Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

António Guterres e uma dúvida chamada Rússia

  • 333

António Guterres ainda como responsável pelo ACNUR no Sudão do Sul

TONY KARUMBA/GETTY IMAGES

O candidato mantém-se na dianteira, mas ainda pode haver rasteiras. Incógnitas persistem

A base para a eleição já está alcançada: António Guterres obteve nas cinco votações mais do que os pontos necessários para ser o próximo secretário-geral das Nações Unidas. Depois da quinta vitória com 12 pontos, ficou tecnicamente sozinho na pista. Agora, “é evidente que a decisão final será política e da responsabilidade dos cinco elementos permanentes” do Conselho de Segurança (CS), diz ao Expresso o embaixador António Monteiro, para quem o surgimento de uma segunda candidata — apoiada pela Bulgária e mulher, Kristalina Georgieva — nesta altura do processo, na quarta-feira, não será ilegal, “porque nada é ilegal”, mas “não é moral nem eticamente aceitável e retira à ONU o carácter de legitimidade”.

A corrida está em aberto e uma fonte diplomática da ONU sublinhou ao Expresso que o processo não é linear: “Não é aquele que alcança mais vitórias em consultas indicativas que vence”, porque o Conselho de Segurança é que decide e o processo é concluído numa final, “não é um campeonato de pontos”.

A partir da próxima votação no dia 5 de outubro já se começará a ter uma ideia mais clara do desfecho, assim que sejam tornadas públicas as primeiras declarações dos P5, os membros permanentes do CS — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Quanto a esta, mantém-se a nebulosa.

Apesar de a única declaração oficial de Berlim ter sido sustentar que não fazia sentido pronunciar-se sobre nenhum dos candidatos, uma vez que não se conta entre os P5, causou perplexidade. Foi citada como “ofensiva diplomática” de Angela Merkel junto de Vladimir Putin para oficializar a troca de candidatas búlgaras, ou seja, Irina Bokova por Kristalina Georgieva.

Diplomacia pouco tradicional

Esta atitude dá origem a várias perguntas e correspondentes interpretações, nenhuma delas realmente esclarecedora. Nenhum apoio da Alemanha foi negado ou confirmado oficialmente. Mónica Dias, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, lembra ao Expresso que a falta de coerência de Berlim introduzida por ocasião do G20 poderá decorrer de “conversações internas entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Chancelaria”, ou mesmo “com a Rússia”, as quais são de momento opacas para ao exterior.

Do ponto de vista da diplomacia tradicional, não faz sentido que a Alemanha apoie uma candidata que, preenchendo dois dos requisitos não oficiais — mulher oriunda do Leste europeu (o terceiro é mérito) —, entra tarde na corrida saltando as provas públicas. A situação pode conferir-lhe uma vulnerabilidade que o ex-alto-comissário da ONU para dos Refugiados não tem. O ex-embaixador de Portugal na ONU vai mais longe e diz duvidar que a candidatura de Georgieva “seja bem vista”. Monteiro critica a posição da Alemanha na forma como “tenta influenciar” o sentido do voto, explicando “não haver necessidade de um terceiro candidato porque não existe empate”.

A verdade é que até 31 de dezembro podem ser apresentadas todas as candidaturas. A candidatura e as razões que terão levado à troca de apoio a Bokova pelo apoio a Georgieva pertencem “a questões internas do Governo”, diz ao Expresso a mesma fonte diplomática da ONU que frisa que a “candidatura do ex-primeiro-ministro português está a correr muito bem”: “Ele está à frente, isso é objetivo.”

“Portugal tem feito uma excelente campanha, ainda que, às vezes, haja um certo voluntarismo”, diz o diplomata das Nações Unidas, que entende que o processo da eleição do próximo secretário-geral será decidido com alguma rapidez, “até meados de outubro o mais tardar”. A Rússia tem neste momento a presidência do Conselho de Segurança e, a não ser que surja alguma turbulência nas relações com os EUA, Moscovo quererá resolver a escolha “o mais depressa possível”, conclui. Isto não quer dizer que chegue ao fim um único candidato. A escolha poderá recair até sobre três.

A posição da Rússia tem sido “correta”, diz António Monteiro, lembrando que, enquanto herdeira da União Soviética no Conselho de Segurança, faz sentido que apoie uma candidata oriunda de um país do Leste europeu, ainda que Moscovo não tenha ainda revelado qual das duas tem o seu apoio.

Os esforços da diplomacia portuguesa contaram, desde o início, com um apoio de peso. Marcelo Rebelo de Sousa envolveu-se diretamente, quer nos contactos internacionais, quer na enorme ação de campanha pró-Guterres que pôs em marcha na sua deslocação à ONU, quer na reunião do Conselho de Estado a que esta semana presidiu em Belém.

Um Conselho de Estado ao dispor

A agenda do encontro previa que se debatesse a situação política, económica e financeira internacional. Mas o comunicado final, monotemático, não deixou dúvidas: Marcelo quis que esta reunião tivesse como único objetivo apoiar o candidato “exemplar” e deixar alguns remoques à búlgara que, como disse o Presidente da República, entrou na maratona “nos últimos 100 metros”.

“O engenheiro António Guterres cumpriu com empenho todas as etapas do processo, nomeadamente audições e debates, credibilizando os novos procedimentos estabelecidos pelo Conselho de Segurança, valorizando o estatuto das Nações Unidas e o papel da Assembleia Geral”, lê-se no comunicado. Uma referência clara ao processo de candidatura da búlgara Georgieva, que motivou fortes críticas dos conselheiros. Pinto Balsemão falou mesmo de “batota”. Os conselheiros subscreveram que o candidato português “tem a qualidade, a experiência, a visão estratégica, a capacidade de diálogo e o espírito de disponibilidade e abertura que tão importantes são para enfrentar com êxito os exigentes desafios que às Nações Unidas se colocam no presente e no futuro”.