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Como Medina, Jorge Costa e Louçã negociaram logo 
na manhã de 4 de outubro

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Nuno Botelho

Emissários de António Costa e Catarina Martins sentaram-se à mesa no dia das eleições legislativas, ainda o país estava a votar

As conversações entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda, um início de diálogo entre os dois partidos que permitiria um dos entendimentos à esquerda, começaram logo no dia das eleições legislativas de 2015, muito antes de serem contados os votos. Foi em Lisboa, na zona de Picoas, num “encontro informal” até agora mantido em segredo, que estiveram frente a frente emissários de António Costa e de Catarina Martins. O líder do PS foi representado por Fernando Medina, o presidente da Câmara da capital e membro do Secretariado socialista. Já em nome da coordenadora do BE esteve Jorge Costa, da Comissão Política do partido (horas depois seria eleito deputado e é um dos vice-presidentes da bancada).

Um terceiro homem esteve presente: Francisco Louçã, antigo coordenador do BE. Foi ele, aliás, o intermediário entre os líderes, e a quem coube depois fazer as apresentações entre Fernando Medina e Jorge Costa. Estes era como se não se conhecessem: haviam-se cruzado duas décadas antes no movimento estudantil, mas perderam o contacto.

Os três intervenientes confirmam o encontro, mas apenas Louçã aceitou comentar, e unicamente sobre o enquadramento da conversa, em que teve um papel ativo.

O encontro fora pedido ao líder histórico do Bloco por António Costa, na véspera, sábado, 3 de outubro, dia de reflexão. Foi numa comunicação que mantiveram, primeiro por SMS e depois em conversa ao telefone.

O primeiro contacto foi de Louçã, numa mensagem escrita apenas num plano pessoal, enviada a um “amigo”, como diz. O candidato a primeiro-ministro puxaria depois o assunto para o campo da política. Falou da necessidade de BE e PS conversarem, apelando a que houvesse serenidade no dia seguinte.

Costa toma a iniciativa

Costa pediu de seguida a Louçã uma linha direta com Catarina Martins. O líder do PS pretendia duas coisas. Em primeiro lugar, que houvesse troca de informações sobre como cada um dos partidos reagiria no dia seguinte. As sondagens davam já uma moldura segura de resultados: a coligação de direita venceria as eleições, mas a esquerda ficaria em maioria no Parlamento. A única dúvida era saber se o grupo parlamentar do PS superava o do PSD (não veio a acontecer).

O segundo pedido de Costa ia muito mais além. Queria uma “reunião exploratória” entre o PS e o Bloco, para discutir cenários abertos por uma correlação de forças no Parlamento favorável à esquerda. Foi um daqueles casos em que se juntou a fome com a vontade de comer. Ninguém quis perder tempo. Apalavrado no sábado à noite, o encontro realizou-se na manhã seguinte, cerca do meio dia.

Apesar do evidente passo político que estava a ser dado, as coisas eram tratadas com pinças. “Um encontro muito informal”, definia-o uma das partes. “Uma consulta prospetiva, sem qualquer compromisso”, ressalva ainda agora o outro lado. Mesmo com cautelas, deu no que deu.

Medina quis logo esclarecer uma coisa. Na campanha eleitoral, Catarina Martins repetira que o Bloco aceitaria um diálogo com o PS, visando a eventual viabilização de um Governo, desde que os socialistas deixassem cair três pontos do programa eleitoral: corte de 1660 milhões de euros nas pensões; descida da TSU das empresas; e criação do “despedimento conciliatório”.

Medina desejava saber se tudo aquilo fora uma manobra de retórica ou era uma disponibilidade real do BE. Jorge Costa garantiu que era a sério.

As três condições haviam sido colocadas por Catarina Martins a António Costa a 14 de setembro, no frente a frente televisivo. Para não se comprometer (quer o “sim” quer o “não” seriam sempre piores do que ficar calado), ignorou a pergunta. Como haveria de fazer orelhas moucas nas mais de duas semanas seguintes, durante a campanha. Dia após dia, Catarina repetia e matraqueava a oferta que fizera. À custa de uma coisa ser tantas vezes dita (e sem qualquer feedback de Costa a fazer ruído), o Bloco fazia eco como partido que também propunha soluções para uma nova solução à esquerda.

Mas o mandatário da líder do BE sublinhou ao enviado de Costa que a clarificação sobre a proposta de Catarina se tratava apenas de um “início de conversa”. Era a base para um diálogo; não para um acordo. O eventual apoio do Bloco a um Governo do PS obrigaria a discutir muitos outros temas. Jorge Costa elencou alguns desses tópicos: pensões; reversão dos cortes na Função Pública; salário mínimo; reversão de privatizações então em curso e garantia de que o Estado não alienaria mais nada. Foi apenas uma lista indicativa: o primeiro caderno de encargos do Bloco ao PS apenas seria entregue na primeira reunião formal entre os dois partidos, na sede do BE, no dia 12 de outubro.

A reunião foi mantida em absoluto segredo (e é ainda hoje do conhecimento de muito pouca gente). Então, nem Costa nem Catarina revelaram a sua existência nas reuniões subsequentes das respetivas direções partidárias.

O receio de um recuo

Na noite de 4 de outubro, conhecidos os resultados, confirma-se o cenário sobre o qual horas antes haviam trabalhado Fernando Medina e Jorge Costa, na presença do líder histórico do Bloco. Depois, é conhecida a cadeia de reações, iniciada pelo PCP e prosseguida pelo BE, dizendo-se disponíveis para um novo desenho do mapa político português, mas ambos passando a bola ao PS.

Quando Costa fala, posicionando-se em todos os tabuleiros, mas alertando também para que não contassem com o PS como mera peça de uma “maioria do contra”, a declaração do líder socialista pareceu um relativo recuo: “Para quem acompanhou a troca de impressões durante o dia, o discurso de António Costa nessa noite deixou muita incerteza”, conta agora Louçã.

Uma certa apreensão manteve-se na manhã seguinte. Era 5 de outubro, quando o presidente da Câmara de Lisboa profere o habitual discurso na sessão comemorativa do aniversário da implantação da República.

Medina analisou os resultados eleitorais e falou das “três mensagens fundamentais” que, em seu entender, foram deixadas pelos portugueses. Estes, disse então, “pretendem um país comprometido com a Europa e a moeda única”; “afirmaram que querem uma mudança na política económica e social”; e sublinharam também “a exigência do entendimento entre partidos para dar ao país uma solução de governabilidade estável e eficaz”.

É um texto que tem agora de ser visto com outros olhos. Era a primeira intervenção pública de uma figura de proa do PS, o que já teria sempre certo peso político. Mas sabe-se agora que foi lido por alguém que detinha informação privilegiada sobre as intenções de António Costa.

O discurso de Medina refletia tão-somente o que nessa manhã era a perspetiva do PS: disponível para negociar com todos, mas muito cauteloso quanto à possibilidade um inédito entendimento à esquerda. Esse teria de passar nas semanas seguintes por provas difíceis. Mas no caso de socialistas e bloquistas, o caminho começou a ser trilhado a 4 de outubro, quando muitos portugueses nem sequer tinham votado.

Texto originalmente publicado na edição de 1 de outubro de 2016