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O dia em que Marcelo conheceu os mais belos das Forças Armadas

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Jose Carlos Carvalho

Em três distintas partes se dá notícia da primeira visita de Marcelo Rebelo de Sousa aos Fuzileiros e se revela, em rigoroso exclusivo, por que razão se autointitulam os mais belos das Forças Armadas

I PARTE – Uma perturbadora pontualidade

Quis São Pedro e os Santos que a primeira visita do atual comandante supremo das Forças Armadas aos Fuzileiros fosse brindada com um dia de verão em pleno outono. Jamais será de somenos sublinhar o estado do tempo porque, como haveremos de ver, se a chuva tivesse dado um ar de sua graça, muito poucos teriam ficado com vontade de rir, pelo que a seguir se verá. Claro que não estamos a falar dos militares, sabido que chuva civil não os molha, muito menos aos fuzos habituados a evoluir no mais fino lodo, como também veremos. Mas comecemos pelo princípio.

6 de outubro de 2016. 10h59. Demonstrando uma perturbadora pontualidade britânica em gentes pouco habituadas a cumprir horários – e claro que não estamos a falar dos militares – chegou Marcelo Rebelo de Sousa à Escola de Vale de Zebro, onde desde 1961 gerações de homens conquistaram a tão ambicionada boina azul ferrete. A recebê-lo, como não podia deixar de ser tratando-se de uma visita oficial, guarda de honra e as mais altas individualidades civis e militares. Manda o protocolo que o comandante supremo saúde a dita guarda. “Apresentar arma! Ombro arma!” Siga a visita.

E assim foi, sem demoras, porta de armas adentro para uma não menos protocolar e solene revista às tropas na parada devidamente antecedida pelo hino que os Fuzileiros e o seu comandante supremo interpretaram com sentimento. Mas quando Marcelo, acompanhado do seu ajudante de campo e do capitão de mar-e-guerra que por estes dias comanda a dita escola subiram à viatura todo o terreno para cumprir com as suas obrigações, já a banda da Marinha tocava “Liberty-bell”. Mas será ao ritmo da muito conhecida “Marcha dos Marinheiros” que muitos destes homens hão de deixar a parada. E quando restar, tão somente, o Batalhão de Fuzileiros n.º 2, já a banda estará em silêncio para que possamos escutar o que se segue. Ora espreite o vídeo… São escassos 30 segundos.

II PARTE – Biscoito, guerra e lodo

Se dúvidas tivesse sobre a origem da beleza dos marinheiros, o que comiam seus antepassados nas longas travessias oceânicas ou o que pode provocar uma guerra entre fuzos, sobre tudo isto (e muito mais) terá o comandante Marcelo ficado cabalmente esclarecido durante a ainda que breve mas reveladora visita ao Museu do Fuzileiro. Comecemos pelo fim, para variar.

74. Eis o número de fuzileiros mortos em combate durante a Guerra Colonial, a última em que estes homens registaram baixas: 12 em Angola, 12 em Moçambique e 50 na Guiné. O mais duro dos teatros. Desde então que “não morre ninguém”, conta o cabo fuzileiro Pinto, que com uma contagiante boa disposição tomou de assalto a atenção do comandante e de quem mais quisesse ouvir as histórias da História. Mas, afinal, o que pode por estes dias deixar os fuzos em estado de Guerra? Camarão e cerveja, revela o cabo Pinto. Era bem menos apetecível a ementa daqueles que durante séculos cruzaram os oceanos ao serviço de sua majestade.

Biscoito. De doce nada tinha o pão em forma de roda espalmada, feito apenas de farinha e água, duas vezes cozido para poder aguentar os dias passados à mercê de ventos e marés. Conta o cabo Pinto que este biscoito “grande e horrível”, “extremamente duro de comer”, tornava-se ainda mais difícil de engolir à medida que o tempo passava. Transportado em barricas nos porões, era coberto com peixe que ao entrar em decomposição criava “morcões”. E para cada marinheiro, incluindo os do fuzil, tudo o que havia para comer nesses dias da graça de Nosso Senhor eram 400 gramas de biscoito. Por dia. Amém.

Mas, afinal, porque se consideram os fuzileiros, modéstia à parte, os mais belos das Forças Armadas? Porque são os únicos que têm um “SPA com banhos de lama”, volta a revelar o cabo Pinto. Onde? Em Vale de Zebro, pois então. Foi aqui, onde já tinham sido construídos os moinhos de maré que transformavam o cereal em farinha e os fornos que coziam os biscoitos, que também haveriam de encontrar “o lodo mais fino para preparar os homens para a guerra”, conta o cabo Pinto ao seu comandante supremo - que dali a pouco há de ver in loco um grupo de instruendos em plena sessão de tratamento. Ora espreite as fotos que se seguem…

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III PARTE – Ao assalto!

Impressionado e agradecido: assim estava Marcelo Rebelo de Sousa depois de percorrer a exposição estática que tinha à sua espera quando deixou a pista de lodo, de boa e má memória para tantos fuzileiros. Muito armamento, botes, lanchas e material de reconhecimento para comandante supremo ver. Mais ação só depois de almoço.

“Pelotão operacional, em sentido! À vontade”, escutou-se no preciso momento em que o Presidente se aproximou dos homens formados e treinados para serem projetados do mar para terra - mas também do ar, ou não estivessem por aqui uma das unidades “mais treinadas e qualificadas das Forças Armadas”. Foi assim que o homem que comanda o Destacamento de Ações Especiais (DAE) o apresentou ao comandante supremo. “Todos os operacionais são mergulhadores e paraquedistas e trabalham com todas as aeronaves portuguesas e com os submarinos e estão sempre em estado de prontidão. No ano passado tivemos cinco ativações reais.” E mais não pode dizer o comandante do DAE ao seu comandante supremo com tanto jornalista por perto. Informação classificada.

“É impressionante esta autossuficiência”, comentou Marcelo Rebelo de Sousa, depois de também ter ficado a conhecer as unidades de polícia naval, de meios de desembarque e o pelotão de abordagem – do Batalhão de Fuzileiros n.º 1 –, bem como os módulos de reconhecimento e de apoio de fogos, das três forças de fuzileiros que compõem o Batalhão de Fuzileiros n.º 2.

Ainda antes de almoço, mas já depois da tradicional foto de família, Rebelo de Sousa enfrenta os jornalistas para agradecer aos Fuzileiros “em nome dos portugueses”. “A sua presença, por exemplo, em África, e as missões cumpridas nos últimos anos são altamente prestigiantes para as Forças Armadas e para Portugal. E na primeira vez que o Presidente da República vem aqui aos Fuzileiros, ele tem a obrigação de agradecer”, declarou solenemente.

Já com o almoço a bordo e duas prendas na bagagem – um bote em miniatura e uma boina azul ferrete – seguiu Marcelo Rebelo de Sousa rumo ao navio-escola Sagres, atracado no Alfeite, onde haveria de reunir com o conselho superior de Defesa Nacional. De casaco impermeável vestido e colete salva-vidas ao pescoço, o comandante supremo deixa a Escola de Fuzileiros a bordo de uma de Lancha Anfíbia de Reabastecimento e Carga que há de trocar já em pleno estuário do Tejo pela lancha de assalto rápido do DAE. E a voar sobre as águas – espreite o vídeo que se segue, também é curtinho – ainda assiste de cadeirinha a um desembarque de quase 80 fuzos na praia de Alburrica, junto à estação fluvial do Barreiro, e à tomada de assalto de uma embarcação em pleno rio. O melhor estava mesmo guardado para o fim…