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Costa: “Não queremos fragilizar 
a Comissão”

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Bernd von Jutrczenka / Reuters

Governo sentiu-se traído por Merkel, depois de a chanceler alemã ter garantido que nada faria contra candidatura de Guterres

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

O Governo português sentiu-se traído por Berlim no apoio a António Guterres. A chanceler Angela Merkel garantiu que não faria nada contra a candidatura do ex-primeiro-ministro português ao cargo de secretário-geral da ONU e, finalmente, terá pressionado alguns líderes, entre os quais o Presidente russo, bem como a Comissão Europeia, para que apoiassem um concorrente, soube o Expresso de fontes governamentais.

O primeiro-ministro, António Costa, disse no entanto ao Expresso que não tomará nenhuma atitude nem pedirá explicações à Comissão.

“A derrota da candidata Kristalina Georgieva foi muito dura e não queremos contribuir para fragilizar a Comissão e em especial o seu Presidente, que é um grande amigo de António Guterres, tem tido uma excelente relação comigo e está sob fogo da ala negra do PPE. Compreendemos que estava muito condicionado e nada faremos que o fragilize. Tudo faremos para que Juncker e a Comissão possam sentir esta vitória como sua, precisamos de uma Comissão fortalecida”, declarou.

A posição do primeiro-ministro não é seguida por alguns membros do Executivo, que expressaram o seu desagrado pelo apoio mais ou menos explícito dado à candidata búlgara e vice-presidente da Comissão, que pediu um inédito mês de licença sem vencimento para se preparar. “A União Europeia mostrou que não tem peso no mundo e a Alemanha viu recordado que a ONU nasceu da sua derrota”, ouviu o Expresso.

A atitude alemã desorientou os analistas, que se dividem entre considerar “como demasiado amadorismo para uma diplomacia tão experiente” ou, pelo contrário, “um ato deliberado de uma potência que pôs os seus interesses à frente dos demais e quis fazê-lo segundo as suas próprias regras”. Seja como for, é sabida a importância que a Alemanha dá à “frente leste” e a particular atenção que uma candidatura feminina teria da parte de Angela Merkel.

A situação é mais delicada relativamente à Comissão Europeia, na medida em que, ao dar relevo à candidatura da sua vice-presidente, pôs em causa os demais membros da União Europeia, e não só Portugal, que tinham apresentado candidatos. Independentemente da atitude “inconcebível” do chefe de gabinete de Jean-Claude Juncker, no dizer do embaixador Francisco Seixas da Costa, o próprio presidente da Comissão ajudou a promover a candidata ao levá-la à cimeira UE-Rússia, convidando-a para estar presente no encontro com o Presidente Vladimir Putin.

“A utilização da máquina europeia nessa promoção resultou numa trapalhada e deu um péssimo sinal aos outros Estados, dentro e fora da União Europeia“, afirmou um embaixador ao Expresso.

Seja como for, Juncker enviou na quinta-feira uma missiva de felicitações a Guterres, desejando-lhe os maiores êxitos. “O facto de ter emergido como a escolha unânime do Conselho de Segurança das Nações Unidas, depois de um processo de seleção com uma transparência sem precedentes, representa um enorme triunfo pessoal e o reconhecimento da sua longa experiência em gerar consensos no domínio dos assuntos internacionais”.

Assunto arrumado

Mas, para Costa, o assunto está arrumado. A alegria de ver Guterres ser escolhido para secretário-geral era patente na quarta-feira passada, quando foi anunciado o resultado da sexta votação e a posição inequívoca do Conselho de Segurança. O primeiro-ministro recebeu a notícia de imediato, dada pelo embaixador junto das Nações Unidas, Álvaro Mendonça e Moura, quando inaugurava as novas instalações da Junta de Freguesia de Marvila.

“O sr. embaixador pode estar tranquilo que o seu próximo posto será no Vaticano”, disse-lhe Costa ao telefone. “Depois de ter feito eleger um presidente da Comissão Europeia [Mendonça e Moura estava em Bruxelas em 2004] e, agora, um secretário-geral das Nações Unidas, só lhe falta um Papa”, afirmava um bem disposto António Costa, não sem ressalvar que “a candidatura só será apresentada mais tarde porque este Papa é muito bom”.

Presente no tradicional jantar socialista do 5 de Outubro em Alenquer, António Costa faltou ao jantar de festejo nesse mesmo dia em casa de Guterres, que reuniu amigos chegados e família e um convidado inesperado: o próprio Presidente da República, que tocou simplesmente à campainha e se juntou à celebração.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 8 de outubro de 2016

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