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Quando uma parte da esquerda tinha a utopia da mesa redonda

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ILUSTRAÇÃO TIAGO PEREIRA SANTOS

Pétala a pétala, vão sendo conhecidos novos pormenores dos bastidores dos acordos da esquerda. O Expresso revela na íntegra o documento que PS e Bloco gostariam que tivesse sido assinado a quatro, mas cuja formulação e alcance o PCP recusou

Um ano após as eleições legislativas que mudaram o mapa político português, data que é assinalada nesta terça-feira, dia 4 de outubro, alguns factos e documentos de trabalho da negociação entre os vários partidos de esquerda começam a ver a luz do dia.

É o caso do texto consensualizado entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda, já revelado nas suas principais linhas na edição impressa do Expresso, mas que só agora o Expresso publica na íntegra. Pode vê-lo AQUI.

Em todo o processo negocial foi sempre muito evidente que o PCP negociava exclusivamente com o PS e nunca aceitou qualquer diálogo efetivo com o Bloco. Chegou a haver uma reunião formal entre os dois partidos, mas o que saiu dela foi a ilustração de uma célebre máxima dita aos jornalistas por Jerónimo de Sousa, anos antes, quando comunistas e bloquistas estiveram frente a frente numa reunião (na altura o BE era liderado por Francisco Louçã).

Bloco e PCP até poderiam caminhar pela mesma estrada, em direção à mesma meta, mas “cada uma teria de pedalar na sua bicicleta”, disse Jerónimo.

Um documento assinado a quatro

Mas a 5 de novembro, quando fecharam o acordo, socialistas e bloquistas ainda acalentavam o sonho de um texto assinado a quatro. O desejo de ver PS, Bloco, PCP e Verdes, todos juntos, sentados à volta da mesma mesa, foi passado a escrito.

Como as conversações entre socialistas e comunistas estiveram sempre mais atrasadas (só foram fechadas no fim de semana que antecedeu a assinatura das posições conjuntas, a 10 de novembro, uma terça-feira), a base de entendimento que o PS já havia selado com o Bloco não teve o acolhimento do PCP.

O resto da história já é conhecida: os comunistas impuseram aos socialistas um texto diferente (e apenas subscrito pelos dois). E para que somatório das posições conjuntas bilaterais não houvesse documentos muito díspares, PS e Bloco (por sugestão do primeiro) aceitariam reescrever o seu acordo. No caso do BE, que já aprovara o texto na sua Comissão Política, teve de reunir novamente o órgão de direção, para ratificar a versão retificada.

Ver as diferenças à lupa

O que mudou nas duas versões dos acordos? Foi o desafio que o Expresso lançou ao historiador António Costa Pinto e aos linguistas Amália Mendes e Pierre Lejeune.

Para Costa Pinto, relativamente às principais linhas da política do Governo, não há grandes diferenças entre o acordo que não valeu e as posições conjuntas.

Já para Amália Mendes e Pierre Lejeune, a segunda versão do documento não tem a força vinculativa da primeira. E as formas de compromisso existentes são contra a coligação PSD/CDS e são expressas pelo uso de tempos verbais no futuro (e sempre em oposição à direita). Para fazer a comparação, lendo as posições conjuntas, veja AQUI, AQUI e AQUI.

Pinguepongue negocial

O primeiro draft do texto agora dado a conhecer, “mais extenso e mais concreto”, segundo um dos negociadores, foi elaborado pelo PS. Entregue ao Bloco, foi quase todo reescrito, tendo voltado às mãos dos socialistas, que por sua vez lhe fizeram diversas alterações.

A nova versão foi enviada ao BE, que processou algumas retificações, mais cirúrgicas. O PS aceitou as alterações, tendo os dois partidos chegado a um entendimento a 5 de novembro.