Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

A noite que mudou a vida de Guterres

  • 333

Em dezembro de 2001, após a audiência com Sampaio, António Guterres justifica a sua demissão, para evitar que o país “caia num pântano”

ana baião

A surpresa foi total e absoluta: no PS, no Governo, na Presidência da República, no país. Na noite das eleições autárquicas de 16 de dezembro de 2001, perante a dimensão da derrota, António Guterres demitiu-se de primeiro-ministro do XIV Governo. Livre do partido e do executivo, passou a dedicar-se por inteiro à política externa. Primeiro como presidente da Internacional Socialista, depois como alto-comissário para os refugiados, agora como secretário-geral da ONU

A noite das eleições autárquicas de 16 de dezembro de 2001 é devastadora para o PS. As notícias que chegam à sede nacional do Largo do Rato, onde está o secretário-geral e primeiro-ministro, António Guterres, são as piores possíveis. Há perdas por todo o lado. Incluindo três câmaras emblemáticas: no Porto, Rui Rio derrota Fernando Gomes; Fernando Seara conquista Sintra a Edite Estrela; e, pior que tudo, Santana Lopes ganha Lisboa à coligação de esquerda, no poder desde a vitória de Sampaio sobre Marcelo Rebelo de Sousa em 1989 e que agora é liderada por João Soares. “De cada vez que perdíamos uma câmara importante o Guterres chamava-me”, conta Ferro Rodrigues, que além de ministro integra o secretariado do partido. No quartel-general do PS o ambiente é gelado. Os resultados ultrapassam as estimativas mais pessimistas.

Um empate parlamentar a 115

Guterres aproveitara o fim-de-semana de reflexão para, ele próprio, fazer um balanço dos seus seis anos no governo. Mais exactamente: dos últimos dois, em que o executivo se vinha arrastando de forma penosa. Apesar de vitoriosas, as legislativas de Outubro de 1999 haviam sido decepcionantes. Ainda que minoritário, o balanço do primeiro governo de Guterres (1995-1999) não deixara de ser positivo. Não só completara a legislatura – só por si um feito histórico na democracia portuguesa -, como permitira perspectivar a maioria absoluta. Guterres acreditara genuinamente que o eleitorado pela primeira vez daria uma maioria absoluta ao PS.

Já nas eleições para o Parlamento Europeu, em Junho de 1999, a lista do PS, encabeçada por Mário Soares, alcançara um resultado encorajante: 43,1%. Mais um nadinha e seria a maioria absoluta. Só que, apesar de folgada (44,06%), a vitória nas legislativas redundara num inédito empate parlamentar: 115 deputados do PS, 115 dos restantes partidos, onde se estreara o Bloco de Esquerda, que conseguira eleger dois deputados – roubando aos socialistas a maioria absoluta.

“Quem no visse” na noite das eleições – recordará o então ministro Joaquim Pina Moura – “parecia que tínhamos perdido”. Jorge Coelho, por sua vez, atesta que Guterres “ficou muito traumatizado com o resultado”. Em Belém, o Presidente Jorge Sampaio comentara o inopinado empate parlamentar: “Vai ser uma tragédia”.

O orçamento de Estado por um queijo Limiano

O primeiro semestre de 2000 fora dedicado por inteiro à presidência portuguesa da União Europeia, durante a qual Guterres somara êxito atrás de êxito, sempre desvalorizados internamente. Farto de críticas, desabafara para Sampaio: “O país zangou-se comigo”, reconhecendo que “tem de se reconciliar com as pessoas”. De regresso à política caseira, os problemas avolumaram-se. A começar pelo sempre problemático orçamento de Estado.

O primeiro-ministro, António Guterres, é recebido no Palácio de Belém pelo chefe da Casa Civil, embaixador Moraes Cabral

O primeiro-ministro, António Guterres, é recebido no Palácio de Belém pelo chefe da Casa Civil, embaixador Moraes Cabral

Ana Baião

Os cinco anteriores orçamentos haviam sido viabilizados pela abstenção de um dos partidos da direita: dois pelo CDS-PP e três pelo PSD de Marcelo Rebelo de Sousa. Só que, à frente dos sociais-democratas passara a estar Durão Barroso, apostado numa tenaz oposição a Guterres e desejoso de celebrar com o CDS de Paulo Portas uma coligação capaz de constituir uma alternativa a prazo aos socialistas.

Sabendo que os 115 deputados da bancada rosa eram insuficientes para aprovar o Orçamento, em São Bento exploraram-se todas as hipóteses capazes de levar pelo menos um deputado da oposição a abster-se. O governo sentara-se à mesa com quase todos: centristas, bloquistas, verdes, comunistas, chegando até a explorar o cenário de uma dissidência no PCP, liderada por João Amaral. Todos os esforços fracassaram, com todas as oposições à esquerda obstinadas em recusar qualquer chance ao executivo.

A salvação viera de um autarca do CDS, o presidente da câmara de Ponte de Lima, Daniel Campelo. Mediante um acordo com o governo, que incluía “o apoio financeiro à criação de uma nova fábrica de queijo Limiano”, Campelo voltara a vestir a pele de deputado e, com a sua abstenção, viabilizara a aprovação de dois orçamentos sucessivos: o de 2001 e o de 2002.

Duas remodelações em quatro meses

O próprio Governo, que na anterior legislatura se revelara sólido e coeso, começara a meter água um pouco por todo o lado. Sucederam-se os casos. O primeiro fora o escândalo das chamadas “viagens-fantasma” de deputados, a partir do desdobramento de bilhetes de avião, e que salpicara vários governantes.

Bem mais graves foram as demissões dos ministros Fernando Gomes (na Administração Interna), afastado pelo próprio Guterres, e Armando Vara (na Juventude e Desporto), envolvido na criação da polémica Fundação para a Prevenção Rodoviária, arrastando consigo o secretário de Estado Luís Patrão, ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro.

No final da última audiência como chefe do Governo, o Presidente da República, Jorge Sampaio, despede-se de Guterres na presença dos jornalistas

No final da última audiência como chefe do Governo, o Presidente da República, Jorge Sampaio, despede-se de Guterres na presença dos jornalistas

Ana Baião

A queda da ponte de Entre-os-Rios, em Março de 2001, fora outro marco na curva descendente do executivo. Não apenas pelos 59 mortos, mas pela auto-demissão do ministro da tutela, Jorge Coelho. “A culpa não pode morrer solteira”, justificara-se. Guterres sentira a perda como ninguém. Já no anterior governo ficara sem o seu braço direito – o ministro António Vitorino, que se demitira por causa de um problema de ordem fiscal. Agora era a vez de Coelho, o ministro em quem mais confiava e onde ia buscar alguma da força anímica que lhe escasseava. A remodelação era inevitável. A 10 de Março foram substituídos dez governantes, com Jorge Coelho a dar lugar no Equipamento Social a Ferro Rodrigues. Inquieto, Sampaio não deixara de anotar: “os equilíbrios no Governo e no PS estão destruídos”, uma vez que “deixou de existir” o “interface” entre ambos.

Quatro meses depois, nova remodelação, envolvendo os titulares de quatro ministérios, alguns deles importantíssimos, como Saúde, Defesa Nacional e Finanças. Para a Defesa entrara o ex-CDS Rui Pena, o sexto ministro da era Guterres. As Finanças, pasta decisiva, passara a ser acumulada pelo ministro da Presidência, Guilherme d’Oliveira Martins. Era um sinal claro de esgotamento da equipa de que Guterres se rodeara. “O desgaste é maior do que pensava”, confidenciara o primeiro-ministro a Sampaio no dia da remodelação.

Um vice-primeiro-ministro para preparar a sucessão

No partido, Guterres fora reeleito no congresso de Maio de 2001. Um congresso sem história, o que era enganador. Nas margens do partido começara a respirar-se o ar próprio do fim de ciclo, com os media inundados por críticas em surdina e nunca identificadas. Excelente analista, José Medeiros Ferreira chegara a sugerir a Sampaio que deveria “obrigar” Guterres “a ter um vice-primeiro-ministro”, por forma a preparar a sucessão. Vitor Constâncio fora o nome avançado durante um almoço em Belém, a 11 de Setembro - e interrompido pelo ataque terrorista às torres gémeas de Nova Iorque.

Conhecedor como poucos do seu partido, Guterres estava cada vez mais agastado: com parte da direcção e do grupo parlamentar. A propósito do segundo “orçamento limiano” e de um controverso diploma sobre alcoolemia, chegara a queixar-se a Sampaio que ter sido alvo de “um assassinato de caracter”.

A noite eleitoral no Rato e em Belém

Fora neste ambiente, tenso e denso, que Guterres fizera a campanha autárquica, com o denodo e o voluntarismo habituais. Se até antevia um mau resultado, as informações que chegam ao Rato ao princípio da noite de 16 de dezembro não cabiam nas suas previsões. A derrota é em toda a linha, com o PS a ser suplantado pelo rival PSD como principal partido: 142 câmaras laranja, contra 113 rosa. Caem em catadupa outras capitais de distrito socialistas: Bragança, Coimbra, Leiria, Viseu, Vila Real, Portalegre e Faro para o PSD, Setúbal para a CDU. Barroso é o incontestável vencedor da noite, acompanhado de Santana.

Guterres fala aos jornalistas, justificando o pedido de demissão, após a derrota do PS nas eleições autárquicas da véspera

Guterres fala aos jornalistas, justificando o pedido de demissão, após a derrota do PS nas eleições autárquicas da véspera

ana baião

Em Belém, também Sampaio acompanha o desenrolar da noite eleitoral. Na sala do Conselho de Estado, o Presidente e numerosos conselheiros seguem, por várias televisões, o evoluir dos resultados. Montados de propósito, dois telefones facilitam as ligações a sedes partidárias e a presidências de câmara. Especialmente ativo está o assessor para assuntos regionais, Pedro Reis: “Devo ter falado com quase todos os presidentes de câmara durante a noite.”

O telefone tocou três vezes

São cerca das oito da noite quando vem uma chamada especial. É o secretário-geral do PS, no primeiro de três telefonemas. A pedido de Sampaio, um seu colaborador faz um breve resumo por escrito. Guterres dá conta que “os resultados serão bastante piores do que os que ele previra”. Calcula uma queda global do PS “da ordem dos 4% de votos” e deixa antever que irá “tomar uma decisão em função destes resultados”.

Com os números todos a pender no mesmo sentido, a desilusão de Guterres é crescente. A que se soma o cansaço, físico e psicológico. A vontade de se demitir, que já aflorara mais que uma vez, ganha contornos de decisão – inabalável à medida que caem mais e mais municípios rosa. Na ala reservada da sede socialista, comunica a intenção de se demitir a um grupo restrito de dirigentes. “A decisão apanha de surpresa Almeida Santos, Jorge Coelho, Jaime Gama, Ferro Rodrigues, António José Seguro, Vera Jardim, António Costa e António Vitorino. Ficam atónitos” – escreve Adelino Cunha, na sua biografia de Guterres. Todos o tentam demover. “Deixei de ser parte da solução para me tornar parte do problema”, argumenta, inflexível.

Também Mário Soares o procura dissuadir. “Falei de imediato, pelo telefone, dando-lhe o meu exemplo”, escreveu na sua autobiografia. “Também perdi eleições autárquicas e nem por isso me demiti. Ninguém, aliás, exigiu que o fizesse.” O mesmo lhe dirá o amigo José Maria Aznar, primeiro-ministro de Espanha. “Insisti com ele em como, depois de umas eleições municipais, um presidente do governo não se demite nem tem motivo para se demitir”, escreveu Aznar nas suas memórias. “Tive a sensação de que estava à procura de começar uma nova etapa da sua vida”.

Guterres abandona o Palácio de Belém, após ter formalizado a sua demissão

Guterres abandona o Palácio de Belém, após ter formalizado a sua demissão

Ana Baião

São cerca das 23.30h quando Guterres volta a telefonar. Manifesta a “intenção de se demitir” e exclui a hipótese de apresentação de uma moção de confiança ao parlamento. Pergunta se o Presidente “encararia a permanência do atual executivo”. Sampaio responde: “a situação sofrera uma profunda alteração” e “as coisas não poderiam ficar na mesma”, mostrando-se “aberto a que se procurassem outras formas de sustentação parlamentar do Governo, que ultrapassassem a atual situação de bloqueio”.

O último telefonema é já depois da meia-noite. Guterres limita-se a transmitir que “uma solução destinada a alargar a base de sustentação parlamentar do Governo merecera oposição dentro dos órgãos dirigentes do PS”.

Evitar que o país “caia num pântano político”

Nem meia hora depois, Guterres fala ao país. Reconhecendo a derrota, anuncia que irá apresentar ao Presidente o pedido de demissão de primeiro-ministro, para evitar que o país “caia num pântano político”. Exclui a hipótese da moção de confiança, uma vez que “não contribuiria para o necessário restabelecimento da confiança entre governantes e governados”.

Horas depois, numa audiência em Belém, Guterres formaliza o pedido de demissão. Diz que “não tem ambições” e que a sua decisão “o tranquiliza”. Argumenta: “Uma alternativa de derrotados seria mau para a democracia e para o Presidente”.

A dissolução da Assembleia é inevitável e consensual, como o confirma, unânime, o Conselho de Estado. Às eleições antecipadas, de março de 2002, o PS concorre com um novo líder – Ferro Rodrigues -, mas a vitória sorri, com naturalidade, ao PSD de Durão Barroso, que não perde tempo a formar governo com o CDS de Paulo Portas.

O gosto pela política externa

Encerrado o ciclo político no país, Guterres vira-se para o estrangeiro. Aliás, a política externa já vinha consumindo muitas das energias e do tempo do primeiro-ministro, o que suscitara frequentes reparos por parte dos media, das oposições e até nas fileiras governamentais.

Conhecer mundo sempre o atraíra, mesmo quando não tinha quaisquer responsabilidades, planeando com tempo e detalhe as suas incursões anuais fora de portas, durante as férias de verão. Mais tarde, enquanto líder parlamentar ou secretário-geral, sempre que podia, tomava um avião para participar em congressos, conferências, colóquios, ou simples encontros bilaterais com outros partidos socialistas e sociais-democratas.

Nos seis anos de governo, marcara presença nas cimeiras anuais da comunidade ibero-americana, bem como nas iniciativas da CPLP, que nascera formalmente em 1996, em Lisboa. Sabendo que os laços políticos se reforçam com momentos de pausa e lazer, fora, juntamente com Sampaio, um exímio mestre de cerimónias durante os meses de festa da EXPO 98, em que passaram por Lisboa centenas de líderes políticos estrangeiros.

União Europeia, Internacional Socialista e Timor

Em 1999, António Vitorino fizera um périplo por várias capitais, para avaliar das chances de Guterres ascender a presidente da Internacional Socialista. Mas porque não da Comissão Europeia? – fora a sugestão alternativa que Vitorino ouviu amiúde. A demissão do belga Jacques Santer abrira uma grave crise em Bruxelas e os olhos das lideranças comunitárias viraram-se para o português. Um Conselho Europeu, realizado na Alemanha, exprimira-lhe o seu apoio – e o mesmo fizera Sampaio, que o encorajara a aceitar o cargo. Em sentido contrário remara Jorge Coelho: “Achava que não deveria ir, que ainda tinha muito a dar ao país”, disse ao seu biógrafo, Fernando Esteves. Sentindo que devia manter-se fiel ao contrato que firmara com o eleitorado, decidira continuar em São Bento. Aceitara, no entanto, a presidência (muito menos exigente) da Internacional Socialista, enquanto para a Comissão Europeia avançara o italiano Romano Prodi.

Meses depois, empenhara-se, de alma e coração, com o ministro dos Negócios Estrangeiros e o Presidente da República, na batalha pelo referendo e independência de Timor-Leste. Entre Guterres, Gama e Sampaio fez-se o que este designou de “uma divisão do mundo a três”, encarregando-se o primeiro de contactos decisivos com Tony Blair e Bill Clinton, sobretudo para a convocação urgente do Conselho de Segurança, única instituição capaz de pôr cobro à violência indonésia.

No primeiro semestre de 2000, a presidência portuguesa da UE marcara a consagração de Guterres no plano europeu. Não fora só a forma hábil, competente e dialogante do seu desempenho. Foi também a ambiciosa Agenda de Lisboa e a primeira cimeira entre a União Europeia e África, no Cairo.

A ACNUR e o salto para secretário-geral

Uma vez fora do governo, António Guterres tem todo o tempo e liberdade para se dedicar à Internacional Socialista, onde consolida e alarga o seu prestígio, tecendo uma rede de contactos nos cinco continentes. A ponto de merecer a confiança do secretário-geral da ONU, Kofi Annan – com quem trabalhara intensamente na duríssima peleja timorense -, para Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Escolhido, de um lote de oito fortíssimos candidatos, é consagrado pela Assembleia Geral a 15 de Junho de 2005. Onze anos depois, o seu nome vota a ser aclamado para o cargo mais importante da sociedade das nações.