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As eleições que não preocupam nem Costa nem Passos Coelho

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Nuno Botelho

Há regionais nos Açores dia 14: a reeleição de Vasco Cordeiro é certa. A maior incógnita é a dimensão da derrota do PSD

Estêvão Gago da Câmara

Correspondente nos Açores

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Os líderes nacionais do PS e do PSD passaram pelos Açores na pré-campanha mas, nestas duas semanas que antecedem as eleições regionais (marcadas para dia 14), nem vê-los pelas ilhas. António Costa e Pedro Passos Coelho foram “dispensados” pelos respetivos partidos, mas os próprios também não terão feito particular finca-pé para se envolverem mais do que o estritamente necessário.

Os resultados eleitorais são previsíveis: o PS, liderado por Vasco Cordeiro, deverá manter-se de pedra e cal (isto é, com maioria absoluta) no governo regional. A maior dúvida é a dimensão da derrota do PSD presidido por Duarte Freitas: conseguirá superar os 33% obtidos há quatro anos ou, pelo contrário, nem aí chegará? As sondagens têm sido desencorajadoras e o estado anímico do partido — que, 30 anos depois, ainda não conseguiu superar a orfandade de Mota Amaral — não faz prever um desfecho muito feliz. A presença de Costa — que tem a agenda intensa de um primeiro-ministro — não acrescentaria nenhuma mais-valia a Cordeiro. E finais pouco felizes é tudo o que Passo Coelho menos precisa, numa fase em que a sua liderança do PSD já conheceu melhores dias. Ausências justificadas, portanto.

Nos antípodas está Assunção Cristas. Quando a campanha a terminar, a presidente do CDS terá ido dez vezes às ilhas, as últimas três já durante o período oficial de campanha. Estas são as primeiras eleições da sucessora de Paulo Portas — ele próprio assíduo visitante do arquipélago —, que fez questão de um empenho total. Consciente do simbolismo de um bom resultado, apostou que o CDS conseguirá mais do que os 5,7% de 2012. E jogou as fichas todas em Ana Afonso, a cabeça de lista por São Miguel (ilha onde, há quatro anos, o CDS não conseguiu eleger um deputado e onde praticamente não tem estrutura local), uma engenheira civil que só pertence ao partido desde o início deste ano. Os resultados dirão quanto valeu a quase constante participação da líder nacional. Se forem bons, Cristas consolida uma liderança que precisa de todos os sinais possíveis nesse sentido. E se o êxito correr a par do fracasso do PSD neste processo eleitoral, tanto melhor: o CDS fica com melhores condições para negociar alianças eleitorais com os sociais-democratas para as autárquicas, nomeadamente nas ilhas. Se forem maus, a coisa fia mais fino: os críticos de Cristas (que têm estado silenciosos) não perderão a oportunidade de lhe cobrar o envolvimento (excessivo?) numa campanha eleitoral a 1500 km de distância.

Mais de 50% de abstenção

Ainda que a vitória não esteja em causa, o líder do PS está preocupado. Sobretudo com o valor da abstenção: em 2012, o PS venceu com maioria absoluta (52.793 votos), mas com menos de metade da minoria que votou (107.783 votantes num universo de 225.109). Vasco Cordeiro não se tem cansado de apelar ao voto, não importa em quem: “Não deixem de votar.” O presidente do governo regional sente como mais ninguém a importância da participação dos cidadãos para assegurar minimamente a sua própria legitimação e a do poder que exerce há quatro anos.

À mesa dos jantares-comícios a impressão é bem diferente. Entre os milhares que vão às sopas eleitorais serão muito poucos os que não são funcionários públicos ou das empresas do chamado sector público empresarial regional. O entusiasmo militante é comedido, mas o cumprimento do dever é irrepreensível, ninguém falta. O apelo à “Confiança” marcou esta campanha de continuidade de mandato. Teme-se o excesso de certezas, ainda que ninguém possa ignorar a abissal capacidade de mobilização que o partido do governo revela face aos adversários.

O PSD de Duarte Freitas, apesar das fraturas que a profunda e radical renovação provocou, conseguiu ainda assim uma das maiores concentrações desta campanha. No pavilhão da Associação Agrícola estiveram mais de três mil participantes no jantar-comício da semana passada. Duarte Freitas tem esgrimido os números “da desgraça” revelados nos boletins estatísticos, mas não consegue disfarçar o reconhecimento do peso da “confiança” e “estabilidade” que a “maioria do governo” inspira.

Estatísticas negras

A informação do Instituto Nacional de Estatística (INE), com efeito, não deixa margem para dúvidas. Os Açores, face ao resto do país, lideram no desemprego, nas condenações por crimes de abuso sexual, no insucesso escolar, no abandono escolar e no analfabetismo, na violência doméstica, na gravidez na adolescência, no consumo de álcool, na pobreza persistente e bate os recordes nacionais de dependência dos Rendimento Social de Inserção,18.292 beneficiários, 8.4% da população (dados de julho de 2016), a mais alta taxa do país (que é de 2%).

Em junho passado, um relatório da OCDE sobre o bem-estar, revela friamente os paradoxos da referida “tragédia açoriana”, comparando-a com outras regiões de países-membros. Numa escala de 1 a 10, os Açores atingem 9.9 pela excelência do seu ambiente sem poluição. Em matéria de segurança, 9.5, o 6º lugar entre as sete regiões portuguesas estudadas. O ‘resto’ impressiona... pela negativa. No rendimento anual disponível, o valor é de 3.2; na saúde 2.0; na habitação, número de quartos por pessoa, 5.0; emprego 3.6; e, por último, participação cívica (percentagem de votantes em eleições) é 0.0.

Com 40 anos de autonomia, o governo dos Açores tem sido repartido, com vantagem para o PS, entre sociais-democratas (liderados por Mota Amaral) e os socialistas Carlos César e Vasco Cordeiro, que concorre a um segundo mandato. Mota Amaral deixou o poder, em 1995. Carlos César impôs a si próprio, por lei por si criada, uma limitação de três mandatos.

A autonomia, em si, é unanimemente reconhecida como um sucesso. E, tanto maior é a convicção nas virtudes da governação açoriana quanto maiores são as responsabilidades institucionais dos “autonomistas” do continente. António Costa, ainda antes de se imaginar primeiro-ministro de Portugal, não se poupava em elogios ao “exemplar” governo socialista dos Açores liderado por Carlos César. E, repetiu-os agora, na pré-campanha eleitoral, em comícios em São Miguel e na Terceira para orgulho de César e Vasco Cordeiro. É verdade que há ‘obra’ de extasiar, em número e em excelência. Mas convive com uma realidade social contraditória, como se vê nos boletins do INE. E é tudo isto que vai a votos dia 14.