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Forte de Peniche: projeto que PCP considera “inaceitável”... é de autarca do PCP

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Marcos Borga

António José Correia, que preside à câmara de Peniche eleito pelo PCP, é um dos grandes defensores da entrada de privados no Forte de Peniche para construir um hotel. Em resposta às críticas do partido, garante que a memória histórica do local será preservada. E admite que terá havido "falta de comunicação"...

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

António José Correia, o presidente da Câmara Municipal de Peniche (CMP) eleito pela CDU, foi um dos grandes defensores da inclusão do Forte de Peniche na lista de 30 monumentos nacionais que serão alvo de concessão a privados. A lista foi divulgada esta semana pelo Ministério da Economia e pela Secretaria de Estado do Turismo. A abertura a privados da histórica fortaleza que foi alvo de críticas muito duras do PCP - o partido considera "inaceitável" a concessão a privados do local onde estiveram presos lutadores antifascistas, incluindo Álvaro Cunhal, que protagonizou aí uma espetacular e mítica fuga.

Afinal, o autarca independente eleito com as cores comunistas foi um dos grandes defensores dessa ideia, tendo reiterado o apoio à concessão a privados numa recente reunião com a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho. E nem se trata de uma posição nova: ao Expresso, António José Correia confirma que desde que foi eleito, em 2005, se bate por esse projeto, que já vinha do executivo anterior, que era liderado pelo PS. "Não sou só eu que apoio, é toda a Câmara", sublinha o edil, notando que, na recente reunião com a secretária de Estado, estiveram dois autarcas eleitos pela CDU (o presidente e o seu vice) e dois vereadores da oposição (um do PS e outro do PSD).

"Em Peniche, todas as forças políticas têm esta proposta nos seus programas eleitorais há muitos anos", frisa o comunista. Este consenso local vem pelo menos desde que, em 2001, a CMP assinou um protocolo com a Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e com a Enatur, que previa a utilização de parte da fortaleza para uma Pousada de Portugal.

"A Oeste nada de novo"

"A Oeste, nada de novo", ironiza António José Correia, lembrando que ao longo dos anos foram mudando os Governos (PS, depois coligação PSD-CDS, outra vez PS), mas a ideia manteve-se, embora com protagonistas diferentes nos bastidores. "Já houve uma maqueta do Siza Vieira, o Grupo Pestana fez outro projeto, mas nenhum se concretizou."

Em todos esses momentos manteve-se uma condição essencial da proposta: "A condição de que ninguém abdica é a preservação da memória do local e a compatibilização de usos" entre os núcleos museológicos que já existem e serão reforçados, e a utilização como empreendimento turístico. "O que todos os partidos dizem, de forma inequívoca, é que não existindo instrumentos para que o município possa investir mais do que tem investido na preservação e utilização do forte, a concessão a privados é a melhor alternativa, desde que o caderno de encargos salvaguarde todas as questões que nós fomos os primeiros a colocar em cima da mesa, desde as acessibilidades ao enriquecimento dos conteúdos museológicos", diz o autarca.

Em declarações por escrito ao Expresso, o PCP afirmou esta semana que a inclusão do Forte de Peniche numa lista de 30 monumentos que serão alvo de concessão a privados é "uma manifestação de desprezo para com a luta antifascista em Portugal" e "um dos mais significativos ataques à memória coletiva dos portugueses".

"Estamos a preservar a memória"

"Pelo simbolismo que encerra, não podemos deixar de criticar de forma veemente o facto de o governo ter colocado nesta lista a Fortaleza de Peniche, ignorando a importância histórica e cultural de um espaço onde não é possível conciliar a actividade hoteleira e turística com a necessidade de preservar integralmente as suas características prisionais históricas", reforçou o gabinete de comunicação dos comunistas.

Nada mais errado, responde o autarca independnete eleito pelo PCP. "Estamos a preservar a memória do Forte de Peniche", assegura António José Correia, acrescentando que "nada disto põe em causa os espaços históricos". O autarca admite que "há legitimidade na posição do PCP, na apreensão genérica relativamente ao programa" anunciado pelo Ministério da Economia, mas assegura que as críticas em relação a Peniche não fazem sentido.

"Admito que possa ter havido alguma falta de comunicação", diz, perante o facto de estar a ser criticado pelo seu próprio partido. "Mas a verdade é que não houve nenhuma alteração substantiva em relação àquilo que há muitos anos se quer fazer", atalha.

Memorial antifascista

Sobre o simbolismo do local, o edil lembra até que, antes do verão, a autarquia aprovou uma alteração ao orçamento municipal para incluir uma verba de 75 mil euros destinada a construir um memorial evocativo da luta antifascista. O projeto prevê uma escultura e a listagem dos nomes de todos os presos políticos que foram detidos na fortaleza.

"Enquanto eu for presidente da Câmara de Peniche vou bater-me por este projeto", garante António José Correia, que em 2005 conquistou o município ao PS. O autarca está no seu terceiro mandato e não pode recandidatar-se em 2017. Este desentendimento com o PCP pode ser visto nesse contexto.