu a atitude da Alemanha e do presidente da Comissão Europeia?
Como o engenheiro Guterres diz, “sempre pela positiva”.

Estavam tranquilos?
Sim. Na realidade, infelizmente, em termos de Nova Iorque e numa perspetiva internacional, a Europa não é assim tão grande nem pesa tanto.

A Europa não existiu neste processo.
Nem tinha de existir.

Mas ao fim de muitas décadas a Europa podia ter um candidato.
E nós apresentámos um candidato europeu, e a Europa ganhou.

Muitos consideram a ONU uma estrutura caduca.
Mas é a estrutura a que todos recorrem. Todos os países têm interesse em voltar a dar uma nova dinâmica e nova centralidade a essa estrutura. Lendo a imprensa internacional, anglo-saxónica e asiática, vê-se que existe uma enorme esperança pela tomada de posse de António Guterres.

Houve compromissos para a sua eleição?
Da nossa parte não. E na realidade isso não lhe foi pedido, ele não foi confrontado com esse tipo de pedidos.

Qual foi o momento mais importante neste processo?
A primeira votação. Vimos logo ali o grande apoio que tinha e que depois foi confirmado sistematicamente em todas as outras. Percebemos que ele era o único candidato no qual o Conselho de Segurança demonstrava verdadeiro interesse.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 8 de outubro de 2016

  • O programa de Guterres: tornar a ONU “mais eficiente”

    António Guterres candidatou-se ao lugar de secretário-geral da ONU com um programa em que promete reformar e inovar a instituição, com transparência, prestação de contas e supervisão. Além disso quer pô-la a comunicar “de maneira a que toda a gente entenda”

  • Os números das Nações Unidas

    António Guterres foi aclamado como secretário-geral das Nações Unidas (ONU). Em breve, sucederá Ban Ki-moon na liderança de uma das maiores organizações internacionais. É a primeira vez que um português o consegue tal projeção. Mas afinal o que é e o que faz a ONU? Sabia que Portugal é um dos candidatos a um lugar no Conselho de Segurança para daqui a 11 anos? E que a ONU tem seis línguas oficiais (nenhuma delas português)?