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Tensão entre BE 
e PCP preocupa PS

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Marcos Borga

Partidos à esquerda do PS mantêm acordo enquanto virem nele “mais vantagens do que prejuízos”

Os focos de tensão das últimas semanas entre BE e PCP estão a suscitar alguma preocupação no PS. Embora exista nas hostes socialistas a convicção de que as recentes polémicas entre comunistas e bloquistas — na sequência do novo imposto sobre património elevado — estão ainda longe de abalar a consistência dos acordos à esquerda, há quem veja na troca de palavras entre BE e PCP o sinal evidente de uma tensão que, a aumentar, poderá resultar num problema para a atual solução de Governo.

No entender de alguns socialistas ouvidos pelo Expresso, mais do que a gestão dos compromissos do Governo e do PS com cada um dos parceiros à esquerda, será mesmo a relação entre BE e PCP que poderá abrir fissuras na ‘geringonça’. A troca de palavras entre João Oliveira e Mariana Mortágua foi disso exemplo. “Andam uns a juntar com o bico e outros a espalhar com as patas”, escreveu Oliveira no “Avante!”, criticando o protagonismo do BE na divulgação do novo imposto sobre o património quando este não estava ainda fechado. “No meio de um ataque da direita o líder parlamentar do PCP escolhe criticar quem defende a medida, penso que faz mal”, contrapôs Mortágua.

Desde o início das conversas para o acordo à esquerda que bloquistas e comunistas não se sentam à mesma mesa para negociar propostas. Mas se tem sido possível ao Governo gerir essas negociações bilaterais de forma a satisfazer todas as partes, já os choques públicos entre BE e PCP ultrapassam a esfera de ação de Costa. O assunto é ainda mais sensível atendendo a que, para as fontes contactadas pelo Expresso, a atual solução de Governo seria impossível de repetir numa nova versão com apenas um dos parceiros à esquerda. Por questões aritméticas (a necessidade de garantir a maioria de deputados no Parlamento), mas também porque mesmo que essa maioria ficasse garantida apenas com dois dos partidos em futuras eleições (por exemplo juntando apenas PS e BE, ambos com mais votos), a estabilidade desse novo acordo estaria sempre ameaçada pela ausência do outro partido no apoio ao Governo.

Pedro Adão e Silva admite que “a tensão entre BE e PCP é séria e é o mais instável dos aspetos da atual solução” de Governo. Mas Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do BE, recusa fazer leituras partidárias — ou eleitorais — à atual solução de apoio ao Governo PS. “Ninguém entrou neste acordo coagido. Todos estão de livre vontade e isso acontecerá enquanto todos virem mais vantagens do que prejuízos. Não sendo um mundo perfeito, tem mais vantagens do que as alternativas”, defende. “Esta solução existe por percebermos o que foram os quatro anos anteriores. Conseguimos suster o caminho de destruição do país, que continuaria a ser trilhado com PSD e CDS no poder”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 1 de outubro de 2016