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Declarações de Mortágua dividem socialistas

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Marcos Borga

No Facebook, João Galamba e Porfírio Silva defendem a deputada do BE; Sérgio Sousa Pinto (num post com muitos likes de outros socialistas) diz que as declarações da deputada vão sair caras ao PS

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Nunca um convidado externo a uma iniciativa do PS causou tanta controvérsia. As declarações da deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua – que, no sábado, numa conferência do PS, defendeu que "só a esquerda radical pode salvar o capitalismo" e "é preciso perder a vergonha de ir buscar a quem está acumular" – foram interpretadas como correspondendo à defesa de um imposto (generalizado) sobre a poupança, numa linha política que está longe de ser unânime no partido.

O deputado socialista Sérgio Sousa Pinto – que nunca escondeu o seu desagrado com a aliança do PS aos partidos à sua esquerda – viu nas palavras da deputada uma "lição ministrada do alto do legado histórico do trotskismo ou de uma qualquer seita comunista heterodoxa" que versa assim: "PS, penitencia-te, ainda vais a tempo, junta-te a nós, 1975 é passado, o capitalismo não sobreviverá ao nosso grandioso compromisso histórico".

Para Sousa Pinto, Mortágua é um exemplar dos "jovens burgueses cripto-comunistas e habilidosos pantomimeiros da velha escola" e, não tem dúvidas, esta "paródia senil", "sairá cara" ao PS. Acusando-a de ser porta-voz dos que "querem reabrir a gaveta onde Soares fechou diferentes caricaturas do socialismo", dos que "não escondem ao que vêm: superar o modelo", contrapõe: "Eu gosto do modelo. Foi construído pelo PS, com tremenda dificuldade, e pela direita democrática. Com o contributo do radicalismo esquerdista nunca se conseguiu construir uma cadeira de pau. Quanto mais o Socialismo". Jamila Madeira (também deputada), João Serrano e João Paulo Pedrosa foram(ex-deputados) foram alguns dos que colocarm "like" no post.

Perante a controvérsia, o porta-voz do PS para a Economia veio esclarecer as palavras da deputada do BE. "Nem a Mariana Mortágua disse o que lhe atribuem, nem o PS aplaudiu em peso as declarações que ela não fez", garante. O vice-presidente do grupo parlamentar afirma que ela "falava num painel sobre desigualdades e apresentou dados sobre desigualdade de rendimentos e concentração da riqueza. Falava, portanto, dos 1% mais ricos". "É sobre esses, não sobre os que poupam", esclareceu, reiterando: "não é seguramente 'ir às poupanças' dos portugueses, nem um 'saque fiscal', nem 'atacar a classe média', nem tentar 'acabar com a livre iniciativa e a propriedade privada'.

Já Porfírio Silva referiu-se ao "burburinho" causado pela intervenção de Mortágua como revelando "a indigência de algum pseudo-debate político". O deputado socialista defende que "essa forma de falar (salvar o capitalismo) se usa há muito tempo para representar o debate sobre a forma como as críticas ao capitalismo acabam por ser mais ou menos usadas pelo próprio capitalismo para se adaptar". E assegura: "Este debate não é novo, nem foi inventado pela Mariana Mortágua. O que ela ontem disse, sobre este ponto, em substância, é que os economistas críticos, que levam Marx ou Keynes mais longe, compreendem melhor o capitalismo do que, por exemplo, os neoliberais - ou os social-democratas, já que ela também estava a criticar a família socialista (e com razão em pontos essenciais, por exemplo quando disse que nos deixámos levar na cantiga da liberalização do capital)".