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Mário David: “Nunca fui lobista, nem sou”

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Barrosista promove há três anos a rival de António Guterres, Kristalina Georgieva, na corrida à ONU. Em junho, disse ao Expresso: “Não recebo lições de patriotismo de ninguém”

Eis um belo exemplo de como se faz lóbi diplomático. Durão Barroso recebe um convite da Universidade de Sófia para dar uma conferência sobre "A nova sociedade digital". Mário David, ex-eurodeputado pelo PSD, ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus do Governo de Santana Lopes (julho de 2004 a março de 2005) e peça-chave da sua candidatura a presidente da Comissão Europeia em 2004, encontra-se na cidade para promover a candidatura da búlgara Kristalina Georgieva a secretária-geral da ONU, contra Irina Bokova, a candidata oficial do país. David junta-se a Barroso, leva-o a encontros com o Presidente e o primeiro-ministro búlgaros, e falam da corrida à ONU.

A notícia corre: Barroso apoia Georgieva. Barroso desmente: apoia António Guterres "como sempre".

Em declarações ao Expresso, Mário David confirma que "há mais de três anos" que trabalha no projeto da próxima rival de Guterres, e confia que "vários chefes de Estado e de Governo da região têm-se consciencializado de que só o aparecimento de uma nova candidata forte lhes poderá acalentar a esperança de a região não perder a oportunidade de ficar com o lugar". E o envolvimento de Barroso na história? "Foi um dano colateral", afirma David, que classifica de "delírio" a notícia do jornalista búlgaro ("há muito suspeito de incentivar a candidatura de Bokova") que pôs Durão a apoiar Kristalina.

O "dano colateral" nasceu no Facebook do primeiro-ministro búlgaro, que, no passado dia 7 de junho, publicava uma fotografia do encontro entre o próprio Boyko Borisov, Mário David, Durão Barroso e uma tradutora. Foi o rastilho para o terramoto diplomático.

Oficialmente, Durão estava na cidade para a tal conferência.

E Mário David, "estava convidado para também estar" e, paralelamente, combinou "encontros de cortesia e amizade com o Presidente e o primeiro-ministro búlgaros". Foi "quanto baste" para a notícia que deixou Barroso em xeque - a 10 de junho, o jornal online "Euroactiv" punha o ex-presidente da Comissão Europeia a apoiar a (nova?) candidata búlgara, recuando assim na sua anterior declaração de apoio a António Guterres.

Georgi Gotev, o autor da notícia, escreveu no Facebook: "Dois portugueses, Barroso e Mário David, a fazer jogo duplo." E explicou: o objetivo seria eliminar Irina Bokova, a candidata oficial da Bulgária ao mais alto cargo da ONU, que o jornalista refere como "a mais forte", mesmo contra Guterres "Elementar, Watson", concluía o jornalista.

Apanhado pela notícia na Alemanha, numa reunião do grupo de Bilderberg, Durão Barroso apressou-se a desmentir qualquer apoio que não seja a Guterres.

"Apoio-o como sempre", disse ao Expresso. E Mário David associa-se ao desmentido. Embora confirme que o tema da eleição do secretário-geral foi falado nos encontros de Sófia: "Não lhe vou mentir nem ser hipócrita, claro que sim! Fui eu quem o introduziu", David diz que "quando o Borisov se virou para Durão Barroso e perguntou: "Que achas, José Manuel?", a resposta foi: "Nessa questão e nos problemas com as candidatas não me meto. É assunto do Mário David.

A minha posição é pública e repetidamente reafirmada. Apoio inequivocamente a candidatura de António Guterres." Não foi essa a tese que correu em Sófia. O "Euroactiv" adiantava que Barroso teria pedido ao chefe do Governo búlgaro para que alterasse a candidatura oficial do seu país de Bokova para Georgieva, que é comissária europeia e conhece bem Durão Barroso. Toda esta intriga diplomática tem como pano de fundo duas regras não escritas que há cerca de um ano se instalaram no guião para a escolha do sucessor de Ban Ki-moon: o eleito deveria ser da Europa de Leste e, preferencialmente, uma mulher.

Mário David é apontado como muito influente a Leste e o seu papel visto como de grande importância para uma candidatura desta região. Recusando ser um lobista: "Nunca fui, nem sou", o ex-vice-presidente do PPE garante que o apoio que dá a Georgieva "é obviamente não remunerado". Sobre o seu não apoio a Guterres, sublinha que quando começou a trabalhar com a búlgara, o ex-primeiro--ministro socialista ainda não era candidato à ONU ("iria ser o candidato presidencial do PS"), e também recorda que quando Durão se candidatou a presidente da Comissão Europeia houve "eurodeputados do PS, PCP e BE que fizeram gala em afirmar que votariam contra". "Não recebo lições de patriotismo de ninguém", afirma. Quanto à sua alegada proximidade à Rússia de Putin, cujo voto é determinante para a eleição do próximo secretário-geral da ONU, Mário David lembra que acaba de ser eleito em Washington para a direção de uma Fundação presidida por Bill Clinton. O lóbi diplomático é um mundo.

Texto originalmente publicado na edição de 18 de junho de 2016