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Júlio Machado Vaz devolve medalha à Câmara do Porto e deixa ainda “espelhos e consciências”

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Rui Duarte Silva

O mediático psiquiatra vai devolver a medalha de mérito municipal em reação ao encerramento da Comunidade de Inserção Eng. Paulo Vallada, por ele dirigida, e às promessas de auxílio não cumpridas pela autarquia

André Manuel Correia

O médico psiquiatra e especialista nas áreas da sexualidade e toxicodependência Júlio Machado Vaz anunciou, na sua página de Facebook, que irá devolver estya quinta-feira a medalha de mérito municipal que lhe foi atribuída pela Câmara Municipal do Porto (CMP). O motivo desta decisão, de acordo com o que se lê no texto, prende-se com o encerramento, a partir de outubro, da Comunidade de Inserção Eng. Paulo Vallada, criada em 2007 e destinada a apoiar jovens mães com ações de apoio integrado.

O médico de 67 anos e diretor técnico da associação lança críticas à autarquia e acusa-a de não ter dado os prometidos apoios para salvaguardar a sobrevivência da referida IPSS (instituição privada de solidariedade social).

“Aos que muito prometeram e nada cumpriram deixo o que já lhes pertence – espelhos e consciências. Com a exceção da Câmara do Porto, à qual deixarei algo meu”, escreve assim Júlio Machado Vaz, com palavras fortes, e fazendo referência à medalha que recebeu da CMP em julho de 2015.

“A minha medalha será devolvida à Câmara. Dir-me-ão que se trata de um mero gesto simbólico. É verdade, mas por trás dos símbolos vivem ideias, maneiras de ver o mundo e de nele estar. E, quem sabe, talvez a próxima IPSS que solicitar vinte ou trinta minutos de atenção tenha mais sorte”, lê-se igualmente na publicação partilhada publicamente, esta quarta-feira, na sua página pessoal.

Primeiro as promessas, depois o silêncio absoluto

Júlio Machado Vaz explica que há dois anos pediu auxílio ao município para “estabilizar” a Paulo Vallada e que a resposta terá sido afirmativa. Na altura, conta o diretor técnico, a autarquia exigiu que a instituição reduzisse os seus custos de funcionamento, o que conduziu a que a equipa fosse “espremida”, a despedimentos e uma redução dos encargos salariais. Os contactos, garante, foram sempre mantidos com o vereador Manuel Pizarro, com o pelouro da Ação Social.

“Informei o Dr. Manuel Pizarro da nova realidade, fornecendo os números, como era minha obrigação. E esperei. Nada aconteceu, de um momento para o outro os canais de comunicação deixaram de funcionar; silêncio absoluto”, explica Machado Vaz.

Quando em 2015 lhe foi atribuída a medalha de mérito municipal, o diretor da Comunidade de Inserção Eng. Paulo Vallada salientou que “precisava mais do cumprimento de promessas feitas do que de honrarias”. Por essa altura, acrescenta, as mesmas promessas foram renovadas por parte da autarquia.

No início de 2016, a IPSS foi informada de que teria de encontrar novas instalações e por essa altura começaram as reuniões na tentativa de lograr um final risonho para a associação. “Escrevi ao Dr. Manuel Pizarro, solicitando uma reunião a quatro, comigo pela Paulo Vallada, o Dr. Carlos Abrunhosa de Brito pela Fundação da Juventude e o Dr. António Tavares pela Santa Casa. Nenhuma resposta. Um mês depois repeti a diligência, salientando a urgência da situação. Silêncio mantido”, lamenta, no texto. “Por que não merecia a sobrevivência de uma instituição portuense, há nove anos dedicada à premente problemática da maternidade adolescente, uma simples reunião?”, questiona o psiquiatra.

Machado Vaz acredita tudo ter feito pelas jovens mães e filhos que receberam o apoio da Comunidade de Inserção Eng. Paulo Vallada. Apesar do desfecho e de estar de “luto”, garante que “o Porto está acima de qualquer amargura pessoal”.

A medalha, essa, devolve-a, pois acredita que a cidade “não avalia os seus filhos pelas honrarias acumuladas”, apenas pede a “intransigente defesa da honra”.

Pizarro destaca o valioso trabalho e reitera disponibilidade para a resolução dos problemas

Contactada pelo Expresso, a autarquia fez chegar uma reação escrita, assinada pelo vereador Manuel Pizarro, onde se pode ler que “a CMP conhece a situação e as dificuldades financeiras que atravessa a Comunidade de Inserção Paulo Vallada, que faz um valioso trabalho de proteção de mães em dificuldades e dos seus filhos”.

Nas palavras de Manuel Pizarro, o executivo municipal “reitera a disponibilidade já assumida de ajudar a resolver esses problemas de acordo com os recursos ao seu alcance”, mas acrescenta que a autarquia “não tem ao seu dispor nenhuma alternativa que permita a instalação da Comunidade”.

A breve nota assinada por Manuel Pizarro frisa que a CMP “é alheia” ao facto de que a Paulo Valladas se verá privada das suas instalações. “Isso resulta da venda do imóvel em que está instalada desde a sua criação, que era propriedade da Fundação da Juventude”, acrescenta o vereador municipal.

Relativamente à devolução da medalha de mérito municipal por parte de Júlio Machado Vaz, a Câmara do Porto não se quer pronunciar e o seu presidente Rui Moreira recusa, por enquanto, tomar posição.