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Rui Moreira anuncia que coleção Miró fica em Serralves

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Rui Duarte Silva

Alterações necessárias à casa para que a exposição fique em permanência no local estão a cargo do arquiteto Siza Vieira

Já havia sido anunciado por António Costa que a coleção Miró, pertencente ao Estado, ficaria no Porto após a sua primeira exposição em Serralves. A futura e permanente localização ainda não era conhecida. Esta sexta-feira, ao final da tarde, após a inauguração da exposição “Joan Miró: Materialidades e Metamorfoses”, o presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), Rui Moreira, pôs fim à especulação. O conjunto de 85 obras do pintor catalão ficará onde já está: na Casa de Serralves.

“Entendo ser este o momento e local próprio para revelar a nossa opção para o futuro”, começou por dizer Rui Moreira aos jornalistas. “Depois de uma prudente ponderação, entendi que esta coleção notável, coerente e indissolúvel, agora sob a tutela da Câmara Municipal do Porto, não poderia de momento ficar em melhor lugar do aqui na Casa de Serralves”, anunciou o autarca.

A decisão já estava tomada, mas o presidente da CMP decidiu aguardar pela inauguração da exposição. Na cerimónia marcaram também presença o Presidente da República, o primeiro-ministro António Costa, o Ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, e até o chefe do governo espanhol, Mariano Rajoy. Mas foi o autarca portuense a fazer a revelação. “Entendi, por respeito, que não me deveria pronunciar sobre este tema antes do discurso do primeiro-ministro”, explicou Rui Moreira.

Em relação a António Cosa, o autarca deixou um agradecimento especial por ter tomado a decisão de que a coleção ficaria instalada em permanência na Invicta. “Sabemos que é muito difícil decidir no Porto, mas sabemos que é muito mais difícil decidir para o Porto. Na cidade estamos todos muito agradecidos a todos os que nos ajudaram”, afirmou Rui Moreira.

O modelo institucional e financeiro será anunciado dentro de dias, acrescentou ainda o presidente do município. “Garanti ao Ministro da Cultura que nada disto onerará o Estado. Estamos muito agradecidos por o Estado nos entregar a coleção e, portanto, o município do Porto não terá dificuldade em fazer o investimento que for necessário”, garantiu o autarca.

Tal como foi explicado, a Casa de Serralves terá de ser submetida a algumas alterações para que possa acolher de forma permanente a coleção Miró. O desafio para realizar as transformações necessárias no edifício foi efetuado ao arquiteto Álvaro Siza Vieira, que, de imediato, aceitou a tarefa.

Rui Moreira destacou ainda que a escolha de Serralves é a mais lógica e coerente. “Todos compreenderão também que Serralves tem todos os recursos técnicos para garantir a maximização deste projeto. Ninguém compreenderia que, neste momento, se tentasse replicar na Câmara Municipal do Porto estas competências”, sustentou.

Ana Pinho Macedo Silva, presidente do conselho administrativo da Fundação de Serralves, contou que a decisão foi ponderada, mas que a resposta só poderia ser afirmativa. “Recentemente, quando fomos abordados pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, estudamos o assunto e a consideramos que faz todo o sentido
expor, em permanência, a coleção nesta casa”, explicou a dirigente que destaca também “a grande correspondência entre a arquitetura desta casa e a primeira parte da produção artística de Miró”.

A responsável acrescentou igualmente que “as obras poderão beneficiar da vivacidade contemporânea que Serralves oferece e da competência para cuidar desta coleção”.

Um namoro antigo

Há muito tempo que se falava da possibilidade de as 85 obras da autoria do pintor catalão Joan Miró ficarem em permanência no Porto. O namoro era antigo e acabou em casamento. O Governo deu o primeiro passo ao manifestar essa vontade e Rui Moreira retribuiu, afirmando a disponibilidade da cidade para acolher a coleção avaliada entre 35 e 54 milhões de euros.

Na passada terça-feira, chegou a confirmação por parte do primeiro-ministro António Costa. E agora, chega a confirmação do local.

A coleção de obras do pintor catalão, umas das principais referências do movimento surrealista, passou para as mãos do Estado em 2008 após a nacionalização do Banco Português de Negócios (BPN). Durante a legislatura da coligação PSD/CDS, com Passos Coelho na liderança, o conjunto chegou mesmo a ser colocado à venda e a ser exposto em Londres.

Em 2014, o empresário luso-angolano Rui Costa Reis fez chegar uma proposta para adquirir a coleção no valor de 44 milhões de euros e garantia a manutenção das obras na cidade do Porto durante 50 anos. No entanto, a transação não se consumou e a oposição, nomeadamente PS e PCP, sempre recusaram a opção de alienar a coleção. Em duas ocasiões, ações interpostas pelo Ministério Público travaram o processo.

Em fevereiro deste ano, João Soares, então ministro da Cultura, dirigia fortes críticas ao anterior Governo e afirmava que “a coleção Miró foi enviada para fora do país em condições de ilegalidade absoluta”. Dois meses depois, em abril, Soares apresentou a demissão e foi substituído por Luís Filipe Castro Mendes.

A 24 de julho, começou o namoro entre o Governo e a cidade do Porto com vista à exposição permanente da coleção. "É desejo do Governo que os Mirós fiquem no Porto, agora o Porto tem de dizer se os quer", disse o atual responsável pela pasta da Cultura.

A resposta da Invicta não se fez demorar e, um dia depois, Rui Moreira considerou “ótima” a ideia. “Agora, vamos durante os próximos dias trabalhar para perceber se há condições, de facto, para podermos ter isto num equipamento municipal, se o Estado pretende ter aqui um museu nacional ou se é um museu municipal. São tudo questões que ainda não estão certas", dizia, há dois meses, o autarca portuense.

[Notícia atualizada às 2248]