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Louçã deu ajuda 
a Costa

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Livro sobre o processo de criação da “geringonça” revela papel do fundador do BE como ponte entre socialistas e bloquistas

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

O grosso da história já era conhecido, mas a investigação conduzida pelas jornalistas Márcia Galrão e Rita Tavares conseguiu reconstituir o fio dos dias que mediaram 4 de outubro (data das legislativas) e 26 de novembro de 2015 (data da tomada de posse do XXI Governo, presidido por António Costa) e detalhar “Como Costa montou a ‘geringonça’ em 54 dias”. São mais de 300 páginas, com a chancela da editora Lua de Papel, apresentadas como um diário que, cronologicamente, nos conta o que permitiu ao líder do PS, derrotado nas eleições, formar Governo com o apoio parlamentar de BE, PCP e PEV.

No capítulo a que o Expresso teve acesso, referente ao “Dia 8 — domingo, 11 de outubro”, fica a saber-se que Francisco Louçã desempenhou um importante papel como ponte entre o PS e o BE: “António Costa já não tinha o amigo Miguel Portas do outro lado. Mas tinha o amigo Francisco Louçã.” O fundador do BE ligara ao líder socialista no dia da reflexão (3 de outubro), depois de nunca o ter feito durante a campanha eleitoral. “Tinham conversado sobre a campanha eleitoral, num tom de cordialidade, mas que deixava transparecer conversas com terceiros que ambos sabiam que tinham ocorrido, mas que jamais confirmariam. Conversas que davam a António Costa uma certa esperança ou até segurança de que a esquerda não lhe tiraria o tapete.”

Preparado para perder, não para desistir

“Naquele sábado falaram das sondagens. Um e outro sabiam que a direita ia ganhar. A dúvida era que resultado ia ter a esquerda. Nas entrelinhas perceberam ambos que o outro sabia que o dia seguinte e o possível entendimento entre os seus partidos ia depender da diferença que a esquerda conseguisse em relação à direita.” Louçã, nunca referido no livro em discurso direto, percebeu naquela conversa ao telefone, que o amigo estava preparado para perder as eleições, mas não para deitar a toalha ao chão: “Para ele o jogo ainda não acabara.”

O capítulo dá ainda conta do papel, esse já conhecido, dos “jovens turcos” do PS — com Pedro Nuno Santos à cabeça — no estabelecimento de relações com as jovens gerações, não só dentro do BE, como do PCP. Foi o agora secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares que transmitiu a Costa “a certeza” que o BE “ia levar a negociação a sério”, depois de os bloquistas ultrapassarem as reservas com que encaravam a possibilidade de os comunistas deitarem “por terra toda a divergência histórica” que os separava do PS.

Com prefácio de Pacheco Pereira, “Como Costa montou a ‘geringonça’ em 54 dias” estará à venda a partir de terça-feira.